sábado, 31 de agosto de 2013

Braços Abertos aos Médicos Cubanos!


Mário Maestri 

A insurreição de associações profissionais e de milhares de médicos e estudantes de medicina contra a chegada dos colegas cubanos tem registrado despudoradamente o abismal nível de desumanização produzido pela mercantilização da saúde no Brasil. Os milhões de brasileiros desassistidos surgem como referências imateriais na retórica cínica que defende qualidade do serviço médico que a população brasileira desconhece, seja na área pública e, comumente, igualmente na privada.

No frigir dos ovos, defendem apenas a restrição do número de médicos, em prol da manipulação safada das leis do livre-mercado. Com menos médicos, melhores negócios! E a população que se lixe! Sob a escusa da excelência da formação e das prestações médicas, defendia-se, ontem, a restrição do número de universidades de medicina e, hoje, o monopólio corporativo do ato médico e o embargo à chegada de profissionais do exterior, com destaque para os cubanos, socialistas e, horror dos horrores, não poucos negros!

Que venham aos milhares!

Que venham os médicos cubanos, às dezenas de milhares! Mesmo que cheguem apenas para tapar os buracos da incúria governamental quanto à saúde pública, mais e mais encurralada no balcão de negócios da medicina privada. Mercantilização da saúde popular aplaudida pela indústria hospitalar, de medicamentos e de planos de saúde; por associações de classes; pelos milhares de profissionais privilegiados – ou apenas seduzidos – por profissão transformada em meio de enriquecimento sem limites.

Que dezenas de milhares de médicos cubanos sejam distribuídas pelos ermos perdidos dos extremos sociais e geográficos do nosso país! Que povoem o interior distante do Acre ou a periferia próxima de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Porto Alegre e de Salvador. Ainda que tais colocações penosas devessem ser momento transitório – e profissionalmente enriquecedor – de carreira médica público-estatal. Não é isso que fazem os concursados do Banco do Brasil e os membros da forças militares, sem “choro e ranger de dentes”?

Entre os médicos cubanos chegará algum incompetente, como propõem denúncias literalmente histéricas? Certamente. E quem de nós já não se encontrou com profissionais ineptos, mesmo nos consultórios e hospitais privados de nossas mais adiantadas capitais? Sem que haja meios de afastá-los de uma profissão para a qual não se qualificaram técnica ou moralmente. Ao contrário do que ocorrerá no caso dos médicos visitantes. Qualquer erro que fizerem terminará com enorme destaque na telinha da rede Globo e nas páginas da Folha de São Paulo, Estadão, Zero Hora et caterva.



Meros Paliativos

Acusam-se os médicos cubanos de serem paliativos para situação calamitosa e meios de publicidade política de governo que persegue desesperadamente a avaliação positiva perdida. No que não estão errados. Ao igual que as administrações anteriores, lulistas e pré-petistas, Dilma Rousseff apostou na medicina mercantil, nos planos de saúde, no financiamento privado dos cuidados médicos por população brasileira transferida maciçamente por decreto para a classe média! E teve como resposta a reivindicação por saúde e educação pública e gratuita de multidões enraivecidas que sequer conseguem pagar 3,20 reais por passagem de ônibus urbano! Engrossadas por aqueles que conseguem pagar a passagem mas são depenados pela medicina e pela educação privada!

Entretanto, não é menos certo que os médicos cubanos e estrangeiros salvarão a vida e mitigarão as penas urgentes de milhões de desassistidos, mesmo quando eventualmente não dispuserem das instalações condizentes, como também denunciado. Instalações que certamente serão por eles reivindicadas. Tudo isso enquanto se discute, produtiva ou improdutivamente, com boas intenções ou malevolamente, sobre as soluções estruturais futuras, de longo fôlego.

Os médicos estrangeiros enviados para os cafundós sociais e geográficos do Brasil atenderão brasileiros desconhecedores de serviços médicos mínimos, aos quais têm direito constitucional. Ampliarão a consciência desses brasileiros sobre o valor e a necessária luta por serviço público universal de qualidade. Certamente outros dois motivos da oposição visceral da indústria, de associações e de profissionais da saúde que se locupletam com sua mercantilização.

Por tudo isso e por muito mais, os médicos cubanos – e de outras nacionalidades – devem ser recebidos com festa, com fogos de artifício e braços abertos! Mas atenção. Nosso abraço deve ser o da população agradecida e não o do urso aproveitador!

Em Defesa dos Médicos Cubanos

Os médicos cubanos não são mercenários da medicina, apenas preocupados com a remuneração material. Não são igualmente missionários que se alimentam de princípios morais e políticos – se é que existe tal gente. São trabalhadores especializados que exercerão suas atividades no Brasil. Portanto, encontram-se necessariamente submetidos e protegidos pelas leis trabalhistas nacionais – mesmo que elas sejam pernetas e limitadas.

Os cubanos devem receber a mesma remuneração que os demais estrangeiros. É reivindicação dos trabalhadores, consagrada pela legislação atual, que ao “mesmo trabalho” cabe a “mesma remuneração”. Não importando as diferenças de sexo, raça, idade e nacionalidade. Nenhum casuísmo justifica o desrespeito desse princípio. Pouco importa o que recebem seus companheiros em Cuba, já que eles viverão e trabalharão no Brasil, e não na ilha do Caribe. Aos médicos cubanos cabe a bolsa de dez mil reais, paga diretamente pelo governo brasileiro.

Se aceitarmos o princípio da missão estrangeira, teríamos que concordar com que governos africanos enviassem trabalhadores contratados, recebendo por eles seus salários das autoridades brasileiras, e pagando-os abaixo do estipulado pela legislação nacional. Não impugna a terrível analogia o fato de que ela tenha sido proposta por interessados em sabotar a vinda dos médicos cubanos, e não em defender seus direitos.

Nada de bantustão!

Os médicos cubanos têm o direito inarredável de trazer consigo seus cônjuges e filhos menores, como todo estrangeiro com contrato de trabalho no Brasil. Tal impedimento permite outra lembrança terrível. Para manter o controle político-econômico, o apartheid construiu os bantustões, pseudo-micro-estados negros, de onde os trabalhadores partiam temporariamente para prestarem serviços nas minas da África do Sul, sem poderem levar consigo as famílias. O que dificultava a radicação na África do Sul e facilitava a manutenção da relação semi-servil.

Não podemos também negar o direito de permanecer no Brasil aos médicos cubanos que assim o quiserem, por razões afetivas e, sobretudo, econômicas. Ser radical é ir à raiz da questão, e não transformar sonhos e fantasias em realidade. Com a crescente restauração capitalista em Cuba, os trabalhadores ligados à esfera pública conhecem remunerações miseráveis, enquanto prosperam os que conseguem se incorporar à esfera mercantil que canibaliza a economia nacionalizada. A expatriação interessa também aos médicos cubanos pela remuneração em moeda forte, impossível de ser realizada em Cuba no serviço público. [Maestri, Mário. “Cuba sob o signo da restauração capitalista”. www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=5296.

Mas é igualmente indiscutível o direito do Estado cubano de ser remunerado pelos médicos que formou, enquanto trabalham no Brasil, ou caso queiram aqui permanecer. Qualquer coisa diversa seria explorar a esfera pública da sociedade cubana. Essa indenização deve recair totalmente sobre o Estado brasileiro, que se negou a financiar a formação dos trabalhadores da saúde que necessitamos dramaticamente. E não sobre os médicos cubanos.

Em Defesa de Cuba Socialista

É inadmissível o desfrute por qualquer aparato governamental da força de trabalho dos médicos cubanos que devem chegar aos borbotões para ajudarem a suprir as necessidades dramáticas de nossa população.

Apenas o respeito estrito dos direitos civis e trabalhistas mínimos dos médicos cubanos permitirá que essa contribuição inestimável se dê nas melhores condições. E não resulte em todo tipo de constrangimento e aproveitamento por aqueles que se mobilizam para levar tal iniciativa ao fracasso.

O imperialismo estadunidense já tem programa consolidado para fomentar deserção mercenária de médicos e profissionais especializados cubanos no exterior, através de suas embaixadas e consulados. O que constitui uma agressão à economia socialista da ilha, em contínua retração, sob a retórica estadunidense de solidariedade contra a opressão comunista.

