domingo, 23 de setembro de 2012

A História da Educação de Filhos

As formas de educar os nossos filhos são variadas. Mesmo hoje em dia, diversas são as opiniões sobre a melhor maneira de formar nossas crianças para serem futuros adultos éticos e de bom caráter. Pensar a evolução da educação dos filhos ao longo dos anos, suas bruscas alterações ao longo do século XX e suas permanências é repensar o que ainda fazemos de errado e o que já melhoramos na construção educacional do futuro. Mudanças econômicas, sociais e até mesmo tecnológicas fizeram com que as práticas de nossos pais, avós, bisavós e outras gerações anteriores, já não fossem válidas; mas não podemos descartar o que ainda é preciso manter dessas tradições educacionais.
Neste encontro, Rosely Sayão traça a evolução da educação dos nossos filhos. E provoca a reflexão sobre nossos erros para que arrisquemos projetar o futuro para a educação dos que mais amamos. Rosely é psicóloga e consultora em educação. Autora de diversos livros como “Em defesa da escola” e “Família: modos de usar”.
Gravada no dia 31 de agosto de 2012 em Campinas

Clique aqui para assistir a gravação.

sábado, 22 de setembro de 2012

Dossiê: Guerra dos Farrapos: Introdução

Apresentamos a série de reportagens feito pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre sobre a Guerra dos Farrapos.

Rica em detalhes que pode chamar atenção  em algum aspecto para uma futura pesquisa  sobre o assunto.

Att.

Tyrone

Editor do blog




Dossiê: Guerra dos Farrapos: Casa de Gomes Jardim

O berço da rebelião Farroupilha

A revolução que abalou o Império do Brasil por quase 10 anos nasceu no casarão de Gomes Jardim, em Pedras Brancas (atual município de Guaíba), à sombra de um frondoso cipreste. Foi de lá que partiu a ordem para invadir Porto Alegre.

A semente do separatismo brota na estância de José Gomes de Vasconcelos Jardim, à sombra de um bojudo cipreste que guarnece o casarão onde conspiram Bento Gonçalves e outros líderes farrapos. Talvez sorvendo goles de erva-mate sob o abrigo da árvore, que desponta na parte alta de Pedras Brancas (atual município de Guaíba), podem avistar a Porto Alegre de apenas 14 mil moradores que pretendem invadir.

O plano começa a ser executado em 18 de setembro de 1835, quando Gomes Jardim e mais 60 homens cruzam as águas do Guaíba, em barcos, e acampam nos arredores da Capital, onde são esperados por outros revoltosos a cavalo. Bento Gonçalves ficou no casarão de Pedras Brancas, o quartel-general da insurreição. Perto da meia-noite do dia 19, Jardim e o coronel Onofre Pires derrotam a guarda imperial que deveria proteger a cidade, na Ponte da Azenha.

Foi mais fácil do que o esperado. Na manhã de 20 de setembro, os farroupilhas entram triunfalmente em Porto Alegre. Não trazem índios degoladores, como temiam as famílias. Nem escravos de charqueadas sedentos por butins, como alarmavam os comerciantes portugueses aos fuxicos.

A Capital não resiste à ocupação. O presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul (equivalente a governador do Estado), Fernandes Braga, vê-se na vergonha de fugir numa escuna, velas desfraldadas, via Lagoa dos Patos. Antes de ser deposto, raspa os cofres públicos. Renuncia ao poder, não ao dinheiro. A sublevação tramada no casarão sombreado pelo cipreste espalha-se como um rastilho de pólvora pela província. Evolui para uma guerra civil – a partir do momento em que é proclamada a independência da República Rio-grandense –, o que ameaça a integridade do Império do Brasil por 10 anos. Testemunhas das confabulações revolucionárias, a residência e a árvore permanecem intactas hoje.

O que mudou, passados 177 anos do início da guerra dos farrapos, é a barreira de prédios que surgiu ao redor do casarão de Pedras Brancas. Ainda se pode desfrutar a visão das águas do Guaíba, que se tornam prateadas com a incidência do sol, mas não com a limpidez paisagística da primeira metade do século 19. Fosse agora, Bento e Gomes Jardim teriam de procurar melhor ângulo para assestar suas lunetas em direção a Porto Alegre.

Dois patrimônios históricos da cidade

O casarão e o cipreste estão tombados pelo patrimônio histórico, sob a guarda da família Leão, que comprou o imóvel dos descendentes de Gomes Jardim na década de 1920. Gaston Leão, 74 anos, e a filha, Míriam, 47 anos, empenham-se na preservação do patrimônio.

– Nasci nesta casa. Meu ancestral, o Juca Leão, era compadre do Bento e morreu combatendo pela Revolução – conta Gaston.

O que pai e filha desconheciam é que revoluções podem ter desdobramentos inesperados. O casarão estilo colonial português ficou a salvo dos canhões imperiais, entre 1835-45, mas sofreu um bombardeio mais impiedoso, sistemático e devastador nos anos 1990: o da especulação imobiliária. Tentaram demoli-lo para erguer um arranha-céu de lojas e apartamentos no local.

– Mas nossa família não aceitou, o lucro e o dinheiro não são o mais importante – ressalta Gaston.

Míriam, como professora de História, se encarregou das argumentações junto aos órgãos públicos para obter o tombamento. Entre os motivos, destacou que Guaíba é o berço da Revolução Farroupilha graças à conspirata ocorrida no casarão. Foi a partir dele que a cidade tomou forma. É perto do cipreste que jazem os restos mortais de Gomes Jardim, um dos presidentes da efêmera República Rio-grandense.

– Aqui eles tiveram a atitude de fazer a revolução – diz Míriam.

Gomes Jardim

Fazendeiro, maçom, médico prático e capitão, José Gomes de Vasconcelos Jardim (1773 - 1854) herdou o casarão de Pedras Brancas ao casar-se com Isabel Ferreira Leitão. Conspirou desde o início pela Revolução Farroupilha. Em novembro de 1836, diante da ausência de Bento Gonçalves, assumiu interinamente a presidência da República Rio-grandense. Nos estertores da guerra civil, quando Bento recusou governar a província por estar desgostoso com intrigas, voltou ao cargo. Mas não assinou o tratado de paz de Ponche Verde, em 1845, alegando estar doente.

Dossiê: Guerra dos Farrapos: Campos dos Menezess

Nasce um país no Campo dos Menezes

o local onde o coronel Antônio de Souza Netto proclamou a independência do Rio Grande do Sul, há 176 anos, é uma várzea perdida no pampa, tomada por gravatás, cupinzeiros, tocas de tatu, carquejas e chircas onde espreita a temível víbora urutu-cruzeiro. Não há nenhum marco assinalando a efeméride do separatismo, a não ser as águas do Rio Jaguarão, que seguem no mesmo rumorejo desde que testemunharam os farroupilhas darem vivas à nova república.

Em 11 de setembro de 1836, entusiasmado com a vitória do dia anterior sobre o imperial João da Silva Tavares no Seival (atual município de Candiota), Souza Netto recolhe-se ao Campo dos Menezes, a oito quilômetros de distância. Quer meditar, não lhe passa pela cabeça tomar a grave decisão sem consultar o chefe máximo, o general Bento Gonçalves. No entanto, acaba cedendo aos apelos de dois exaltados revolucionários, Manoel Lucas de Oliveira e Joaquim Pedro Soares.

Postado às margens do Rio Jaguarão, onde ele ainda é estreito, tendo de um lado uma franja de mata, de outro coxilhas encadeadas, Souza Netto, aos 35 anos, manda perfilar a tropa – em torno de 400 soldados. Então, lança o brado que incrustou o separatismo na identidade dos gaúchos.

– Camaradas! Gritemos pela primeira vez: Viva a República Rio-Grandense! Viva a Independência!

Atualmente, há planos para demarcar o Campo dos Menezes – o nome é referência ao antigo proprietário da área, Joaquim Menezes. O presidente do Núcleo de Pesquisas Históricas Seival (NPHS), Heitor Ferreira, 54 anos, busca o tombamento como patrimônio cultural. Depois, pretende erguer um monumento para eternizar a data em que o Rio Grande do Sul resolveu ser independente.

– Aqui nasceu um país. É o lugar mais importante da Revolução Farroupilha – destaca.

O NPHS também está empenhado em localizar os restos mortais dos farrapos e imperiais que tombaram no Seival, o qual encaminhou a proclamação da república no Campo dos Menezes. Ferreira calcula 185 baixas. É provável que a maioria tenha sido sepultada de improviso, principalmente os desprovidos de dragonas e alamares.

Naquele 10 de setembro pré-independência, Souza Netto trava um confronto imprudente contra os imperiais. Arremete coxilha acima e com 70 homens a menos, em dupla desvantagem. Na hora do ataque, incentiva:

– Camaradas, não quero ouvir um tiro! Seja a carga à espada e à lança!

Os farrapos vencem, entre outros motivos, porque o comandante imperial Silva Tavares é vítima de um imprevisto: perde o controle da montaria quando se rompe a articulação de couro – a cabeçada do arreio – que prende o freio à boca do animal. Como o cavalo sai em disparada, Tavares mal se equilibrando nos estribos, as tropas se desorientam, muitos debandam, o que facilita a vitória rebelde.

Vestígios da batalha são encontrados

Ferreira tem outros motivos para acreditar na existência de ossadas no Seival. Ao realizar pesquisas no campo, encontrou vestígios da batalha por acaso: uma baioneta, um cano de pistola e um espadim inteiro. As peças estão guardadas para o futuro museu.

No povoado do Seival, que foi esquecido desde que o trem deixou de apitar na estação ferroviária, casarões estão ruindo, mas a memória sobre os episódios da guerra civil permanece. Vestido de bombacha e alpargatas de couro, Arthur Etcheverria, 74 anos, diz que o assunto é comentado entre os moradores.