Apenas visão progressista tacanha não compreende que também a defesa de Cuba socialista – e do que representou e ainda representa – passa inarredavelmente pela defesa solidária dos direitos de seus médicos no exterior.

Mário Maestri é historiador e professor do PPGH da UPF. Email: maestri@via-rs.net 
Publicação: 28 de Agosto de 2013

Fonte: listahistória

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Legião Urbana e o rock dos anos 1980

Estudo feito na Unesp e publicado em livro analisa a indústria cultural e os agentes envolvidos na consolidação do gênero no país (capa do álbum "Que país é este") 
15/08/2013
Por Noêmia Lopes
Fonte: Agência FAPESP – No campo das Ciências Sociais, o rock nacional não tem o mesmo prestígio de manifestações como a Bossa Nova e a MPB. Enfrenta até mesmo certa resistência por conta de seu estrangeirismo, de seu caráter de produto importado.
Partindo dessa premissa e já inserida em um contexto em que tal cenário começa a se transformar, a cientista social Érica Ribeiro Magi lançou o livro Rock and Roll é o nosso trabalho: A Legião Urbana do underground ao mainstream.
A obra parte do estudo de mestrado da autora, com apoio da FAPESP e defendido na Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (FFC/Unesp), campus Marília (SP).
“Meu objetivo era compreender o processo de consolidação do rock brasileiro na década de 1980 – por meio da escalada de sucesso da banda Legião Urbana, do underground, vivido em Brasília e São Paulo, ao mainstream, no Rio de Janeiro –, analisando a forma pela qual essa geração emergiu e construiu o seu espaço de trabalho na indústria cultural”, afirmou Magi à Agência FAPESP.
Segundo ela, até a década de 1970, o rock feito no Brasil não estava nas paradas de sucesso (exceto por Rita Lee e Raul Seixas), nas capas dos cadernos de cultura e em programas de rádio e TV.
O gênero, seus músicos e fãs estavam às margens do que era respeitado pela imprensa e valorizado pelas gravadoras. “Relacionar rock a trabalho e afastar a imagem dos roqueiros dos estigmas de ‘drogados’ e ‘inconsequentes’ foram princípios construídos e defendidos pela geração de bandas da década seguinte”, disse Magi.
A legitimidade comercial e cultural veio da atuação de bandas como a Legião Urbana, de jornalistas e de produtores musicais, bem como da articulação entre esses diferentes atores sociais. Com base em jornais, revistas, programas de rádio e televisão e álbuns do grupo de Renato Russo, o estudo mostra como tais redes de sociabilidade deram origem a critérios de produção e avaliação musical – que, por sua vez, foram essenciais na consolidação do gênero no país.
Ao longo do texto, a autora conclui que tal articulação entre agentes sociais diversos não seria possível da mesma forma nos dias de hoje. “Isso porque se consolidaram formas de produzir, criticar e divulgar o rock no Brasil que independem de relações de amizade ou de proximidade entre os agentes – ao menos quando falamos em mainstream. “Talvez ainda seja possível encontrar uma articulação parecida no ‘cenário independente’”, disse Magi.
A produção e a crítica musical se profissionalizaram, ganharam formas próprias de expressão e até mesmo diplomas específicos. O gênero assumiu contornos de um “trabalho” propriamente dito e tanto o mercado de trabalho quanto o sistema de ensino foram palcos de transformação.
Magi segue pesquisando o percurso do rock brasileiro, agora no doutorado sobre “A indústria cultural e o ROCK brasileiro dos anos de 1980”, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), também com Bolsa da FAPESP.
Rock and Roll é o nosso trabalho: A Legião Urbana do underground ao mainstream 
Autora: Érica Ribeiro Magi 
Lançamento: 2013 
Preço: R$ 40 
Páginas: 231 
Mais informações: www.alamedaeditorial.com.br/rock-and-roll-e-nosso-trabalho 


Fonte: listahistória-GEHB

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entrevista a Mumia Abu-Jamal sobre a música negra




[Mumia conversa com Michael Coard sobre música negra desde os tempos da escravidão até a época do hip hop, passando por sua entrevista com Bob Marley em 1980. É o segundo episódio do Radio Prision Show realizado em 3 de julho em 900AM-WURD, na Filadélfia. Agora este programa se transmite todas as primeiras quartas-feiras de cada mês, às 11 horas da manhã, durante o último segmento do programa Radio Courtroom (Tribunal pela Rádio). Se perdeste o programa, leia a transcrição abaixo.]

Michael Coard > Este é o Radio Prision Show, um segmento do Radio Courtoom Show, aqui em 900AM WURD, apresentando Mumia Abu-Jamal. Vocês se lembrarão de que mês passado Mumia esteve conosco para a estreia do Radio Prision Show. Vamos conversar sobre vários temas, mas para alguns de vocês que talvez não conheçam o nome de Mumia Abu-Jamal, digamos que tem vivido em uma jaula durante as últimas duas décadas, permitam-me lhes dizer quem é: um pai, um esposo, um autor e um inquilino temporário de uma prisão, mas um revolucionário permanente. Sem mais delongas, aqui está conosco Mumia Abu-Jamal. Como está Mumia?

Mumia Abu-Jamal < Mais ou menos bem, Michael. É um bom dia para estar vivo. E um bom dia para estar conversando contigo.

Michael > Bem dito, Mumia. Tenho que te dizer que no mês passado quando fizemos nosso primeiro programa, a sala estava abarrotada, não sobravam assentos, se tal coisa é possível para um show de rádio. As pessoas ficaram assombradas. As convidei a mandar suas perguntas para conversar contigo sobre elas, mas disse que nos primeiros programas queremos escutar sua voz e o que tem a dizer. Agora estamos no mês de julho e você vai estar conosco nas primeiras quartas-feiras de cada mês. Mas uma das coisas que não tivemos a oportunidade de conversar contigo foi a respeito de música. Impressiona-me cada vez que escuto mais sobre você. O que quero dizer é que conheço seu trabalho para os despossuídos, os desamparados, conheço sua luta como revolucionário, mas esta não é a totalidade de Mumia Abu-Jamal. De fato, me interei ao conversar com outras pessoas que você sabe muito mais de música que alguns chamados profissionais da música. Alguém me perguntou por que não havia falado contigo mês passado sobre o mês da Música Negra e o que significa para você, o que significa para nosso povo e o que significa para os revolucionários, porque há aqueles que pensam que se você está ai, na primeira linha lutando pelas pessoas, não pode apreciar a música. Fale-nos sobre tudo isto, começando com a importância da música, se é que é importante, e em particular a música negra.

Mumia < Então, acho que a música negra tem uma importância vital. Quando pensa em nossos antepassados que chegaram principalmente de várias partes da África Ocidental, o que nos ajudou a suportar a noite escura da escravidão foi a música. Por que seria um crime tocar tambores? O que aprenderam os inteligentes observadores da gente africana foi que na África e em outras partes das Américas, era possível enviar mensagens sobre imensos espaços com os tambores. Assim se comunicaram e por isso o fizeram ilegal. O que fizemos é o que sempre fazemos. Usamos o que tínhamos para superar a situação e prevalecer. Os irmãos e irmãs em grilhetas bailaram. Seus pés descalços golpearam a terra. Bailaram. Cantaram. Deixa eu te dar um exemplo.

Michael > Sim, sim.

Mumia < Há vários anos li um livro autobiográfico escrito por uma das pessoas mais importantes das Américas. Chama-se “A Narrativa da Vida de Frederick Douglass”, publicado primeiro em 1845. Te dou uma breve citação.

Michael > Sim, por favor.