Não apenas os velhos, saudosos da época em que Getúlio Vargas se hospedou no Seival para descansar dos solavancos do trem, lembram a façanha de Souza Netto. Thalys Buck, 12 anos, monta no cavalo de pelagem clara chamado Tic-Tac para ajudar na condução da chama crioula durante a Semana Farroupilha.

– Sei o que houve no Campo dos Menezes – orgulha-se o menino.

nilson.mariano@zerohora.com.br
lauro.alves@zerohora.com.br
TEXTOS NILSON MARIANO IMAGENS LAURO ALVES

Era ofensivo ser gaúcho

A sociedade era de contrastes quando rebentou a Guerra dos Farrapos, no início do século 19. Nas cidades, havia certo refinamento: moças tocavam piano, algumas falavam francês ou inglês, enquanto os rapazes se exibiam de gravata borboleta nos saraus. Uma das novidades era fazer sorvete, no inverno, a partir da geada. No campo, as famílias viviam na quase barbárie. Os homens locomoviam-se quase sempre a cavalo, mesmo para curtas distâncias. Aglomeravam-se nos bolichos (comércio rural) em tempos de paz, onde tomavam cachaça, apostavam em jogos e corridas de cavalo – o que invariavelmente resultava em brigas. Todos preferiam ser chamados de rio-grandenses. O termo gaúcho era pejorativo, pois designava o mestiço de europeu com índio, era reservado aos vagabundos e ladrões de gado.

Dossiê: Guerra dos Farrapos: Piratini

Piratini: Rebelião contra o Império

Logo após a batalha de Seival, os revolucionários venceram as tropas imperiais e proclamaram Piratini, no sul do Estado, a capital da República Rio-Grandense.

Visitar Piratini é como ingressar no vertiginoso túnel do tempo da Guerra dos Farrapos, regressar ao início do século 19 sem escalas, botar os pés nos mesmos lugares onde andaram Bento Gonçalves, Antônio de Souza Netto e Giuseppe Garibaldi. Passados 176 anos da escolha para ser a capital da República Rio-Grandense, a cidade guarda, com suas cicatrizes e seus encantos, o cenário da rebelião contra o Império do Brasil.

Pelo rumo que se tomar nas ruas centenárias, depara-se com algum legado farroupilha. Pode-se começar pelos três prédios tombados como patrimônio nacional. No sobrado que abrigou o Palácio de Governo, caminha-se por escadas – a madeira a estalar antigos ruídos – onde circulou o multiministro Domingos José de Almeida, o mentor administrativo da república. Dentro do palacete, salas de teto alto são arejadas pelos mornos ventos de setembro.

Não se deve ter pressa ao esquadrinhar Piratini. Uma estranha casa, com cinco portas e apenas uma janela, hospedou Garibaldi e Luigi Rossetti, que escaparam da Itália por serem carbonários (sociedade secreta revolucionária), os inimigos das tiranias. Na residência, de telhado ondulado, Rossetti editou o jornal O Povo, cujo exemplar custava 80 réis – menos da metade do preço de uma garrafa de cerveja.

A atmosfera revolucionária é realçada quando se chega ao sobrado onde operou o Ministério da Guerra. Assentado no topo da cidade, oferece vista para a Serra dos Tapes – chamada Asperezas pela vegetação espinhosa e pelos cerros que se erguem como sentinelas na vastidão do pampa. No interior do prédio, fica o Museu Histórico Farroupilha, que exibe relíquias da insurreição.

nilson.mariano@zerohora.com.br lauro.alves@zerohora.com.br


TEXTOS NILSON MARIANO IMAGENS LAURO ALVES

Cavalos, espadas e modista francesa

Não foi por acaso que o governo de secessão se instalou em Piratini, como evidenciam as dezenas de locais que se pode conhecer atualmente.

Além da posição geográfica estratégica – perto do Uruguai e guarnecida por obstáculos naturais –, dispunha de casarões e sobrados para abrigar os ministérios. E oferecia um fator tão vital como a pólvora: o entusiasmo libertário de Manoel Lucas de Oliveira, Joaquim Pedro Soares, Joaquim Teixeira Nunes e outros.

– Piratini foi o centro político e revolucionário – define a diretora do Museu Histórico Farroupilha, Angélica Panatieri, 45 anos.

O povoado florescia às vésperas da sedição. Como o censo de 1814 apontou 3.673 moradores – dos quais 1.535 eram escravos negros e 182 indígenas –, é possível que contasse com cerca de 5 mil habitantes ao se tornar a capital do separatismo. Plantava-se algodão, cevada, linho e trigo. Produzia-se vinho, carne de gado e lã.

Havia até uma fábrica de cerveja, do açoriano Lucindo Manoel de Brum, que vendia a garrafa a 200 réis. Não se sabe até que ponto a conflagração afetou a produção da bebida. O prédio, com amplas portas e vitrais, continua elegante, mas hoje tem outra função.

Um serviço de correios a cavalo, lançado em 1832, fazia a rota Piratini a Pelotas, prometendo três entregas de cartas, malotes e baús por mês. Estafetas e chasques percorriam 118 quilômetros, por atalhos, para cumprir a missão.

É provável que tenham esfalfado as montarias às vésperas da revolução, para atender as trocas de mensagens entre os conspiradores da região.

Piratini não era reduto somente de botas embarradas, cavalos suados e soldados afiando o gume das espadas. A diretora do Museu Municipal Histórico Barbosa Lessa, Daniele Amaral, 27 anos, destaca o aspecto refinado. Damas frequentavam o Teatro Sete de Abril e se vestiam pelas tendências europeias. Não sujavam os sapatos no barro, caminhavam em calçadas de pedra, assentadas pelo suor dos escravos.

– Havia uma modista francesa na cidade – conta Daniele.

A cada setembro, aumenta o turismo a Piratini. Uma das principais atrações é a encenação temática, com 12 atos e 25 intérpretes. Os moradores se transformam em Bento, Garibaldi, Anita, Canabarro, Souza Netto. Um dos atores, o policial civil Luciano Dutra Almeida, 35 anos, acha fácil representar.

–Vivemos dentro do próprio cenário. Bebemos na fonte. Se abro a janela, vejo a casa do Garibaldi – conta ele, que gosta de encarnar Domingos de Almeida.

Um italiano inconformado

Coube a Luigi Rossetti, um refugiado italiano de atitudes mais libertárias que o mais exaltado dos farroupilhas, dirigir a imprensa da República Rio-Grandense. Em Piratini, editou o jornal O Povo, enquanto dividia a casa com o patrício Giuseppe Garibaldi. Mas não comandou a tipografia por muito tempo, logo se indispôs com mudanças em um dos seus textos. Então, reclamou por carta ao ministro da Fazenda, Domingos José de Almeida:

– Sujeitado a tão feia censura é difícil que eu possa continuar na redação do jornal...

Rossetti era carbonário, discípulo dos ideais republicanos de Giuseppe Mazzini. Expulso da Faculdade de Direito por subversão, obrigou-se a deixar a Itália. Aderiu à causa dos farrapos com restrições – não admitia a escravidão –, por acreditar que a rebelião poderia ser o estopim que levaria outras províncias à independência.

Chateado com a situação de jornalista sob controle, Rossetti decidiu ir ao front. Talvez por ser mais afeito à pena de escrever do que ao punho do sabre, morreu em novembro de 1840, no Passo do Vigário, em Viamão, quando servia às tropas de Bento Gonçalves. Foi atingido por um golpe de lança, teria 40 anos.

Dossiê: Guerra dos Farrapos: Barro Vermelho

O tesouro do Menino Diabo

Não são apenas os vestígios da batalha do Barro Vermelho que aguçam o imaginário dos moradores da localidade, no bairro ferroviário de Ramiz Galvão. Eles também lembram de um desertor farroupilha, Antônio Joaquim da Silva, de apelido Menino Diabo, que invadiu Rio Pardo em 1836.

O Menino Diabo e seus 270 soldados foram expulsos da cidade, mas antes teriam enchido três carretas de bois com os saques que vinham praticando no local. Antes de serem corridos a tiros e a espadaços, malfeitores que eram, teriam escondido um tesouro em Barro Vermelho. Habitantes da localidade cavaram o solo atrás de panelões abarrotados de moedas.

O combate que tingiu o solo de sangue

No terceiro ano da guerra civil, ocorreu um dos mais violentos embates da Revolução Farroupilha. A Batalha do Barro Vermelho resultou na vitória dos farrapos contra as forças imperiais.

Aida Ferreira costumava acompanhar um ritual que a avó, Geraldina, cumpria com rotineira devoção. Ao pé de uma cruz encravada no Barro Vermelho, na periferia de Rio Pardo, depositava flores, acendia velas e rezava pelas almas dos que tombaram em 30 de abril de 1838, numa das mais encarniçadas batalhas da Revolução Farroupilha.

Consta que foi tanto sangue derramado, até a vitória dos farrapos, que o chão mudou de cor, obtendo a denominação que ostenta hoje: Barro Vermelho.

A piedosa Geraldina, que morreu há 20 anos, orava pelos farrapos, pelos imperiais, pelos familiares, pelos amigos – sobrava uma vela e uma rosa até para eventuais desafetos. As homenagens póstumas continuam, por outros moradores, mas de forma diferente. Aproveitando a cruz, foi erguido o Monumento ao Soldado Desconhecido, no mesmo local, em 2011.

Iniciativa da Associação Grupo de Amigos Rafael Oliveira (Agaro), a obra reverencia o combatente sem nome – o bucha de canhão que se expõe a tiros e lançaços. Está na contramão de outras esculturas, que eternizam no bronze o general de uniforme reluzente empoleirado num garanhão. O secretário de Turismo e Cultura, Ronaldo Pinto Gomes, destaca a intenção:

– Os famosos são conhecidos. Aqui, a homenagem é para os heróis anônimos.

A memória dos desconhecidos, e os seus restos mortais, se perderam no Barro Vermelho. Quando crianças, Aida Ferreira e um irmão encheram um carrinho de rolimã com ossos que haviam sido retirados do solo durante a preparação de uma horta. A brincadeira foi interrompida pelo avô, Jorge, ao ver a situação macabra.

– Ele nos disse para não botarmos a mão, que era coisa da guerra. Eram ossos humanos – lembra Aida, diretora do Museu Barão de Santo Ângelo e professora de História, Filosofia e Sociologia.

O Hino Rio-Grandense surgiu após o combate

O confronto que persiste na memória da população ocorreu no terceiro ano da guerra civil. Comandados por Bento Gonçalves, Bento Manuel (que depois passaria para o lado imperial), Antônio de Souza Netto e Domingos Crescêncio, os farrapos atacaram Rio Pardo – uma das maiores cidades da província, com 12 mil habitantes.

Os chefes imperiais, marechal Sebastião Barreto e o major José Joaquim de Andrade Neves, futuro Barão do Triunfo, defenderam a povoação. No entanto, ao perceberem a derrocada, ordenaram que os soldados resistissem até o último cartucho e, às escondidas, teriam cometido uma desonra: fugiram de barco pelo Rio Jacuí, com outros oficiais.

O abandono do front foi investigado pelo historiador militar Lucas Alexandre Boiteux. Descrevendo a tomada de Rio Pardo – um bastião imperial estratégico para a navegação fluvial – como “tremendo desastre”, Boiteux narra que o marechal e o barão foram acolhidos por embarcações ancoradas em Triunfo.

A derrota foi ainda mais acaçapante porque os farrapos apreenderam a banda imperial, dirigida pelo maestro Joaquim José de Mendanha. Mulato de Ouro Preto (Minas Gerais), estava na província a serviço do 2º Batalhão de Fuzileiros. Ao vê-la entre os destroços do Barro Vermelho, o general Netto exultou sobre a “rica banda” que “felizmente ficou intacta”.

Talvez por ser tratado com as gentilezas que merecem os artistas, Mendanha aceitou compor o hino separatista. Em apenas cinco dias, apresentou a música, improvisada com melodia europeia. O poeta Serafim de Alencastro, capitão farroupilha, se encarregou dos versos. Surgiram variações depois, mas é a mesma “aurora precursora” que se canta nos estádios de futebol enaltecendo “nossas façanhas”.

nilson.mariano@zerohora.com.br lauro.alves@zerohora.com.br
TEXTOS NILSON MARIANO IMAGENS LAURO ALVES

Dossiê: Guerra dos Farrapos: A Casa das Sete Mulheres

Paixão no estaleiro de Garibaldi

Foi na antiga Estância da Barra, às margens do Rio Camaquã, que Giuseppe Garibaldi foi surpreendido por cerca de cem imperiais. E lá, também, declarou-se apaixonado pela jovem Manoela.

O lugar onde Giuseppe Garibaldi ardeu em desejos por um amor proibido segue bafejado pela brisa que sopra desde a Lagoa dos Patos. Os casarões de uma irmã e de uma sobrinha do general Bento Gonçalves, os quais o corsário italiano frequentava respeitosamente, mas sem desgrudar os olhos de uma jovem, a recatada Manoela Ferreira, continuam como testemunhos dos perigos e das paixões que sacudiram aquele conturbado 1839 – o quarto ano da guerra civil.

O que não resistiu ao tempo foi o estaleiro, situado às margens do Rio Camaquã, perto da foz com a lagoa, onde Garibaldi e seus marinheiros, mais os negros das estâncias, construíram os lanchões de combate. No entanto, há planos para refazer a oficina e o arsenal. A iniciativa é de Raul Justino Ribeiro Moreira, 49 anos, profissional de marketing em Porto Alegre.

A planta do estaleiro está pronta. Tetraneto de Bento Gonçalves, Moreira valeu-se de arquitetos ligados ao patrimônio histórico na elaboração. Inspirou-se em uma imagem do que restava do galpão, captada em 1896 por John King, descendente de ingleses com ateliê de fotografia em Rio Grande. Moreira já depositou no local telhas, tijolos e outros materiais que serão usados na obra.

– Queremos que seja autêntico e esteja aberto à visitação – anuncia Moreira, proprietário da área do futuro estaleiro.

O parque temático do que seria a marinha farroupilha ficará à beira do Rio Camaquã, próximo à Estância da Barra, onde morava dona Antônia, irmã de Bento. Garibaldi se hospedou no casarão, que desponta entre figueiras centenárias.

Amor platônico afligia o italiano

O que aconteceu no estaleiro há 173 anos, o próprio Garibaldi se encarregou de revelar. Nas memórias que ditou a Alexandre Dumas, descreve as “magníficas planícies” de Camaquã, a hospitalidade nas casas de Antônia (irmã de Bento) e de Ana (sobrinha), a construção dos navios e os namoricos com Manoela. Investido como tenente-capitão da República Rio-Grandense, chegou ao lugar com 30 marujos europeus, a quem elogiava como “legítimos camaradas dos mares”.

Os barcos, equipados com pequenos canhões, ficaram prontos em dois meses. Nas incursões piratas pela Lagoa dos Patos – rota comercial entre Rio Grande e Porto Alegre –, Garibaldi passou a saquear embarcações civis. Tanto molestou o Império que foi atacado pelo coronel Francisco Pedro de Abreu, o célebre Moringue, em abril de 1839.

O italiano narra que tomava mate quando foi surpreendido pelos tiros de mais de cem imperiais. Havia15 farrapos ao redor do estaleiro, os outros estavam a trabalho, longe dali. Garibaldi teve o pala perfurado por um golpe de lança, mas alcançou os fuzis e se pôs a atirar com precisão.

A perspectiva era sombria. Na entrevista com Dumas, Garibaldi admite que Moringue era o “melhor chefe expedicionário” dos inimigos. Porém, a sorte estava com os rebeldes naquele confronto. Um negro, o Procópio, acertou um tiro no braço do coronel imperial, que, em dúvida sobre o número de rebeldes, recuou deixando 15 mortos.

E Garibaldi colheu os frutos da valentia. Quando dona Antônia ofereceu uma festa na Estância da Barra, em homenagem aos marujos, ele notou que Manoela empalidecera, mostrara-se aflita por saber “sobre a minha saúde”. A donzela estava prometida a um filho de Bento Gonçalves, mas isso não impediu que o condottieri se declarasse caído de amores, ainda mais ao vê-la perturbada:

– Para o meu coração, uma vitória mais doce que o sangrento triunfo conquistado. Oh, bela moça do continente americano! Enobreceste-me e fui feliz por pertencer-te, do modo que se fez possível, em pensamento – conta nas suas memórias.

nilson.mariano@zerohora.com.br lauro.alves@zerohora.com.br
TEXTOS NILSON MARIANO IMAGENS LAURO ALVES

Dossiê: Guerra dos Farrapos: Laguna

Laguna se desapontou com os farrapos

Cidade catarinense foi atacada, por terra, pela cavalaria de David Canabarro e, por mar, pelos lanchões de Giuseppe Garibaldi.

Durou pouco mais de cem dias a estratégia dos farrapos de expandir o separatismo para Santa Catarina. Eles chegaram a proclamar a República Catarinense, batizada de Juliana por ter ocorrido em julho de 1839, mas não resistiram à reação avassaladora do Império do Brasil. Em novembro do mesmo ano, bateram em retirada, deixando mortos e feridos pelo caminho.

Os farroupilhas atacaram Laguna, por terra, pela cavalaria de David Canabarro e, pelo Oceano Atlântico, pelos lanchões de Giuseppe Garibaldi. Tinham duplo propósito: conquistar um porto marítimo (não conseguiam tomar o de Rio Grande e haviam sido expulsos de Porto Alegre) e espalhar a revolução para outras províncias. Queriam romper o garrote imperial.

No início, foram saudados como irmãos e libertadores. O historiador de Laguna, Carlos Marega, 65 anos, destaca que líderes catarinenses “eram simpáticos” aos ideais da rebelião deflagrada no Rio Grande do Sul. Estavam desiludidos com o Império. Também queriam formar uma república independente.

No decorrer da ocupação, no entanto, se arrependeram e trocaram de lado. Marega faz declarações com potencial para causar atritos perante determinados pesquisadores gaúchos. Ele sustenta que os farroupilhas se comportaram como bárbaros, praticando saques e abusos contra a população. Quando as tropas imperiais investiram, os rio-grandenses já não tinham o apoio dos lagunenses.

– É uma das razões para que a República Juliana tenha durado tão pouco – analisa.

As recriminações de Marega estão amparadas por um dos chefes da expedição a Laguna – ninguém menos que Garibaldi. Nas memórias ditadas ao escritor Alexandre Dumas, o italiano expôs as razões para a perda do apoio catarinense:

– Nossa estupidez e nossa incivilidade...

O corsário combateu no Uruguai e na Itália, mas relatou que nenhum episódio o mortificou tanto quanto o massacre de Imaruí, próximo a Laguna. Como o povoado aderiu aos imperiais, ele recebeu ordens do general Canabarro para castigar “aquele pobre torrão”. Garibaldi desculpou-se que “não tive escolha”, deveria obedecer ao comandante. Planejava conter os excessos, mas lamentou que os soldados se tornaram “bestas ferozes” ao se embriagarem, que não pôde impedir a violência e a pilhagem.

– Que Deus, do alto da sua compaixão, posso perdoar-me – penalizou-se.

Dezenas de bois puxam barcos pelo campo

A tomada de Laguna não enseja apenas condutas militares reprováveis. No extremo oposto, evidenciou o destemor e os sacrifícios dos revoltosos. Em junho de 1839, Garibaldi e o mercenário norte-americano John Griggs, o João Grandão, promoveram uma epopeia no Rio Grande do Sul: transportaram os barcos Seival e Rio Pardo sobre rodas de carreta, tracionados por dezenas de bois, ao longo de cem quilômetros de campos, rumo à barra do Rio Tramandaí.