Mumia < É sobre o poder das canções que se conhecem como “as espirituais”, para que entenda. Diz: “Quando eu fui escravo não compreendi o significado profundo dessas canções rudes e aparentemente incoerentes, eu mesmo estava dentro do círculo, por isso não via, tampouco escutava o que alguém de fora poderia ver ou escutar. Contaram uma história de infortúnio que ia além de minha pobre compreensão. Os tons eram fortes, longos e profundos. Exaltaram as preces e queixas de almas que ferviam com a angústia mais amarga. Cada tom foi um testemunho contra a escravidão e uma oração a deus para libertá-los de suas correntes. Escutar essas notas selvagens sempre deprimia o meu espírito e me enchia de uma tristeza indescritível. Com frequência eu chorava ao escutá-las. Até agora a repetição dessas canções me aflige. E enquanto escrevo estas linhas uma expressão de sentimento me corre pelo rosto. Essas canções me levaram a minha primeira tênue percepção do caráter desumanizante da escravidão. Nunca posso me desfazer dela. Essas canções me perseguem para afiar meu ódio pela escravidão e avivar minha simpatia com meus irmãos e irmãs em grilhões”.

Este é Frederick Douglass quem nos dá um sentido da força que nossa gente conseguiu comunicar, do profundo sentimento que transmitiram em nossas “espirituais”, as quais eram nossa primeira forma de música nas Américas. Devido ao fato desta ser a nossa única maneira de se expressar, houve uma explosão, geração após geração de gente negra se expressando através da música. Este era o espaço onde dizíamos: somos seres humanos, exigimos liberdade e isto é o que sentimos. Era uma maneira de nos comunicarmos não só entre nós, senão com todo o mundo. E agora, que música negra não é mundial? O rap se escuta em cada canto do planeta. A música pode ser uma ferramenta revolucionária se usada corretamente.

Michael > Bem dito, Mumia, e me agrada que ao princípio de seu comentário deixou claro que estava citando a narrativa de vida de Frederick Douglass escrita em 1845. Se você não tivesse esclarecido, eu poderia ter pensado que se referia a John Coltrane em 1965.

Mumia < (risos) Soa assim, sério?

Michael > Absolutamente. É muito poderoso. Antes que se acabe o tempo Mumia, gostaria de escutar seu ponto de vista sobre o rap, sobre o hip hop. Tenho lido seus escritos sobre muitos artistas. O que diz agora? Eu dou aulas sobre hip hop e me parece que muitas pessoas que tem mais de 40 anos o desaprovam. Dizem que é destrutivo, que é negativo, que não tem nada a ver com os velhos tempos, com a idade dourada do hip hop. Que acha disso tudo?

Mumia < Se me permite, tenho duas respostas. Uma é de memória e outra é uma nota que escrevi em preparação para momentos como este.

Quando Miles, o grande Miles Davis ainda vivia e estava tocando todo tipo de música, algumas pessoas o criticavam por suas mudanças, suas adaptações, suas criações. E Miles, sendo Miles, disse “Só há dois tipos de música – boa e ruim”. Pois bem, existem dois tipos de rap, bom e ruim. A música que te prende obviamente é a boa. A que não te alcança é ruim para você. Mas eu entendo que não se componha para pessoas de sua idade ou para minha idade. Compõe-se para gente mais jovem.

Michael > Sim, sim.

Mumia < Tenho outra citação. Do livro de Jay-Z, “Decoded” (Decifrado). Esta citação me impressionou porque penso que nos diz muito: “Penso que nós, os rappers, os DJs, os produtores fomos capazes de contrabandear algo da magia daquela civilização moribunda em nossa música e usá-la para construir um novo mundo. Éramos meninos sem pais. Por isso encontramos nossos pais na cera, nas ruas e na história. Em certo sentido, isto é um presente. Podemos escolher os antepassados que haviam inspirado o mundo que íamos criar para nós mesmos. Era parte do espírito e valores dos tempos e do lugar e se incorporou na cultura que nós criamos. Já se tinham partido nossos pais. Normalmente, se recuperaram. Mas tomamos seus velhos discos e os usamos para construir algo fresco”.

Isto é poderoso em muitos níveis.

Michael > Sim, é sim. Nunca imaginei que chegaria o dia quando estaria citando Mumia e Jay-Z ao mesmo tempo, mas é exatamente o que vou fazer. Mumia, você mencionou que há bom rap e mal rap. Qual sua posição sobre a chamada vulgaridade, a profanidade que vem até dos chamados rappers conscientes ou progressistas? Vê isso como algo desfavorável, algo negativo?

Mumia < Bem, eu não sou doutrinário sobre isso, por haver estado perto do pessoal do MOVE durante tantos anos, me acostumei a escuta-los usar o que se chama de “profanidade”. Mas eles dizem que não há nada mais profano que uma bomba, uma bomba atômica ou uma bomba de hidrogênio. Há gente que as constrói e as utiliza e isto não é entendido como uma profanidade. Por outro lado, se escuta uma palavra, te tiram uma onda. Eles queriam dizer que as palavras seguramente tem seu poder, mas os governos e estados tem outro tipo de poder e usam sua lei, seus exércitos, seus policiais e tudo para impor um tipo de obscenidade às pessoas diariamente. E suas ações não se entendem como obscenidade. A mim não me molestam as palavras porque todos as usamos. A questão é para quê.

Michael > Falando das palavras, sei que as usa para falar dos grandes músicos que você como jornalista entrevistou, entre eles Bob Marley. Conte-nos sobre isto.

Mumia < Uau! Em que ano foi?  1980, creio. Ele havia chegado a Filadélfia e se encontrava em um hotel na cidade. Falei com seu agente e consegui uma entrevista. Fui ao hotel com uns irmãos e, como te direi? Compartimos o sagrado sacramento.

Michael > (risos) Ah sim, a comunhão, como não.

Mumia < Tremendo. Poderoso. (risos) Bob Marley era uma alma realmente linda. Uma alma amorosa negra. Uma alma amorosa do mundo. Fizemos uma entrevista de mais ou menos vinte minutos.

Michael > Sim, te escutamos.

Mumia < Ele falava de como quisera que o povo negro neste país conhecesse ao movimento rastafári e escutasse ao reggae, que usasse dreadlocs e pensasse na África, coisas assim. Doía-lhe que poucas pessoas negras neste país assistissem a seus shows ou escutassem sua música ou a de outros artistas do reggae. E isto era certo naquele momento. Não acredito que seja agora. Mas sim o doía. Na verdade fizemos uma entrevista maravilhosa, muito bonita. Foi algo do mais memorável na minha vida, conhecer um dos meus heróis musicais, Bob Marley.

Michael > E falando de entrevistas maravilhosas, esta está para terminar. Conte pra gente nos últimos quarenta segundos, quem são alguns dos seus favoritos MCs e artistas de hip hop. Seguramente Public Enemy, Dead Prez, The Coup, Immortal Technique.

Mumia < Eu gosto dos irmãos que dizem muita verdade e colocam muita alma, muito espírito em sua música. KRS é lendário. Existem muitos irmãos talentosos e irmãs também.

Michael > Immortal Technique. Que acha?

Mumia < Immortal Tech. Um monstro.

Tradução > Caróu

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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

''Dúvidas sobre a morte de Jango só aumentam''. Entrevista especial com Lucília de Almeida Neves Delgado