Os lanchões saíram do estaleiro de Garibaldi, na foz do Rio Camaquã com a Lagoa dos Patos, próximo da estância de Antônia Gonçalves, irmã do general Bento. Depois de navegarem onde foi possível, pela lagoa e pelo Rio Capivari, precisaram ser conduzidos por terra para alcançar o oceano e, então, desfraldar velas até Laguna.

– Os moradores do lugar deleitaram-se com um espetáculo invulgar e bizarro – contou Garibaldi em suas memórias.

Ludibriar a vigilância imperial para entrar no mar não foi o mais penoso. Na altura de Araranguá, em Santa Catarina, ocorreu um desastre na água. Fustigado por vento forte, Garibaldi procurou se aproximar da costa com o Rio Pardo, mas foi tragado pelas ondas e parte dos tripulantes se afogou.

O italiano e outros náufragos foram resgatados pelo Seival, pilotado por Griggs. Retomando a viagem, consumaram a ocupação de Laguna. O comandante imperial tentou resistir, mas abandonou a cidadela brindando os farroupilhas com naves de guerra, barcos mercantes, canhões, armas, pólvora, munição e fardas.

nilson.mariano@zerohora.com.br
lauro.alves@zerohora.com.br

TEXTOS NILSON MARIANO IMAGENS LAURO ALVES

Uma paixão de dois mundos

Ana Maria de Jesus Ribeiro talvez estivesse a remendar camisas e a pregar botões naquele inverno de 1839, quando foi avistada pela luneta indiscreta de Giuseppe Garibaldi. Aos 18 anos, estava em casa, concentrada nos afazeres domésticos. Aos 32 anos, o italiano postara-se no barco Itaparica, atracado na praia, para espionar as mulheres de Laguna.

Um dos comandantes da invasão a Santa Catarina, Garibaldi revelou, no seu livro de memórias, que contemplava “belas jovens” pela lente ampliada. Até que uma delas o fez esquecer da frustrada paixão por Manoela Ferreira, a quem conhecera ao se hospedar na estância de familiares de Bento Gonçalves, às margens do Rio Camaquã.

Garibaldi simplesmente desembarcou, caminhou até a casa, ignorou o marido de Anita, o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar, e exclamou à porta:

– Virgem criatura, tu serás minha!

E a costureirinha Ana Maria virou Anita, passando a lutar ao lado de Garibaldi na Revolução Farroupilha e depois na Itália. Morreu em 1849, aos 28 anos, agonizando doente em mais um front. Teve três filhos com o corsário, um deles nascido no Rio Grande do Sul.

Dossiê: Guerra dos Farrapos: Canabarro

A fortaleza de Canabarro no Pampa

Nascido em Taquari, na região central do Estado, general teria sido um dos chefes farrapos mais polêmicos e indecifráveis da revolução

O general David Canabarro não costumava se abrigar entre as muralhas dos quartéis, preferia as amplidões das planícies, talvez se sentisse mais à vontade na companhia dos astutos guaraxains, os pequenos lobinhos do Pampa.Terminada a Revolução Farroupilha, comprou a Estância São Gregório, em Santana do Livramento, junto aos campos onde fazia manobras com suas tropas durante a guerra civil.

São Gregório consolidou o fortim do campeador Canabarro. Assentado no topo de um morro em forma de tabuleiro – mais alto que uma coxilha, a superfície plana como uma pista de aterrissar –, o casarão domina a paisagem. Ninguém se aproximava do lugar, não importava de que lado viesse, mesmo rastejando entre os chircais ou se escondendo nos ocos dos ninhos das emas, sem que fosse percebido por sentinelas.

Valentes, decididos e espertos, todos os chefes farrapos eram. Uns mais em alguma virtude, outros menos em outro atributo. No entanto, nenhum deles teria sido mais matreiro, mais polêmico e mais indecifrável do que o militar nascido em Taquari (região central do Estado) sob o batismo de David José Martins. O próprio fato de trocar o sobrenome, assumindo o Canabarro a partir de dezembro de 1836, sinaliza uma personalidade diferente.

O atual guardião da Estância São Gregório, José Carlos Alves Simões, o Juca, 76 anos, mostra o quanto Canabarro era prevenido. Ao redor do casarão, mandou que os escravos erguessem muros de pedra, em alguns trechos com quase três metros de altura. Seteiras, dispostas estrategicamente nas muradas, permitiam que atiradores repelissem eventuais invasores. As aberturas eram cônicas: afunilavam para o lado de fora, para dificultar a ação do inimigo.

– Estamos como na copa de um chapéu. Aqui se tem uma visão de tudo a cerca de 1,5 quilômetro de distância – compara Juca, descendente de Canabarro.

O farroupilha não descuidou de minúcias no seu mangrulho campeiro. Da São Gregório, podia avistar a faixa negra de mata que assinala a linha de fronteira com o Uruguai. Deveria gostar da proximidade com o país vizinho: em tempos de paz, para negociar cavalos e bois; na brutalidade das guerras, para retiradas em caso de emergência.

Juca Simões destaca que o ancestral era incansável. Nos currais de pedra, mantinha cerca de 40 cavalos encilhados, noite e dia, para urgências. Alistava os soldados a dedo – deveriam ser dentes-secos, como os gaúchos definem os que não têm medo nem de assombração.

Só a escrava Cândida temperava a comida

Canabarro também tinha seus receios, como o de ser envenenado. A avó de Juca Simões, dona Rodolfina, que morreu na década de 1980, aos 102 anos, contava que o general só confiava numa escrava, a Cândida, uma mulata alta, magra e simpática. Somente ela podia temperar-lhe a comida, limpar suas camisas, guardar as botas, mexer nos seus baús.

De tão apegado, Canabarro levava Cândida para os bivaques nos confrontos. No momento de almoçar, independente de quem fosse o cozinheiro, era a escrava quem provava do prato antes de o patrão sacar os talheres. Quando o general morreu, em 1867 (segundo Ivo Caggiani, porque outros historiadores citam data diferente), aos 71 anos, a suave Cândida ficou inconsolável. Chorava quando expunha as roupas dele ao sol, para que não mofassem.

Era confusa a intimidade do comandante farroupilha que negociou a paz com o Império do Brasil. Casou-se duas vezes, conforme Caggiani: primeiro com uma tia, depois com uma cunhada. Teve amantes – como revela o livro Os Amores de Canabarro, de Otelo Rosa. Mas era com Cândida que serenava.

nilson.mariano@zerohora.com.br
lauro.alves@zerohora.com.br
TEXTOS NILSON MARIANO IMAGENS LAURO ALVES

Uma trajetória de bravura e névoa

David Canabarro não teria conspirado com os farrapos. Resolveu aderir somente um ano depois que eclodiu a revolução. Teve um desempenho que oscilou entre extremos: foi saudado como brilhante em alguns combates, mas criticado como vilão em dois episódios nebulosos que até hoje dividem os historiadores.

O militar destacou-se na segunda fase da rebelião, ao comandar a anexação de Santa Catarina na expedição de 1839. Nos últimos anos, quando Bento Gonçalves se desgastava com fofocas e Antônio de Souza Netto parecia desanimar, coube a Canabarro liderar o enfrentamento desigual contra as tropas imperiais por meio da tática de guerrilha.

Se pendurou medalhas no peito por méritos, também colecionou acusações contra si. Em 1839, durante a ocupação de Laguna, teria ordenado castigar o povoado de Imaruí e liberado o saque, o que resultou em abusos contra civis. Em 1844, teria orquestrado o massacre dos lanceiros negros farroupilhas, na batalha do Cerro dos Porongos. Ninguém duvidaria da bravura de Canabarro. Nem todos aprovariam sua conduta sem ressalvas.

Dossiê: Guerra dos Farrapos: Cerro dos Porongos

A maldição de Cerro dos Porongos

Derrota farroupilha e massacre dos lanceiros negros apressaram o final da guerra. Até hoje, histórias de assombração povoam o imaginário dos moradores.

O que aconteceu na infame madrugada de 14 de novembro de 1844, quando o esquadrão de Lanceiros Negros foi massacrado por tropas imperiais, não se apagou com o tempo.

É como se pairasse uma maldição sobre o Cerro dos Porongos (município de Pinheiro Machado), onde escravos alistados pelos farroupilhas mediante a promessa de liberdade foram exterminados sem chance de defesa. Moradores da região garantem que o lugar é assombrado. Mas eles não sentem medo das aparições que imaginam ver. Pelo contrário, ficam cheios de dó: acham que os supostos fantasmas não querem apavorar ninguém, só denunciar um crime que ficou impune.

Um dos que se empenharam em transformar o Cerro dos Porongos em sítio histórico, o educador Benoni Araújo de Oliveira, 71 anos, de Pinheiro Machado, diz que o lugar foi marcado por uma traição. Sustenta que David Canabarro teria mandado desarmar os lanceiros negros para facilitar a vitória dos imperiais.

– Houve um conluio para encerrar a guerra e apressar o tratado de paz – afirma Benoni, esclarecendo que os escravos haviam se tornado um estorvo.

Defensores de Canabarro negam a vilania. Argumentam que não se pode tirar os méritos do coronel imperial Francisco Pedro de Abreu, o intrépido Chico Pedro, que surpreendeu os farrapos na madrugada.

Um vulto colossal, os olhos faiscantes

O legado da mortandade ficou inoculado na memória da população. Maria das Neves Alvarez Amaro, 59 anos, que mora na área de Porongos, lembra que era proibida de brincar às margens de um arroio, quando criança. O pai, Waldemar, dizia que era a sepultura dos lanceiros.

Na década de 1960, tropeiros de gado evitavam acampar em Porongos, apesar da sombra e da aguada fartas, com receio de assombros. A própria Maria das Neves diz que era visitada, no quarto, pelo vulto de uma negra idosa:

– Ela não falava nada e baixava a cabeça.

Os relatos se sucedem, com pequenas variações. Maria das Neves não enxergou, mas colheu narrações dos que viram mulheres e crianças negras sem cabeça. O que mais causou espanto foi a visão de um negro gigante, olhos em brasa. Não era ameaçador, mas surgiu quando um operário realizava um conserto no sítio histórico. Cabelos em pé, a aterrada vítima só conseguiu balbuciar antes de paralisar o serviço:

– Ele não quer que se mexa nesse lugar...

Em novembro de 2004, foi erguido o Memorial Lanceiros Negros em Porongos. Além da homenagem aos que tombaram, é um clamor por justiça, para que os mortos possam descansar em paz.

nilson.mariano@zerohora.com.br
lauro.alves@zerohora.com.br
TEXTOS NILSON MARIANO IMAGENS LAURO ALVES

Chica Papagaia levou a culpa

Mulheres faceiras e valentes marchavam com as tropas na guerra civil, acompanhando tanto farrapos quanto imperiais, com a missão de cozinhar, curar ferimentos, rezar pelos moribundos e consolar os soldados nos pelegos. Para justificar o massacre no Cerro dos Porongos, parte da culpa para isentar David Canabarro recaiu sobre a mais célebre das vivandeiras: Maria Francisca Ferreira Duarte, a Chica Papagaia. Oficialmente, ela trabalhava como auxiliar de enfermagem, ajudando o marido, o farmacêutico João Duarte. No momento do ataque imperial, estava na tenda entretendo o general, o que teria amolecido a vigilância do comandante.

O apelido surgiu porque o marido traído não se desgrudava de um papagaio, que teria aprendido a xingar os imperiais. No livro Os Amores de Canabarro, Otelo Rosa descreve que Chica Papagaia exibia “formas bem pronunciadas, fortes e rijas, mas proporcionadas”, ao paladar da época. Depois do infortúnio, Canabarro teria despedido os serviços do farmacêutico, com recomendações à dona Maria Francisca. Ela morreu 50 anos depois, em Taquari, pobre e esquecida.

Dossiê: Guerra dos farrapos: Cuaró

Em Cuaró, O combate esquecido

Quando já se negociava um tratado de paz, o coronel Bernardino Pinto quis continuar a guerra. Houve o último combate e a derrota dos farrapos.

O vento que fustiga sem parar o vilarejo de Cuaró parece ter varrido da memória o último confronto entre farroupilhas e imperiais, ocorrido em 29 de dezembro de 1844, dentro do Uruguai, nos estertores da maior guerra civil já travada no Brasil. É um combate esquecido. Do lado de cá, não se faz questão de lembrá-lo. De parte dos uruguaios, seria melhor que não tivesse acontecido.

Foi uma batalha deslocada do território gaúcho e também do momento político, pois já se negociava um tratado de paz. Não se esclareceu por que o coronel Bernardino Pinto decidiu continuar uma rebelião que estava perdida. Seria um inconformado que agiu por conta e risco? Um rebelde mais rebelde que Bento Gonçalves, Souza Netto e outros?

O fato é que Bernardino não teve chances. Foi destroçado pela tropa imperial de Vasco Alves Pereira – comandante da Guarda Nacional e oficial de confiança de Bento Manuel Ribeiro – junto ao arroio Cuaró, afluente do Rio Quaraí, no Departamento de Artigas. A favor de Bernardino, a sua bravura: não se entregou, só foi aprisionado depois de ferido.

Na uruguaia Artigas, pesquisadores sabem do combate, mas dispõem de escassas informações. Olga Marcela Pedrón García da Rosa, 76 anos, justifica que seu país excluiu o episódio da história. Explica que o caudilho José Fructuoso Rivera (1784-1854), presidente da República Oriental do Uruguai por períodos que coincidiram com a Revolução Farroupilha, não queria encrencas com o Império do Brasil. O Uruguai recém conquistara sua independência, pretendia evitar novas broncas.

– Aqui, como é território oriental, não é conveniente saber isso. Não é um assunto muito conhecido – diz Olga Marcela, professora de História.

Fructuoso Rivera era tão zorro – o esperto guaraxaim do pampa – como os caudilhos rio-grandenses. Não confiava nos propósitos separatistas dos farrapos, achava que Bento Gonçalves só pressionava o Império para obter vantagens. Don Frutos afinava-se melhor com o imperial Bento Manuel Ribeiro. Chegou a se oferecer como intermediário para um acordo, mas não foi aceito.

Cuaró é daqueles povoados do pampa que quase sumiu do mapa quando o trem de passageiros parou de apitar. O último censo apurou 142 moradores, sendo 69 adultos e 49 anciãos. Um deles é o viúvo Manolo Machado, 82 anos, que caminhava mancando, em agosto, por ter sido pisado no pé pelo cavalo.

– Foi um pequeno acidente – diz o velho gaúcho, inocentando o animal.

Moradores ignoram confronto brasileiro

Se for perguntado sobre caudilhos uruguaios, como Aparício Saraiva, Manolo responderá prontamente. Agora, se a indagação for sobre o embate de Cuaró envolvendo os farroupilhas, pedirá desculpas por ignorar o assunto. O mesmo fará Mirta Echenique, 76 anos, viúva do ex-chefe da estação ferroviária local.

– Não, nada. Não que eu saiba – responde.

Não fosse o alarido dos bandos de caturritas, Cuaró mergulharia no silêncio. A rotina escoa lentamente, ao ritmo do vento. A médica aparece no posto de saúde a cada 15 dias. O ônibus que leva à cidade de Artigas só opera duas vezes por semana. O único agente policial, Washington Roberto Montero, 40 anos, não se preocupa com crimes, nunca precisou usar a arma em uma década de serviço.

– Atuo mais como policial comunitário, ajudando em tarefas da escola – diz Montero.

Depois da morte do marido, em 1992, Mirta pesquisou a história do lugar. Nada achou sobre vestígios dos farrapos. Mas descobriu o significado de Cuaró na língua indígena: “fonte de água amarga”.

nilson.mariano@zerohora.com.br - lauro.alves@zerohora.com.br
TEXTOS NILSON MARIANO/IMAGENS LAURO ALVES

A insistência do coronel farrapo

Antes de protagonizar o último confronto da Revolução Farroupilha, o coronel rebelde Bernardino Pinto já havia se envolvido em combates dentro do território uruguaio.

Em outubro de 1844 – dois meses antes do desastre em Cuaró –, atacara Santana do Livramento com 200 homens, sendo derrotado pelo imperial Hipólito Cardoso.

Ao retroceder para dentro do Uruguai, Bernardino foi perseguido pelo 4º Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional, comandado pelo tenente-coronel Antônio Fernandes de Lima. Foi novamente batido, na localidade de Las Cañitas.

Negociações de paz em andamento

O coronel Bernardino parecia um renegado. Antes de ser derrotado em Santana do Livramento e no povoado de Cuaró, negociações de paz estavam em andamento. Bento Gonçalves e marechal Luís Alves de Lima e Silva, o Caxias, tinham se reunido nas proximidades de Bagé para encaminhar um cessar-fogo.

Enfrentamentos próximos à fronteira com o Uruguai tornaram-se frequentes na etapa final da guerra civil, quando os farrapos estavam em desvantagem e precisavam de lugar seguro para escapar.

No país vizinho, também podiam renovar o arsenal e a cavalhada para continuar a tática de guerrilha no Rio Grande do Sul.

Dossiê: Guerra dos farrapos: Ponche verde

Ponche Verde celebra a paz

No último dia da série que visitou lugares emblemáticos da Revolução Farroupilha, ZH chega ao local onde os canhões silenciaram há 167 anos.

Um obelisco de granito de sete metros de altura, cujo topo abriga um ninho de joão-de-barro, desponta nos campos de Ponche Verde como garantidor da paz entre farroupilhas e imperiais, depois de quase 10 anos de guerra civil. Erguido em 1945, no centenário da pacificação, também é o testemunho de como o Rio Grande do Sul desejou voltar a fazer parte do Império do Brasil, assegurando a unidade nacional.

Curiosidades cercam o monumento. Historiadores conceituados informam que a concórdia ocorreu em 28 de fevereiro de 1845, quando o general farrapo David Canabarro assinou o tratado confiando na “palavra sagrada” e no “magnânimo coração” de dom Pedro II. Outros preferem o 1º de março de 1845, como está gravado na pedra do obelisco, quando o marechal Luís Alves de Lima e Silva, o Caxias, confirmou o acerto. A declaração do pacificador:

– Rio-grandenses! É sem dúvida para mim de inexplicável prazer o ter de anunciar-vos que a guerra civil, que por mais de nove anos devastou esta bela província, está terminada.

Possíveis imprecisões não se limitam a datas. O diretor do Museu Paulo Firpo (Dom Pedrito), Adilson Nunes de Oliveira, 65 anos, observa que o obelisco não teria sido construído no exato lugar da pacificação, que era numa baixada. Foi deslocado para um terreno mais alto, perto da estrada, para que ficasse mais visível e assomasse na vertiginosa horizontalidade do pampa.

– De qualquer forma, é um motivo de honra para Dom Pedrito, que ficou conhecida como a capital da paz – destaca Adilson.

Bolicheiro toca tango a clientes

Além da vigilância do operoso joão-de-barro, o obelisco tem um guardião: João Pedro Souza Rodrigues, 67 anos, dono de um bolicho perto do monumento. É uma vendinha humilde, com paredes feitas de leivas e cobertura de capim santa-fé, mas acolhedora. O que a identifica é uma antiga placa de propaganda – “Beba Fanta” – descolorida e com amassados.

Quem vê as prateleiras meio desfalcadas, não imagina as surpresas que o bolicho pode oferecer. Se gostar das maneiras do cliente, João Pedro tira um majestoso bandônion do baú e abre os foles para executar tangos e canções do gaúcho Luiz Menezes. Nesse momento, dizem, até os cavalos atados no palanque à espera dos donos que bebem um trago de cachaça escutam as músicas.