“Se Jango de fato morreu de um problema cardíaco, por que não se fez a exumação e a biopsia? Por que essa resistência tão grande de anos e anos para se analisar seus restos mortais? A ausência de autópsia é mais um dado que sugere que sua morte não foi natural, porque se tivesse sido natural, para o respaldo do próprio governo militar à época, deveria ter sido feita a exumação de seu corpo”, avalia a historiadora.
               Foto de www.rededemocratica.org
Confira a entrevista.
A falta de “explicações sólidas” sobre a morte do ex-presidente João Goulart, fez dele o “político mais injustiçado da história do Brasil”, assinala Lucília de Almeida Neves Delgado em entrevista concedida à IHU On-Line, após comentar o documentário Dossiê Jango, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle. Ao analisar o filme à luz da História, Lucília, que há anos dedica-se à pesquisa sobre os fatos políticos do período militar, enfatiza que ele “reforça exatamente a construção de mais evidências sobre o possível assassinato de João Goulart”. Segundo ela, “de todas as pessoas que se envolveram na procura de provas e evidências sobre a morte de Jango, 18 morreram. Entre elas os políticos uruguaios Zelmar Michelini e Gutierrez Ruiz, que eram amigos do Jango e estavam investigando a morte dele. Também o empresário Enrique Foch Diaz, que mais conseguiu reunir muitas informações sobre a morte de Jango e escreveu um livro intitulado Jango: um crime perfeito, faleceu pouco tempo depois de publicado o livro”. E dispara: “Ficamos pensando: o que aconteceu para que todas essas pessoas, de uma forma ou de outra, fossem falecendo? A maioria por problemas cardíacos e alguns em decorrência de acidentes de carro. São coincidências muito estranhas, e as indagações sobre a morte de Jango só aumentam”.
De acordo com Lucília, Jango poderia ter retornado ao Brasil em 1974, dois anos antes de sua morte, período em que seu processo de cassação havia expirado. “Não havia mais razão legal para que ele continuasse no exílio e excluído da vida pública nacional. Uma interpretação que tem ganhado força é a de que com a distensão do regime, seguida de possíveis pleitos eleitorais, João Goulart e outros líderes políticos do pré 1964 poderiam se candidatar a algum cargo público. Como o governo militar não assimilava seu retorno à ativa, a opção teria sido  a de eliminá-los”, esclarece. E acrescenta: “havia um temor do governo de que lideranças excluídas em 1964 e que estavam no exílio voltassem para o Brasil com uma força muito grande. Esse temor era maior especialmente no caso dos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, ambos mortos em 1976”.
Para ela, a memória histórica de Jango “é injusta”, e baseada no “esquecimento e na desqualificação”. Esclarecer esse período, enfatiza, “é um dever histórico. (...) Não podemos construir uma história com sombras nebulosas, ainda mais sobre o episódio da morte de um ex-presidente, que após sua deposição amargou um exílio de mais de 12 anos”.
Lucília de Almeida Neves Delgado é professora dos cursos de graduação e pós-graduação em História da Universidade de Brasília – UNB. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutorado em Ciências Humanas/Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É autora de, entre outros, Comando Geral dos trabalhadores no Brasil (1961-1964) (Petrópolis: Vozes, 1986); e PTB: do getulismo ao reformismo (1945-1964) (São Paulo: Marco Zero, 1989).
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Que leitura o “Dossiê Jango” apresenta sobre a história do ex-presidente Jango?
Foto de blogs.estadao.com.br
Lucília de Almeida Neves Delgado – O “Dossiê Jango” não apresenta uma nova leitura sobre a história do ex-presidente João Goulart porque as questões levantadas pelo documentário falam de um assunto que já é abordado há muitos anos, e que se tornou mais forte quando começou a se falar da Operação Condor. O filme reforça exatamente a construção de mais evidências sobre o possível assassinato de João Goulart. Os depoimentos são muito contundentes, com exceção do depoimento de Muniz Bandeira, historiador, que afirma que Jango sofreu um problema cardíaco natural. As demais pessoas que se manifestam no filme, de uma forma ou de outra, dão declarações que reforçam a possibilidade de Jango ter sido assassinado. Duas coincidências importantes, para analisar o contexto de atuação da Operação Condor, tendo Jango como foco, foram as mortes de dois políticos da Frente Ampla, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, e Carlos Lacerda, além de João Goulart. Mortes ocorridas num período inferior há um ano, de 1976 a 1977. De todas as pessoas que se envolveram na procura de provas e evidências sobre a morte de Jango, 18 morreram. Entre elas os políticos uruguaios Zelmar Michelini e Gutierrez Ruiz, que eram amigos do Jango e estavam investigando a morte dele. Também o empresário Enrique Foch Diaz, que mais conseguiu reunir muitas informações sobre a morte de Jango e escreveu um livro intitulado Jango: um crime perfeito, faleceu pouco tempo depois de publicado o livro. Diaz foi o último dos 18 a morrer. O filme também apresenta o depoimento de Mário Neira, que participou da Operação Escorpião que, segundo suas palavras, tinha como objetivo assassinar Jango. Embora essa testemunha não seja muito fidedigna, pois é um criminoso recrutado pela repressão política do Uruguai para fazer parte de suas equipes de investigação, a dúvida persiste.  E ficamos pensando: o que aconteceu para que todas essas pessoas, de uma forma ou de outra, fossem falecendo? A maioria por problemas cardíacos e alguns em decorrência de acidentes de carro. São coincidências muito estranhas, e as indagações sobre a morte de Jango só aumentam.
Exumação do corpo
Há outros fatos que não têm explicações sólidas. O mais relevante diz respeito a não realização de biópsia no corpo do ex-presidente. Muitos perguntam por que a família não pediu a exumação do corpo, na verdade, a esposa dele, Maria Teresa Goulart, fez o pedido. Entretanto, um mês depois voltou atrás. A sensação que temos é de que ela sofreu uma pressão muito grande para retirar o pedido. Caso o presidente Goulart tenha morrido por causas naturais não havia razão alguma para evitar a necropsia de seu corpo. Ao contrário, seria uma ação favorável ao governo militar. Todas as dúvidas estariam resolvidas.
João Goulart foi o único presidente do Brasil que morreu no exílio. Em 1976, muito longamente, começava-se a falar em liberalização do regime. O filme mostra isso. E havia um temor do governo de que lideranças excluídas em 1964 e que estavam no exílio voltassem para o Brasil com uma força muito grande.  Esse temor era maior especialmente no caso dos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, ambos mortos em 1976.
O filme registra também, e isso é muito interessante, que em 1974, o prazo de cassação, por dez anos, dos direitos políticos de Jango, já estava superado. Portanto, não havia mais razão legal para que ele continuasse no exílio e excluído da vida pública nacional. Uma interpretação que tem ganhado força é a de que com a distensão do regime, seguida de possíveis pleitos eleitorais, João Goulart e outros líderes políticos do pré 1964 poderiam se candidatar a algum cargo público. Como o governo militar não assimilava seu retorno à ativa, a opção teria sido a de eliminá-los.     
IHU On-Line - Jango poderia ter retornado ao Brasil dois anos antes da sua morte?
Lucília de Almeida Neves Delgado – Na verdade, mesmo tendo passado os dez anos de sua cassação, se retornasse ao Brasil, com certeza, João Goulart seria preso. As evidências são de que os militares desconsideravam o próprio tempo de punição que estabeleceram anteriormente. Jango, inúmeras vezes, tentou negociar seu retorno ao Brasil, mas não teve êxito. Quando de sua morte não houve sequer autorização para que seu velório fosse realizado em caixão aberto. Ao contrário, o caixão estava lacrado.
Essa foi a condição estabelecida pelo governo federal para que ele pudesse ser enterrado em sua terra, São Borja (RS) e não na Argentina, onde faleceu. Tal fato reforça a ideia de que o regime militar usou de todos os recursos possíveis para fazer prevalecer uma memória de esquecimento sobre o presidente Jango. É lógico que há uma questão ideológica e estratégica nessa orientação. Creio que, no contexto de construção do esquecimento, tudo foi feito para impedir a visibilidade da imagem do presidente morto, o que poderia causar uma comoção muito grande. A visão de um corpo inerte e sem vida é forte, mas a de um rosto atrás de um pequeno vidro, por mais reverência que se tenha, não causa o mesmo impacto.
Redemocratização  
A redemocratização do Brasil, embora pressionada pela sociedade civil e por expressivo movimento social, só aconteceu mediante uma negociação que garantiu uma transição pacífica. Nesse contexto os acontecimentos referentes às mortes de João Goulart e Juscelino Kubitschek foram relegados ao esquecimento. No caso da morte de Juscelino, pouco se pode fazer, pois ele faleceu num acidente de carro. Teria de se investigar se houve algum problema no carro, mas é quase impossível provar algo. No caso do Jango havia a possibilidade de fazer uma investigação porque era possível exumar o corpo para esclarecer a causa de sua morte. Mas, de uma forma ou de outra, é preciso que se busque esclarecimentos mais detalhados sobre as morte dos ex-presidentes Jango e Juscelino. Essa é uma condição essencial de registro da verdade histórica. E o direito à História é uma das condições de exercício da cidadania plena. Não podemos construir uma história com sombras nebulosas, ainda mais sobre o episódio da morte de um ex-presidente, que após sua deposição amargou um exílio de mais de 12 anos.
Se Jango de fato morreu de um problema cardíaco, por que não se fez a exumação e a biopsia? Por que essa resistência tão grande de anos e anos para se analisar seus restos mortais? A ausência de autópsia é mais um dado que sugere que sua morte não foi natural, porque se tivesse sido natural, para o respaldo do próprio governo militar à época, deveria ter sido feita a exumação de seu corpo.
Injustiça
Jango é o político mais injustiçado da história do Brasil. Veja o caso de Juscelino: não tinham como apagar a obra dele porque a construção de uma capital da República, como Brasília, é algo extremamente palpável. Eterno. Além disso, quando foi prefeito de Belo Horizonte e governador de Minas Gerais, investiu muito na chamada construção da modernidade, que tem uma representação concreta, por exemplo, na Lagoa da Pampulha. No caso de Getúlio Vargas, sua morte o fez herói e mito. Além disso, sua obra governamental foi ampla, diversificada e sólida. Abrangeu realizações políticas, econômicas, culturais e sociais, embasadas em sólida concepção nacionalista, trabalhista e desenvolvimentista. No campo social, a maior herança de Getúlio Vargas é a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. Mesmo que ela tenha sido escrita em um tempo de ditadura, a importância de sua dimensão social e econômica é, por si só, suficiente para cravar a memória do ex-presidente na História Nacional Brasileira.
O João Goulart, pelo contrário, pagou um preço muito alto por suas convicções trabalhistas, reformistas e nacionalistas. Ele governou o Brasil no auge da Guerra Fria. Logo depois de Cuba ter se tornado em um país socialista. Jango tinha uma postura trabalhista, quase socialdemocrata, mas não teve tempo, nem condições para concluir obras que ficassem marcadas na história do Brasil. Mesmo assim três grandes marcos destacaram-se no seu mandato presidencial: a criação da Eletrobrás, que contribuiu para tirar o Brasil das mãos da exploração estrangeira da energia elétrica; segundo, o Estatuto do Trabalhador Rural que levou  a legislação social às áreas rurais; e terceiro, a criação da Universidade de Brasília, uma universidade visionária e progressista que, no entanto, pagou um alto preço por ter sido fundada no governo Jango. Durante o regime militar a UnB sofreu contínuas  pressões como: prisão de estudantes, invasão do campus universitário e demissão de professores.
Crise institucional
Em um contexto de muita polarização política, Jango enfrentou uma crise institucional permanente. Tomou posse sob pressão, pois os ministros militares do presidente Jânio Quadros, de quem era vice-presidente, usaram de todos os recursos possíveis para impedir sua posse como presidente, quando da renúncia do presidente, no ano de 1961. Goulart, governou então, durante cerca de dois anos, como presidente, em um sistema de governo parlamentarista, que lhe restringia poderes. Em janeiro de 1963, com o retorno do presidencialismo, passou a governar com todos os poderes constitucionais de um presidente da República.
Mas seu mandato continuou sobre forte pressão. Além de pressionado pelos movimentos sociais, que queriam a efetivação de reformas sociais e econômicas, as chamadas reformas de base, sofreu cotidiana oposição de empresários nacionais e internacionais, de segmentos conservadores da Igreja Católica, que temiam a instauração o comunismo no Brasil, da grande imprensa e dos grandes proprietários rurais.  Ou seja, ele se viu pressionado por todo o lado. Nesse quadro de hostilidade e pressões, não conseguiu construir uma marca governamental que fosse suficientemente sólida para não ser apagada. A partir daí se construiu uma visão absolutamente injusta sobre João Goulart. Na verdade, ele foi um homem público perspicaz, muito solidário e comprometido com as causas dos mais pobres, como hoje prega o Papa Francisco.
Infelizmente a memória consolidada sobre Goulart é muito injusta, pois baseada em dois suportes: esquecimento e desqualificação. Apenas para contextualizar, viajei de férias durante as semanas de lançamento do Dossiê. Quando voltei tive uma dificuldade enorme para assistir o filme, pois além de estar sendo ofertado somente em dois cinemas de Brasília, os horários de sua apresentação eram poucos. Consegui vê-lo em uma sessão das 13:00 horas. Na sala de projeção não tinha mais do que 20 pessoas.
IHU On-Line – Como a senhora vê o trabalho da Comissão da Verdade e a possível exumação do corpo de Jango?

Lucília de Almeida Neves Delgado – Há uma intenção, já declarada, da Comissão da Verdade de proceder à exumação dos restos mortais de Jango. Penso, entretanto, que graves dificuldades terão de ser enfrentadas. Uma delas refere-se ao tempo. Já se passaram mais de 36 anos de sua morte, e alguns técnicos dizem que talvez seja impossível se chegar a alguma conclusão mais definitiva sobre a causa “mortis” pelo estudo ósseo. Se assim for, a distância temporal terá contribuído para que a névoa que cobre a verdade sobre a morte de João Goulart não seja dissipada.
Quando à pesquisa, estudo, produção acadêmica e notícias da imprensa sobre o João Goulart, chego à conclusão de que foram construídas duas formas de abordagem em torno dele. Uma delas aprofunda a via do esquecimento, ou seja, tenta-se jogar Jango no limbo, anula-se a presença dele na história do país. A outra via é a da desqualificação, baseada em um discurso que ressalta suas qualidades negativas em detrimento de suas qualidades positivas. Jango pagou o preço de ser um reformista no tempo da guerra fria, quando o temor do comunismo era avassalador. Apesar de não ser comunista, não era anticomunista, pois visitou a China Popular e a União Soviética.  Além disso, tinha o costume de conversar com a população mais pobre e com os sindicalistas. Baseado nesses fatos a oposição construiu um discurso ideológico, segundo ao qual, sob seu governo o Brasil ou se transformaria em um país comunista ou em uma república sindicalista. Para ela, portanto, era necessário, desestabilizá-lo, depô-lo e excluí-lo da história brasileira.
A Comissão da Verdade está buscando esclarecer essa parte da história, mas imagino que esteja sofrendo uma grande pressão. Para mim fica uma dúvida prática. Quem guarda o túmulo de João Goulart e zela pela preservação de seus restos mortais, até a definição sobre a exumação?
Como historiadora, tenho duas esperanças: a primeira é de que os historiadores por meio de pesquisas e publicações façam jus à memória de Jango. Precisamos dar conta dessa tarefa inconclusa e desafiadora. O trabalho do historiador Jorge Ferreira, que recentemente publicou uma biografia de Jango, nesse sentido, é exemplar. A segunda esperança é de que, mais cedo ou mais tarde, as circunstâncias da morte do presidente deposto em 1964 sejam esclarecidas. Por isso, a oportunidade de atuação da Comissão da Verdade é ímpar. Considero que se ela conseguir esclarecer, ao menos alguns casos simbólicos, terá cumprido um papel histórico muito relevante. Espero que a morte de Goulart seja esclarecida, como ocorreu com a de Rubens Paiva. Esse é um dever histórico.

Fonte: listahistória-GEHB

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Diferentes olhares do fotojornalismo: projeto conta história da imprensa brasileira

Nos anos 1980, antes das câmeras digitais, avaliação de fotos
  seguiam outros parâmetros: imagens possibilitavam diversas leituras

         Comunidade quilombola: a partir da década de 1980,
  repórteres fotográficos retratam temática social
Daniele Kiffer/FAPERJ
           
Uma imagem vale mais que mil palavras. O dito popular pode ser evocado também para destacar a importância que as fotografias têm para a vida social, incluindo o jornalismo. No projeto “O olhar contemporâneo: memórias do fotojornalismo, Rio de Janeiro 1940-1990”, a fotógrafa Silvana Louzada da Silva, bolsista do programa Apoio ao Pós-doutorado no Estado do Rio de Janeiro – parceria da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) com a FAPERJ –, destaca a importância que as fotos adquirem, como catalisadoras históricas e transformadoras sociais, na história da imprensa brasileira. A pesquisa é desenvolvida no Laboratório de História Oral e Imagem sob a supervisão da historiadora Ana Maria Mauad, da Universidade Federal Fluminense (UFF).