João Pedro ganhou o bandônion (fabricado na Alemanha) há 55 anos, do pai, Teodoro Souza, que era estancieiro apoderado mas perdeu tudo apostando em corridas de cavalo. Antes de falir, ordenou-lhe que jamais vendesse o precioso instrumento, comprado de segunda mão – teria circulado pelos cafés tangueiros de Buenos Aires.

– Depois que ficou pobre, meu pai teve de tirar mel do oco das árvores para alimentar os filhos – conta.

O filho quase seguiu a perigosa paixão de carreirista de cavalos do pai. Era jóquei – franzino, pesa 50 quilos –, mas acabou se encantando pelo bandônion. Aprendeu a tocar sozinho, ouvindo emissoras de rádio, as brasileiras e as castelhanas, pois o Ponche Verde está próximo ao Uruguai. Turistas e pesquisadores que visitam o obelisco compram refrigerantes e bolachas no bolicho, mas desconhecem o talento do comerciante.

– De tudo que é lado vem gente, até do estrangeiro – diz João Pedro.

Em setembro, nas comemorações pela Semana Farroupilha, aparecem romarias de cavaleiros. Grupos fazem tertúlias no lugar, cantando, bebendo e churrasqueando em honra aos farrapos.

Tratado foi de pai para filho

Os principais pontos do acordo entre farroupilhas e o Império do Brasil:

- Os rio-grandenses indicariam o novo presidente (governador) da província. O escolhido foi o Barão de Caxias, que já era o interventor.

- O Império pagaria as dívidas do governo republicano (farroupilha).

- Oficiais rebeldes seriam incorporados ao Exército Imperial nos mesmos postos, excetuando-se os generais.

- Eram declarados livres todos os escravos que haviam lutado nas tropas farroupilhas (apesar da garantia, o historiador Moacyr Flores diz que muitos foram vendidos no Rio de Janeiro).

- Continuariam válidos todos os processos judiciais encaminhados pela República Rio-Grandense.

- Seriam assegurados os direitos individuais e de propriedade.

- Os prisioneiros de guerra seriam devolvidos à província.

- Oficiais e soldados que tivessem aderido à revolução seriam anistiados e reincorporados ao Exército Imperial.

- O Império demarcaria definitivamente a fronteira com o Uruguai.

Farrapo recusou beijar mão de dom Pedro II

Antes do acerto em Ponche Verde, os farroupilhas esforçaram-se para arrancar cláusulas honrosas ao tratado de paz.

Em 19 de novembro de 1844, o embaixador da República Rio-Grandense, Antônio Vicente da Fontoura, embarcou para o Rio de Janeiro para as negociações. As conferências começaram em 13 de dezembro.

Vicente da Fontoura era tosco para os salamaleques da Corte, vestia-se em desacordo com a moda. No seu diário, registrou “uma indiferença ridícula e um orgulho tolo” por parte dos ministros imperiais, que mal disfarçavam o risinho ao ver o caipira. Mas os cortesãos logo foram obrigados a mudar de postura.

Na tentativa de seduzirem o visitante, os ministros acenaram com uma audiência especial a ser concedida por Dom Pedro II. Mas Vicente da Fontoura atalhou com sua rude diplomacia. Argumentou que respeitava a autoridade do jovem monarca, mas que não poderia beijar sua mão por não ser um súdito do Império. Representava uma nação independente.

O embaixador quase blefava. Sabia que desde a chegada de Luís Alves de Lima e Silva ao Rio Grande do Sul – assumiu a presidência (governador) e o comando militar em novembro de 1842 – a rebelião estava com os dias contados. O Barão de Caxias (depois foi duque) dispunha de 20 mil soldados, enquanto os farrapos estavam reduzidos a mil homens em armas. Por outro lado, esgrimia com um trunfo: o Império precisava da província insurgente para deter a cobiça dos vizinhos espanhóis. Não haveria melhores sentinelas.


domingo, 2 de setembro de 2012

Revolução Russa - Introdução



Já se tornou lugar comum afirmar que a Revolução Russa de 1917 tem o mesmo significado para o século XX do que a Revolução Francesa para o século passado. Ambas foram formidáveis movimentos de massas e idéias que deram novo perfil a História da Humanidade: transformaram a vida de milhões e empolgaram ou aterrorizaram outros tantos. A bibliografia sobre ambas é vastíssima e continuam provocando polêmica - mais a russa do que a francesa. Seu raio de ação e influência deslocou qualquer outro movimento anterior. Nem o Cristianismo, nem o Islamismo, nem o Budismo, nem qualquer outro movimento de massas e idéias atingiu seu ecumenismo. Naturalmente que isto se deveu a maior integração econômica e comercial do mundo, assim como pelo desenvolvimento das comunicações.

A presente exposição trata de destacar mais os aspectos teóricos do que os fatos que levaram a Rússia a Revolução. A primeira parte consta de uma síntese das principais idéias que forjaram o pensamento revolucionário de 1917 acompanhada da situação que se seguiu. Também dá destaque às transformações econômicas e políticas produzidas durante o período Stalinista (1928/53). No final do texto encontra-se um pequeno organograma sobre o socialismo e suas divisões.

Autor:  Voltaire Schilling

Revolução Russa - As idéias: o socialismo



O conflito entre as duas grandes super-potências atuais, normalmente é descrito pela imprensa como um conflito entre Ocidente-Oriente, entre duas "Civilizações" antagônicas que se excluem mutuamente. No entanto, esta apresentação do confronto não resiste aos fatos. O que realmente está em conflito e/ ou coexistência são dois Sistemas Econômicos, políticos e Ideológicos distintos que não dependem de serem ou não Ocidentais ou de serem ou não Orientais. Por exemplo: se houvesse uma vitória do Partido Comunista francês ou italiano - a França e a itália deixariam de ser "ocidentais"? A Revolução Cubana, feita a duzentos quilômetros do território americano pode ser definida como "oriental"? E o Japão, um dos países asiáticos que mais conserva suas tradições, pode ser definido como "ocidental"? A China de Mao-Tse-Tung pode ser definida como "oriental" e a ilha de Formosa, a poucos quilômetros do conflitante chinês, como "ocidental"?

A mistificação de um conflito entre Ocidente-Oriente não se sustenta pela própria evidência. Então como poderíamos definir o real conflito? Como um confronto entre o Capitalismo e o Socialismo nas mais variadas formas com que ambos Sistemas se apresentam. E a característica comum entre ambos é exatamente serem internacionais - isto é, defendem valores ecumênicos, que podem ser aplicados em qualquer circunstância independentemente da cultura, raça, religião ou tradição. Naturalmente que estes fatores importam, mas apenas para dar distinções de grau em que o Capitalismo ou o Socialismo tomam forma. O Socialismo por exemplo, tanto pode vingar na Alemanha luterana, como na China budista. Tanto pode vingar entre os eslavos da Europa Oriental, como entre asiáticos da Indochina. O mesmo pode ser aplicado às forma capitalistas de produção que podem conviver com a democracia anglo-americana, como com as atuais ditaduras da América Latina. O Capitalismo pode se desenvolver na Itália católica, como na Turquia Islâmica ou no Haiti do fetichismo vodu. Há pois denominadores comum, basicamente porque traduzem um conflito em escala internacional: conflito de classes e de visão de mundo.

Como nosso tema é a Revolução Russa e suas conseqüências, vamos nos ater ao movimento de idéias que a inspirou para posteriormente desenvolvermos os principais eventos.

Para alguns historiadores o Socialismo surgiu durante a Revolução Francesa, como uma de suas correntes subterrâneas, tais como o movimento de Graccus Babeuf. No entanto, ele tornou-se sólido e substancialmente, muito tempo depois com Karl Marx e de Frederico Engels, quando da publicação do Manifesto Comunista em 1848.

Estes dois pensadores alemães, terminaram por produzir uma extensíssima obra econômica e política que permitiram extraordinário embasamento teórico e prático para o Socialismo. Engels, percebendo a diferença de Marx em relação às demais correntes socialistas e anarquistas, denominou seu pensamento, como "Socialismo Científico", classificando os demais como "Socialismo Utópico", visto que não apresentavam soluções práticas para a transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista, limitando-se a elaborar fórmulas de sociedades perfeitas (tais como os projetos de Owen e Fourier). O pensamento de Marx, ao contrário destinava-se a mudar radicalmente o destino das sociedades humanas e sua filosofia era o instrumento desta formação. Segundo ele "as filosofias até agora trataram de compreender o mundo, trata-se de modificá-lo".