Para levar adiante a proposta de pesquisa, foram entrevistados alguns dos principais repórteres fotográficos que atuaram entre os anos de 1940 e 1990, e reunidas algumas de suas principais imagens. As entrevistas, que abordam a trajetória de cada um deles, suas histórias de vida, desde quando ainda eram crianças até o período de pleno exercício profissional, estão sendo armazenadas no Laboratório de História Oral e Imagem (Labhoi) da UFF. O objetivo é disponibilizar as informações para estudos e pesquisas universitárias. "Nossa intenção é reconstruir a trajetória desses profissionais, contando como começaram na profissão, seu histórico familiar, em paralelo com o período em que atuaram como ‘mediadores sociais’, na medida em que participaram ativamente dos processos de transformação da mídia. Apresentamos a fotografia que foi produzida por tais agentes como suporte de representação social”, conta Ana Maria.




As pesquisadoras ressaltam que as primeiras gerações de fotojornalistas brasileiros vivenciaram a Segunda Guerra Mundial e viam fotógrafos, incluindo um dos expoentes da profissão, o francês Henri Cartier-Bresson, como verdadeiros heróis. “À época, a atividade do fotógrafo ainda não era reconhecida como categoria profissional, sendo vista, por causa da guerra, de uma forma romantizada”, diz Silvana. “A necessidade de imaginar, visualmente, o Brasil do futuro marcaria a geração de fotógrafos formada no ambiente do pós-guerra, definido tanto pela defesa dos valores democráticos, como por um processo de internacionalização da cultura ocidental”, acrescenta. Naquele período, a formação dos profissionais ainda estava ligada à experiência de vida pessoal e à convivência com os colegas de trabalho em redações de jornais. Em 1951, o lançamento do jornal Última Hora introduz um estilo e formato novos ao jornalismo. “Com o lançamento do jornal pelo Samuel Wainer, começa a haver uma maior profissionalização dos fotógrafos. A fotografia avança e, no âmbito jornalístico, passa a ter mais valor, mais espaço”, diz Silvana.



A partir dos anos de 1960, período histórico muito intenso devido à instalação do regime militar no Brasil, o fotojornalismo ganha uma característica mais militante, que irá influenciar diretamente no engajamento político dos fotógrafos nas duas décadas subsequentes. “Com o golpe de março de 1964 e a instauração do estado de exceção, a fotografia passa a ser também utilizada como instrumento de resistência, na medida em que alguns jornais se apropriam da linguagem fotográfica como uma forma de driblar a repressão a eles imposta, tendência que percorre praticamente todos os anos 1970”, ressalta Silvana.

Algumas histórias curiosas, envolvendo fotógrafos que viveram os chamados “anos de chumbo”, foram recuperadas pela pesquisa, como a do fotógrafo Alberto Jacob. “Ele nos contou em entrevista que, assim que tiravam uma foto, rapidamente retiravam o filme da máquina sem que ninguém visse e passavam para amigas ou repórteres guardarem em suas roupas íntimas, pois tinham a certeza de que seus equipamentos seriam quebrados pela polícia”.



A geração seguinte de fotógrafos, que entra em cena nos anos 1980, o foco principal do estudo, passa a frequentar cursos de especialização e universidades e, pouco a pouco, começa a formar uma nova classe profissional. Segundo Ana Maria, este é um momento de reformulação política no País, com a redemocratização, que mobiliza e une ainda mais os fotógrafos, quando, então, surgem diversas agências independentes de fotografia, mudando não só a forma como se faziam as fotos, como também o papel do fotógrafo na sociedade. “A pesquisa aborda a fotografia não só como imagem, mas também como objeto de reflexão histórica, em que as fotografias são examinadas à luz do processo transformador da sociedade”, afirma Ana Maria. “É neste período que acontece o engajamento profissional dos fotógrafos, que passam a trabalhar mais com questões sociais e antropológicas e preferem não estar presos a uma linha editorial de um jornal ou de uma revista em particular, unindo seu trabalho a uma prática social”, reitera Ana Maria, que acrescenta: “a visualidade pode ser vista como uma plataforma de ação social, que produz sentido pela visão. E as fotos são como textos, que mobilizam o público”. É neste ínterim que comunidades indígenas, quilombolas, travestis e prostitutas passam a ser temas de ensaios e trabalhos fotográficos.



No século XXI, com a consolidação da fotografia digital e, consequentemente, a democratização da prática fotográfica, os parâmetros utilizados para avaliação de uma imagem tornaram-se um pouco diferentes. Antes da chegada da foto digital, uma imagem considerada sofisticada nos anos 1980, como a tirada pelo fotógrafo e antropólogo Milton Guran, que retrata os políticos Ulysses Guimarães e Tancredo Neves – a foto dá a impressão de que o rosto do segundo repousa na mão do primeiro –, seria aquela em que a leitura da imagem poderia trazer alguma ambiguidade. “Hoje, há consolidadas diferentes estratégias de comunicação pelas fotos, devido à possibilidade de multiplicidade de cliques dos mais diversos ângulos”, diz Ana Maria. "Há, inclusive, outros fatores que influenciam na linguagem fotográfica, como a prática do coletivo fotográfico. Exemplo disso são as escolas de fotógrafos populares, como a que existe hoje na Maré, no Rio de Janeiro, que demonstram um caráter diferente de militância, em que a comunidade constrói a sua própria identidade por meio da prática fotográfica”. Entre os fotógrafos entrevistados para o projeto estão nomes de destaque no fotojornalismo brasileiro, como Claudia Andujar, Luiza Venturelli, Rogério Reis, Zeka Araújo, Juvenal Pereira, Milton Guran, Adalberto Diniz, Kim-Ir-Sen Pires Leal, Duda Bentes, Evandro Teixeira e Walter Firmo.