Sinteticamente suas idéias podem ser assim esquematizadas:

Toda a História da Humanidade nada mais é do que um conflito permanente entre classes sociais antagônicas. Senhores e Escravos, Patrícios e Plebeus, Nobres e Burgueses e, na época contemporânea: Burgueses e Proletários. Quer dizer, as classes sociais e sua existência são condicionadas pela História e a Sociedade do futuro implica na sua abolição e na implantação da igualdade.
Esta abolição da sociedade de classe faria devido a própria crise do Sistema Capitalista. Por gerar a constante concentração da Propriedade e das Rendas nas mãos de poucos, levaria por oposição, a aumentar a miséria geral dos não-proprietários, que se rebelariam e destruiriam esta sociedade. Como o processo histórico é dialético, tudo aquilo que existe (O Capitalismo) será superado por uma forma social superior (O Socialismo) nascida no próprio ventre da sociedade anterior. O Feudalismo teria sido mais ameno que o Escravagismo; o Capitalismo uma forma superior ao Feudalismo e, por conseqüência, o Socialismo seria superior ao Capitalismo. Estas grandes transformações são feitas pelos homens organizados em classes sociais. A Burguesia depôs a Nobreza, o Proletariado deporá a Burguesia.
O Socialismo é por sua vez uma etapa intermediária, onde conviveriam formas da sociedade anterior (Capitalista) com formas da sociedade futura tingindo posteriormente a etapa final da pré-história da Humanidade - o Comunismo. Esta etapa de transição seria gerida pela "Ditadura do Proletariado"; a nova classe instalada no poder não poderia se desfazer do aparato Estatal, pois teria que enfrentar as ameaças da contra-revolução burguesa. Para Marx, o estado continua existindo (ao contrário dos anarquistas que propunham sua imediata abolição) como uma arma de defesa da Revolução.
A Revolução proletária é pois inevitável, havendo dois caminhos para concretizá-la. Um conquistando posições estratégicas dentro da sociedade capitalista através da dinamização dos sindicatos e dos partidos operários; outra, por um golpe dado por revolucionários audazes que empalmariam o poder em favor dos proletários. Estas duas tendências estiveram sempre latentes dentro dos escritos políticos de Marx e Engels, gerando a atual diferenciação entre social-democracia e comunismo.
Como conseqüência lógica do que foi exposto, Marx acreditava que a Revolução Proletária ocorreria num país onde o Capitalismo fosse suficientemente desenvolvido para gerar as condições necessárias a sua transformação. Para uma sociedade chegar ao Socialismo teria que necessariamente percorrer um longo desenvolvimento capitalista. Isto excluía a possibilidade de se chegar ao Socialismo numa sociedade atrasada onde a maioria da população é composta de camponeses e não de proletários urbanos (os exclusivos agentes de transformação da História). A implantação do Socialismo nas sociedades capitalistas não seria socialmente onerosa porque o desenvolvimento tecnológico permitiria atender a todos "segundo suas necessidades". A Humanidade livrar-se-ia pois da alienação do trabalho e das exigências de atender aos ditames do Lucro e do Capital para suprir-se a sí própria.

Somente durante os últimos anos de sua vida, passou a grangear fama e respeito, cabendo parte do mérito a Engels, responsável pela divulgação de seus escritos (0 2º e 3º volume do Capital foram publicados após a morte de Marx) e pela preservação da pureza do pensamento do amigo.

Revolução Russa - O pensamento revolucionário na Rússia



Durante séculos a Rússia permaneceu isolada das grandes transformações sociais, econômicas e culturais porque passava a Europa Ocidental. A Reforma ou o Renascimento pouco efeito tiveram em sua paisagem política e cultural. O mesmo acontecendo com o Iluminismo e as Revoluções burguesas. Segundo Kireievski "o alargamento material do império absorveu durante séculos toda a energia do povo russo: o crescimento material tornou impossível o crescimento espiritual ". De fato o antigo principado de Moscóvia no século XIV, não ultrapassava em extensão a atual Finlândia. Trezentos anos depois, estendia seu domínio por mais de vinte e dois milhões de quilômetros quadrados, englobando as mais variadas culturas, religiões e grupamentos raciais - Seus grandes impulsionadores foram os czares Ivan III, Ivan IV (o Terrível), Pedro - o Grande e Catarina II. Submetendo a ferro e a fogo os tártaros, os turcos, os cossacos, os tcherquizes, os mongóis, os poloneses, e as tribos nômades da Sibéria; sua extensão, ia do Vístula na Polônia até o Oceano Pacífico, no extremo Oriente.

O governo dos czares - a autocracia absoluta - foi uma decorrência da necessidade de integração deste vasto território heterogêneo em tudo. Quando Bizâncio caiu em poder dos Turcos Otomanos, o Príncipe de Moscóvia atraiu para sua capital os restos da administração e do clero grego ortodoxo, assimilando suas práticas funcionais e hierárquicas. A igreja, tal como em Constantinopla, estava subordinada ao Estado e seu chefe era nomeado diretamente pelo Imperador. A Rússia desconheceu pois, o latente conflito existente na Europa Ocidental, entre o clero e o aparato estatal.

Esta fusão completa entre Estados e Igreja naturalmente contribuiu para o sufocamento do livre-pensar. A intelectualidade russa vivia permanentemente sob vigilância quer de parte do Estado quer de parte do Santo Sínodo. No entanto, a maior aproximação da Rússia com o Ocidente no século XIX (principalmente depois das guerras napoleônicas) tornou inevitável a penetração dos ideais libertários vindos da Europa. Primeiro sob a forma do liberalismo e em seguida do socialismo. Não deixa de ser um paradoxo que a Rússia do século XIX, pobre e brutalizada, terminasse por gerar grandes talento da literatura mundial tais como Gogol, Dostoevski, Tchecov, Turguenieff, Tolstoi e Gorki. E, na política, homens do porte de Alexandre Herzen, Bakunin, o Príncipe Kropotnik e o introdutor do marxismos na Rússia - George Plekhanov.

Os populistas: As reformas executadas pelo czar Alexandre II (entre 1861-5), tais como a abolição da servidão da gleba, criação das câmaras municipais (zemstvos), atenuação da censura na imprensa e nas universidades) foram provocadas pelo fracasso russo durante a Guerra da Criméia (1853-8) onde foram batidos pelos corpos expedicionários franco-britânicos, que impediram a Rússia atingir Constantinopla e ter acesso ao Mediterrâneo. Esta era de reformas, devido sua timidez, terminou por gerar um descontentamento ainda mais amplo. Desgostou a nobreza porque tornaram os camponeses "insolentes" estes, porque tiveram que se individar para obter sua autonomia; a intelligentsia porque haviam sido suficientemente profundas. É das camadas esclarecidas da população, que parte a primeira tentativa de derrubar o regime por um movimento não-palaciano. Inicialmente denominou-se "Terra e Liberdade" e seu objetivo era convencer a massa rural a sublevar-se contra o czar. O fracasso desta tentativa e a repressão que se seguiu, levou os populistas (narodniks) a embrenharem-se na sina do terrorismo político. Acreditavam que, abatendo as figuras exponenciais do regime czarista, provocariam a rebelião por exemplo. Em 1881 o próprio czar Alexandre foi vitimado por uma jovem militante, Sofia Perovskaia. Os populistas inspiravam-se nos anarquistas ocidentais, pensando poder levar a Rússia ao socialismo devido a existência de comunidades rurais organizadas em torno do mir (uma espécie de unidade de produção comunal) que facilitariam sua implantação. O terrorismo apenas reforçou ainda mais o aparto estatal e justificou a intensificação da opressão e da censura. É neste contexto que o marxismo vai surgir como alternativa à prática política e teórica dos narodniks.

Os social-democratas: Em março de 1898, na cidade de Minsk, nove delegados representando as principais cidades do país, reuniram-se para a formação do Iº Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR). Denominação inspirada no Partido Social-Democrata alemão fundado por Lassale em 1863 e o mais poderoso partido político operário do Ocidente. Entre os delegados encontrava-se Vladmir Ilich Uliánov, cujo codinome era Lenin, o futuro fundador do Estado Soviético. Como resultado concreto do congresso foi difundido o Manifesto do POSDR, redigido por Peter Struve que, dentro da ortodoxia marxista, aceitava as duas etapas da futura Revolução Russa (a primeira de cunho democrático-burguesa e a segunda socialista-proletária sem fazer menção à ditadura do proletariado nem quais os meios para realizar sua missão). Os marxistas diferiam profundamente dos populistas e, tanto na Rússia como no exílio, intensificaram a polêmica sobre o destino do país e quais as táticas corretas a serem empregadas para a derrubada da autocracia . Em síntese, defendiam as seguinte posições:

Era um profundo equívoco querer transformar a Rússia em um país socialista, pois o capitalismo ainda era incipiente não gerando as condições necessárias para a transição.
A prática do terrorismo era absolutamente inócua pois não abalava a estrutura do regime: "de que adianta abater o czar se o czravitch está logo alí para substituir seu pai? ". Era necessário desenvolver um longo e amplo trabalho de "preparação" das massas, através da propaganda e da agitação. Leva-las à consciência da certeza da derrubada do czarismo como um todo e não em ações isoladas.
Favorecer a implantação do capitalismo na Rússia. Quanto mais empresas e indústrias lá se instalassem mais cresceria o proletariado urbano e favoreceria o surgimento da única classe verdadeiramente revolucionária. Ironicamente, esta posição dos marxistas, serviu para que fossem vistos como menos perigosos pela Okrana, a polícia secreta do Czar, que passou dedicar maior atenção àqueles que, no momento, lhes pareciam mais ameaçadores, os terroristas populistas.

Os próprios marxistas, organizados em torno do POSDR, não estiveram por muito tempo unidos. Cinco anos depois - no exterior - organizaram um IIº Congresso (primeiro na Bélgica e depois em Londres) que terminou por levá-los à cisão. Formando-se duas facções: a da maioria (bolcheviques) e a da minoria (melcheviques). Aparentemente as causas da divisão foram motivos de pequena monta, mas terminaram por alargar-se com o tempo transformando-os em dois partidos distintos, e todas as tentativas de reunificação lograram em fracasso. (Como durante o Congresso de Estocolmo, em 1906).

Mesmo dentro do seu partido, Lenin teve que lutar várias vezes para que seus companheiros aceitassem seus pontos de vista. Como a Rússia, pouco desenvolvida e possuindo uma massa de mais de cem milhões de camponeses, poderia lançar-se na construção do Socialismo? Em primeiro lugar propôs que os operários se aliassem à massa rural, sem esta aliança um partido revolucionário teria escassas possibilidades de sobrevivência.

Em segundo lugar, acreditava que a Guerra Mundial (1914-18) terminaria por desencadear uma série de Revoluções proletárias e a Rússia não ficaria isolada. Deste modo, o evidente atraso econômico, cultural e tecnológico do país, receberia auxílio esterno. Apesar de suas divergências com a social-democracia alemã, Lenin tinha esperança que no momento aprazado o proletariado alemão faria a sua Revolução e socorresse seus camaradas. O fracasso desta expectativa conduziu União Soviética à teoria do "socialismo num só país" e a ascensão de Stalin ao poder supremo.