Fonte: listahistória/GEHB

História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais



Por Frances Jones

Fonte: Agência FAPESP – Em 1678, o então rei dos Palmares firmou um acordo de paz com o governador de Pernambuco, a autoridade máxima sobre um território que englobava os atuais estados da Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte, além de Pernambucano.
A negociação durou alguns meses e envolveu intérpretes, envio de embaixadas, presentes e libertação de prisioneiros. De um lado, Ganazumba (ou Gangazumba), tio de Zumbi, séculos depois apontado como símbolo da resistência contra a escravidão; de outro, dom Pedro de Almeida, governador prestes a voltar para Portugal.
Até agora pouco estudado e comentado pela historiografia, o episódio vem ganhando contornos mais definidos sob a luz de documentos originais, boa parte deles inéditos. O material, manuscrito, inclui cartas, despachos de conselheiros do regente português, crônicas e até rascunhos encontrados em Portugal pela historiadora Silvia Hunold Lara, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em pesquisa realizada no âmbito do Projeto Temático“Trabalhadores no Brasil: identidades, direitos e política (séculos XVII a XX)”.
A documentação tem permitido que Lara e outros historiadores tracem uma nova cronologia sobre Palmares. “Em geral, a historiografia periodizou a história palmarina a partir das guerras feitas contra eles. Procuro me concentrar na formação dos mocambos [os assentamentos de fugitivos] e entender como eles se organizavam em termos políticos e militares”, disse Lara àAgência FAPESP.
“A década de 1670 é importante porque marca o reconhecimento por parte das autoridades portuguesas e coloniais desse sobado (estado africano) em Palmares. Os termos do acordo negociado em 1678 constituem a maior evidência disso”, disse a historiadora.
Em seus estudos, Lara retoma teses de uma vertente da historiografia que dá ênfase às raízes africanas de Palmares, na qual se incluem os brasileiros Nina Rodrigues (1862-1906) e Edison Carneiro (1912-1972) e os norte-americanos Raymond Kent (1929-2008), Stuart B. Schwartz e John Thornton.
De acordo com Lara, um documento-chave para entender Palmares é uma crônica anônima, com data atribuída a 1678, escrita logo depois do acordo de paz selado entre Ganazumba e o governo de Pernambuco, quando d. Pedro de Almeida volta a Portugal e vai mostrar seus feitos às autoridades portuguesas.
“É uma crônica extensa, que faz uma história de Palmares, desde o seu início até 1678. Dá nome aos mocambos, descreve as relações entre os chefes militares e os chefes dos mocambos, conta as expedições feitas e equipara a uma conquista militar a vitória [parcial] obtida em 1677 por uma expedição que destrói os mocambos e está na origem do acordo de paz”, disse.
O grande ponto, segundo a professora titular do Departamento de História da Unicamp, é que essa crônica sempre havia sido lida pelos estudiosos a partir de uma publicação na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro de 1859 – feita quase 200 anos após ser redigida.
“As pessoas não viram o original, que estava perdido nos arquivos. Quando você olha o original, pode ver que houve transcrições incorretas”, disse Lara. Um bom exemplo é o dos nomes das lideranças palmarinas e dos principais mocambos ali descritos – com diferenças em relação aos consagrados pela historiografia.
“A maior parte de quem lidou com Palmares trabalhou com uma documentação impressa. E quem transcreveu e publicou fez uma seleção. Ao ir às fontes e aos arquivos, localizei uma quantidade muito grande de fontes ao redor desses documentos transcritos, muitas nunca publicadas”, disse.
Os achados estavam no Arquivo Histórico Ultramarino e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e na biblioteca pública da cidade de Évora, interior de Portugal.
Saindo da trilha dos Imbangala
Lara também parte de um trabalho publicado em 2007 por Thornton e pela historiadora Linda Heywood, da Boston University, nos Estados Unidos, sobre a história das guerras na África Central para estudar quem eram os africanos escravizados e trazidos para o Brasil que fugiram e acabaram se organizando em agrupamentos em vários pontos de uma extensa região nordestina ao norte do Rio São Francisco, caracterizada por matas de palmeiras.
“Hoje conseguimos saber com um pouco mais de precisão quem eram as pessoas trazidas para cá: muito provavelmente eram falantes de kimbundu, língua africana da região do então reino de Ndongo, que ocupava o que hoje é uma região de Angola”, disse.
Dos vários assentamentos de fugitivos – todos conhecidos nessa época como palmares –, um deles em especial se consolidou durante o período da ocupação holandesa (entre 1630 e 1654), formando uma rede de mocambos que se tornou conhecida depois como Palmares. Nove mocambos chegaram a abrigar no total cerca de 11 mil habitantes, de acordo com algumas fontes.
“Todo mundo diz quilombo dos palmares, mas a palavra ‘quilombo’ é empregada deslocadamente nesse contexto e é anacrônica para designar Palmares. A palavra empregada naquele período para designar ‘assentamentos de fugitivos’ é mocambo”, afirmou Lara.
Segundo a historiadora, “kilombo” é uma palavra africana que significa “acampamento de guerra”, usada pelos grupos nômades guerreiros Imbangala, da África Central. Historiadores como o norte-americano Stuart Schwartz, da Yale University, consideraram que a formação dos quilombos nas Américas estava relacionada a esses acampamentos guerreiros – daí a origem do termo.
“Mas acho que essa não é uma matriz da formação dos assentamentos dos fugitivos no Brasil. Os kilombos Imbangala tinham rituais específicos, com morte de crianças, serragem de dentes e canibalismo. Como eram nômades, não tinham uma ligação territorial nem as linhagens que davam a legitimidade do poder, diferentemente do que ocorreu nos mocambos do interior de Pernambuco, onde se formou um reino linhageiro”, disse Lara.
Os mocambos se organizavam segundo uma gramática política centro-africana, explicou a pesquisadora. Como nos sobados centro-africanos (os potentados locais da África), os chefes políticos dos mocambos do Nordeste mantinham relações de parentesco entre si e todos estavam subordinados a Ganazumba, conhecido como rei dos Palmares. “Esse sobado que se formou no interior de Pernambuco foi reconhecido pelas autoridades coloniais como um poder político independente, com o qual se podia negociar”, disse.
Mudança para Cucaú
A pesquisadora conta que a ideia de as autoridades coloniais fazerem acordos com fugitivos sempre existiu – e não apenas no Brasil. O de 1678, porém, foi o que mais progrediu. Boa parte dos habitantes dos mocambos de Palmares mudou-se para uma aldeia criada especialmente para recebê-los, Cucaú, e eles foram considerados livres.
A paz, no entanto, não durou mais do que dois anos. Uma parte dos mocambos, liderada por Zumbi, rejeitou o acordo e ficou em Palmares. Seguidores de Ganazumba, como seu irmão Ganazona, participaram de buscas para trazer os que haviam permanecido no mato. Ganazumba termina assassinado e Cucaú, destruída, provavelmente por tropas coloniais. As pessoas que moravam lá voltaram à condição de escravos.
“A história contada até hoje sobre Palmares é uma história militante e toda ela converge para o enaltecimento da figura de Zumbi como a grande liderança que jamais se curvou e resistiu à escravidão até ser morto em 1695; as pessoas reiteram e usaram a mesma documentação para dizer mais ou menos a mesma coisa”, ressaltou Lara. “Essa história passa muito rápido pelo acordo de paz. Tão rápido que os termos do acordo nunca foram publicados nas coletâneas de documentos feitas sobre Palmares.”
Interessada em discutir as formas de dominação nesse período e o modo como africanos e indígenas lidaram com o domínio colonial, Lara recupera de todas as formas o acordo. “A história de Palmares, da maneira como a estamos estudando, ajuda a entender como a dominação colonial foi enfrentada e modificada pela ação dos índios e dos africanos na África e no Brasil.”
Com o auxílio do Projeto Temático FAPESP, Lara e sua equipe montaram uma base de dados sobre Palmares, organizada de forma a ser disponibilizada para consulta pública on-line. Cerca de 2 mil documentos foram digitalizados e aos poucos estão sendo transcritos. “Espero que, dentro de dois anos, tudo esteja aberto para o público”, disse.
Diversos bolsistas também produziram trabalhos relacionados à produção da base de dados. Um deles foi a monografia de graduação "Guerras contra Palmares: um estudo das expedições realizadas entre 1654 e 1695", de Laura Peraza Mendes, que ganhou prêmio de melhor monografia de graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp em 2011.
Mendes defenderá sua dissertação de mestrado, que contou com Bolsa FAPESP (www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/127403/as-expedicoes-contra-os-mocambos-de-palmares-e-os-dilemas-do-governo-colonial-em-pernambuco-1654-169), em agosto de 2013.
Lara agora trabalha para transformar em livro a tese  “Palmares & Cucaú: o aprendizado da dominação”, com a qual se tornou professora titular.

Fonte: listahistória-GEHB

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Charge: Latuff e o massacre no Pinheirinho*

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A história secreta da Rede Globo

Resuno do documentário: Beyond Citizen Kane (no Brasil, Muito Além do Cidadão Kane) é um documentário televisivo britânico de Simon Hartog produzido em 1993 para o Canal 4 do Reino Unido. A obra detalha a posição dominante da Rede Globo na sociedade brasileira, debatendo a influência do grupo, poder e suas relações políticas. O ex-presidente e fundador da Globo Roberto Marinho foi o principal alvo das críticas do documentário, sendo comparado a Charles Foster Kane, personagem criada em 1941 por Orson Welles para Cidadão Kane, um drama de ficção baseado na trajetória de William Randolph Hearst, magnata da comunicação nos Estados Unidos. Segundo o documentário, a Globo emprega a mesma manipulação grosseira de notícias para influenciar a opinião pública como o fez Kane. O documentário acompanha o envolvimento e o apoio da Globo à ditadura militar, sua parceria ilegal com o grupo americano Time Warner (naquela época, Time-Life), a política de manipulação de Marinho (que incluíam o auxílio dado à tentativa de fraude nas eleições fluminenses de 1982 para impedir a vitória de Leonel Brizola, a cobertura tendenciosa sobre o movimento das Diretas-Já, em 1984, quando a emissora noticiou um importante comício do movimento como um evento do aniversário de São Paulo e a edição, para o Jornal Nacional, do debate do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 1989, de modo a favorecer o candidato Fernando Collor de Mello frente a Luis Inácio Lula da Silva), além de uma controvérsia negociação envolvendo acções da NEC Corporation e contratos governamentais. O documentário apresenta entrevistas com destacadas personalidades brasileiras, como o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, os políticos Leonel Brizola e Antônio Carlos Magalhães, o publicitário Washington Olivetto, os jornalistas Walter Clark, Armando Nogueira, Gabriel Priolli e o atual presidente Luis Inácio Lula da Silva. O filme seria exibido pela primeira vez no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro do Rio de Janeiro, em março de 1994. Um dia antes da estréia, a polícia militar recebeu uma ordem judicial para apreender cartazes e a cópia do filme, ameaçando em caso de desobediência multar a administração do MAM-RJ e também intimidando o secretário de cultura, que acabou sendo despedido três dias depois. Durante os anos noventa, o filme foi mostrado ilegalmente em universidades e eventos sem anúncio público de partidos políticos. Em 1995, a Globo tentou caçar as cópias disponíveis nos arquivos da Universidade de São Paulo através da Justiça Brasileira, mas o pedido lhe foi negado. O filme teve acesso restrito a essas pessoas e só se tornou amplamente vistos a partir da década de 2000, graças à popularização da internet. A Rede Globo tentou comprar os direitos para o programa no Brasil, provavelmente para impedir sua exibição. No entanto, antes de morrer, Hartog tinha acordado com várias organizações brasileiras que os direitos de televisão não deveriam ser dados à Globo, a fim de que o programa pudesse ser amplamente conhecido tanto por organizações políticas e quanto culturais. A Globo perdeu o interesse em comprar o programa quando os advogados da emissora descobriram isso, mas o filme permanece proibido de ser transmitido no Brasil. Entretanto, muitas cópias em VHS e DVD vem circulando no país desde então. O documentário está disponível na Internet, por meio de redes P2P e de sítios de partilha de vídeos como o YouTube e o Google Video (onde se assistiu quase 600 mil vezes). Contrariando a crença popular, o filme está disponível no Brasil, embora em sua maioria em bibliotecas e coleções particulares.

A história e os aspectos do racismo pelo mundo

Sinopse da Série: Como parte da comemoração do bicentenário da Lei de Abolição ao Tráfico de Escravos (1807), a BBC 4, dentro da chamada "Abolition Season", exibiu uma série composta por três episódios, independentes entre si, abordando a história e os aspectos do racismo pelo mundo. São eles: "A Cor do Dinheiro", "Impactos Fatais" e "Um Legado Selvagem". Episódio 1 A Cor do Dinheiro: O programa examina as atitudes de alguns dos grandes filósofos em relação às diferenças humanas, incluindo a abordagem das implicações dos dogmas do Velho Testamento acerca dos atributos das diferentes raças, especificamente "A Maldição de Cam". Analisa a fracassada experiência democrática da Serra Leoa, a Revolução do Haiti, a primeira revolução escrava bem sucedida da história, demonstrando como ele passou da colônia mais rica das Américas ao país mais pobre do hemisfério norte. Este episódio trata, ainda que de forma superficial, da chamada "democracia racial" brasileira. Por fim, conclui-se que a força motriz por trás da exploração e escravização dos chamados "povos inferiores" foi a economia, e que a luta para apagar e cicatrizar os feitos e legados deixados pelo sistema escravocrata ainda continua. Episódio 2 Impactos Fatais: É a mais superficial das diferenças humanas, tem apenas a profundidade da pele. No entanto, como construção ideológica, a ideia de raça impulsionou guerras, influenciou a política e definiu a economia mundial por mais de cinco séculos. O programa aborda as teorias raciais desenvolvidas na era vitoriana, a eugenia, o darwinismo social e o racismo científico, desenvolvendo a narrativa a partir da descoberta dos restos mortais encontrados no deserto da Namíbia pertencentes às primeiras vítimas do que ficaria conhecido como campo de concentração, 30 anos antes de o nazismo chegar ao poder na Alemanha. Tais teorias levaram ao desenvolvimento da Eugenia e das políticas raciais nazistas. O documentário sustenta que os genocídios coloniais, o campo de morte da ilha de Shark, a destruição dos aborígenes tasmanianos e os 30 milhões de indianos vítimas da fome, foram apagados da história da Europa, e que a perda desta memória encoraja a crença de que a violência nazista foi uma aberração na história daquele continente. Mas que, assim como os ossos ressurgidos no deserto da Namíbia, esta história se recusa a ficar enterrada para sempre. Episódio 3 Um Legado Selvagem: O programa aborda o cruel legado deixado pelo racismo ao longo dos séculos. Iniciando pelos EUA, berço da Ku Klux Klan, onde o pesquisador James Allen, possuidor de vasta coleção de material fotográfico e jornalístico sobre linchamentos, defende que há um movimento arquitetado para apagar a mácula racial da memória do país. A seguir, remonta à colonização belga do Congo, por Leopoldo II, onde os negros que não atingiam a quota diária de borracha tinham a mão direita decepada. O documentário trata ainda da problemática racial na África do Sul (Apartheid) e Grã-Bretanha, abordando a luta do Movimento pelos Direitos Civis nos EUA e a desconstituição do mito da existência de raças.

Os Maias e as Profecias do Juízo Final Parte 01 de 05

Resumo:Nossos dias estão contados, preparem-se para o juízo final. Conheçam o templo sagrado de uma civilização perdida e conheçam a verdade sobre a profecia maia. Os maias realmente enxergavam o passado e o presente com precisão extraordinária? A data exata do nosso fim estaria oculta em seus antigos textos? O tempo está se esgotando, a contagem regressiva começa agora. \

BATALHAS LENDÁRIAS: JOSUÉ, A MATANÇA ÉPICA

Resumo do documentário: Na sua primeira batalha para conquistar a Terra Prometida, as forças especiais de Josué infiltraram-se de forma secreta e destruíram Jericó desde dentro apesar de as suas muralhas serem consideradas impenetráveis. Os espias de Josué contaram com a ajuda de Rajab. Enquanto os exércitos de Josué rodeavam a cidade amuralhada, os Israelitas introduziram-se sigilosamente na casa de Rajab. Uma vez que conseguiram introduzir quarenta soldados, Josué e o resto do exército, que esperavam fora da cidade, tocaram os trompetes e atacaram. Os quarenta soldados apanharam a cidade completamente de surpresa e conquistaram-na. Apenas Rajab salvou-se do banho de sangue que percorreu Jericó inteiro.

África - uma história rejeitada

Documentário: A História Oculta do Terceiro Reich

Descrição: A fascinação de Hitler com a ascensão e queda da "raça ariana", a sua obsessão com a ordem e a disciplina, e seus messiânicos planos de controle total do mundo... desde as origens ocultas do Nazismo até a morte de seu mentor Adolf Hitler, a ascensão da doutrina do "Nacional Socialismo" foi construída tendo como base um mundo de sinistros acontecimentos e crenças, construído através da propaganda política e manipuladora. Agora, utilizando filmagens recentemente descobertas, este documentário explora este incrível fenômeno acontecido na Alemanha, durante as décadas de 30 e 40, e que deu origem à Segunda Guerra Mundial. Pela 1.a vez os assustadores rituais e crenças do nazismo, como a origem da cruz suástica e a construção do Holocausto, são explorados e desvendados para o público em 3 documentários sobre os segredos do terceiro Reich e que também descortinam o PAPEL FUNDAMENTAL DO MISTICISMO na doutrina extremamente racista de Adolf Hitler, notadamente os escritos de Madame BLAVATSKY (Teosofia), Guido von Lista (Ariosofia) e Jorg Lanz (Teozoologia).

A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

No vídeo abaixo podemos entender melhor as idéias de Bourdieu sobre a escola. O vídeo foi produzido pela Univesp TV para o Curso de Pedagogia da Universidade Virtual do Estado de São Paulo. O artigo abaixo destaca as contribuições e aponta alguns limites da Sociologia da Educação de Pierre Bourdieu. Na primeira parte, são analisadas as reflexões do autor sobre a relação entre herança familiar (sobretudo, cultural) e desempenho escolar. Na segunda parte, são discutidas suas teses sobre o papel da escola na reprodução e legitimação das desigualdades sociais. Para ler o artigo clique aqui