Mencheviques e Bolcheviques: Não nos cabe aqui expor toda a polêmica surgida em torno da questão do quadro editorial do jornal do Partido - O Iskra - a "centelha que deveria provocar a Revolução", e sim fixar as linhas gerais que levaram a formação das duas correntes.

O mencheviques, influenciados pelo pensamento convencional do marxismo europeu, influenciados pelo pensamento convencional do marxismo europeu, pregavam:

a formação de um partido o mais amplo possível, considerando todo colaborador - direto ou indireto como um membro do partido;
não acreditavam na possibilidade da Rússia transitar rumo ao Socialismo sem antes percorrer o desenvolvimento do Capitalismo;
como conseqüência, deveriam aliar-se à burguesia para depor o czarismo.

Os bolcheviques - liderados por Lenin, apresentavam outra proposta:

o partido deveria ser formado por revolucionários profissionais, só sendo membro quem militasse ativamente nas suas fileiras;
isso se devia à permanente infiltração de "agentes provocadores da polícia secreta do czar e pelas condições gerais da repressão na Rússia, que não permitiam a existência de um partido "aberto";
devido ao atraso das massas operárias e camponesas o partido se tornaria a "vanguarda do proletariado" composto por elementos mais conscientizados e endurecidos na luta política, disciplinados e obedientes ao Comitê Central. De certa forma, bolcheviques e mencheviques terminaram por concretizar as "duas vias" para o Socialismo que estavam latentes no pensamento de Marx e Engels. Quando ocorreu a revolução de fevereiro de 1917, derrubando o czarismo, os mencheviques exerciam uma enorme influência no meio dos operários de Petrogrado. No transcorrer do ano foram lentamente se desgastando na sua vã tentativa de amparar a esquálida burguesia russa, terminado por sucumbir junto com ela.

O leninismo: Podemos dizer que o Leninismo, como pensamento autônomo dentro do Marxismo, fundia-se inteiramente com o Bolchevismo. Pecaríamos pela verdade no entanto se não estabelecêssemos algumas distinções entre o Leninismo e o Bolchevismo, não esquecendo que, após a morte de Lenin, em 1924, o Bolchevismo continuou existindo, se fraccionando em várias tendências. As principais contribuições de Lenin para o plano teórico-prático do Socialismo e da Revolução seriam os seguintes: a) a tentativa de redefinir as perspectivas do desenvolvimento capitalista e/ou revolucionário na era do Imperialismo. Ao seu ver o Capitalismo encontrava-se extremamente consolidado nos países desenvolvidos fazendo com que parte da classe operária passasse a usufruir de uma melhoria substancial em seu modo de vida. Explicava-se a tendência reformista que o Socialismo havia assumido nestes países. No entanto, a dinâmica revolucionária deslocava-se para a periferia do Sistema. Nos países atrasados, onde o Capitalismo era pouco desenvolvido ocorreria a possibilidade de eclosão da Revolução "quebra a corrente capitalista em seu elo mais fraco". As teorias de Lenin foram consideradas verdadeiras heresias contra o pensamento de Marx e sua posição foi de quase total isolamento.

A Revolução Russa de Fevereiro (março pelo calendário atual) foi um enorme movimento de massas que espontaneamente rebelaram-se contra o czarismo. Nenhum partido as insulflou. Ao contrário, a grande maioria dos revolucionários militantes foi surpreendida - acrescente-se que a maioria deles estava presa na Sibéria (como Stalin) ou no exílio (Lenin na Suiça e Trotski nos Estados Unidos). Como também foi espontânea a organização de sovietes (conselhos) em todas as fábricas, repartições, bairros e regimentos militares, que passaram a formar um poder paralelo.

Revolução Russa - As Causas


Christopher Hill aponta as seguintes "causas gerais" da Revolução Russa:

Primeiramente é de que o desenvolvimento econômico do país era extremamente moroso; seu comércio e sua indústria encontravam-se nas mãos de estrangeiros e o grosso da produção era consumido pelo próprio Estado.
Isso levou a que a burguesia e a classe média pouco puderam se desenvolver. A burguesia russa jamais atingiu a autonomia da ocidental, pois sua dependência do Estado era muito grane. O poder concentrado nas mãos do Czar pouco espaço deixava para o florescimento do liberalismo, que atingiu apenas uma pequena fração da população - aqueles que eram muito ricos.
A presença estrangeira no financiamento da industrialização russa, tornou a burguesia um apêndice do sistema internacional fazendo-a procurar proteção junto ao Czar (tarifas protecionistas, etc.).
A extraordinária concentração de operários nos grandes centros urbanos do país (perto de três milhões) e a super-exploração a que estavam submetidos (o capitalista russo só sabia competir reduzindo os gasto e não implementando tecnologia levando-os a forçar para baixo o padrão de vida dos operários). Devido a exigüidade do espaço político, impedidos de participarem, nos partidos e no parlamento, o operariado russo seguiu a estrada da revolução e não do Reformismo.

Estes são pois um conjunto de fatores mais amplos, de estrutura que terminaram por favorecer um tipo específico de Revolução. O colapso geral, deu-se com a entrada da Rússia na Grande Guerra. A incapacidade do czarismo em vencer e as insuportáveis condições internas, terminaram por fazer com que a eclosão do movimento revolucionário fosse incontrolável.

Revolução Russa - As três etapas da Revolução de 1917



De fevereiro a julho: o governo encontrou-se dividido entre o poder formal (o Governo Provisório liderado pela burguesia, classe-média e setores da nobreza liberal) e os Sovietes (de operários soldados e marinheiros) sem cuja aquiescência pouco podia ser feito.
De julho a setembro: a insistência do Governo Provisório em manter o país na guerra contra a Alemanha, levou a exacerbação dos setores populares e, tanto os bolcheviques (em julho) como os contra-revolucionários (em setembro), tentam derrubar o governo de Kerenski (um social-revolucionário) que representava a coalisão entre os liberais, os melcheviques e os social-revolucionários. A tentativa direitista do Gen. Kornilov, fracassa. Os bolcheviques que haviam sido perseguidos e presos (inclusive obrigando Lenin a refugiar-se temporariamente na Finlândia), voltam a gozar de popularidade.
De setembro a outubro: a ofensiva militar contra os alemães, organizada por Kerenski (pressionado pelos aliados franco-britânicos) é derrotada. Milhares de soldados abandonam o fronte, desertando em massa, terminando por engrossar as fileiras dos bolcheviques que prometiam paz imediata e distribuição das terras para os camponeses. O Governo Provisório não tinha mais condições de subsistir. No dia 25 de outubro, os bolcheviques apoiados pelos principais regimentos de Petrogrado, pelos marinheiros da esquadra do Báltico e da Fortaleza de Kronstadt, e pelos Guardas Vermelhos (operários armados) tomam de assalto o Palácio de Inverno - sede do Governo Provisório. O mesmo acontece na maior parte do país, havendo apenas resistência maior em Moscou. O golpe de Estado desfechado pelos bolcheviques foi incruento - poucas foram as vítima em outubro e novembro. O país ainda teria que enfrentar uma ameaça ainda maior que a própria guerra - a guerra civil (1918-21) que atingiria todas as aldeias e rincões do país, levando-o à completa exaustão e a mais de um milhão de mortos.

Revolução Russa - 1918: O ano I da Revolução



A justificativa para a tomada do poder pelos bolcheviques foi dada por Lenin no dia seguinte de sua chegada ao exílio - sete meses antes de tornar-se concreta. A exposição de motivos denominou-se "Teses de Abril" cuja síntese é a seguinte: a) denunciou a guerra como sendo imperialista, rapinesca que o proletariado consciente devia se descompromissar de apoia-la. O proletariado só pode dar seu apoio a uma guerra Revolucionária que deponha a burguesia. A guerra imperialista é conseqüência do capitalismo. Sem a derrubada deste não é possível obter a paz; b) determinou que a peculiaridade do momento atual da Rússia consistia em que o primeiro passo ou etapa da Revolução deu o poder a burguesia, sua segunda etapa deverá ocorrer quando o poder estiver nas mãos do proletariado e das camadas pobres do campesinato; c) portanto os bolcheviques negam-se dar apoio ao Governo Provisório (ocupado pela burguesia). Lenin tem consciência de que os bolcheviques são minoria mas confia que a marcha dos acontecimentos e o crescimento da insatisfação os tornará maioria, criando-se assim a "legitimidade" para tomar o poder. O novo regime seria não uma República Parlamentar mas uma República Soviética; d) estabelece um programa agrário de nacionalização de todas as terras e sua pronta entrega aos camponeses, a fusão de todos os bancos sob controle dos deputados proletários, o imediato controle da produção social e da distribuição dos produtos pelos sovietes e proclama a necessidade da formação de uma nova Internacional Socialista (pois os sociais-democratas europeus apoiaram a entrada de seus países na guerra imperialista, traíndo a causa do internacionalismo socialista). O ano I da Revolução seria aquele em que as promessas de Lenin deveriam ser cumpridas. A paz com a Alemanha foi acertada em Brest Litovsk. Os bolcheviques tiveram que ceder milhares de quilômetros quadrados ao império dos Hoenzollers. As fábricas, minas, bancos, estradas de ferro e o comércio foram entregues às administrações dos operários e funcionários, e foi atendida a "fome de terra" dos camponeses com a abolição da propriedade fundiária.

Se a paz com a Alemanha retirou o país da guerra, a "necessária folga" do novo regime pouco durou. A guerra civil desenhava-se no horizonte e seria uma das mais cruentas da história do nosso século.

Revolução Russa - A guerra civil e o comunismo de guerra



A guerra civil eclodiu em abril de 1918. Em várias regiões da Rússia, ex-generais Czaristas levantaram suas tropas contra o governo bolchevique. Aproveitando-se do verdadeiro caos em que o país se encontrava, as nações aliadas resolveram intervir a favor dos brancos. Tropas inglesas, francesas, americanas e japonesas desembarcaram tanto nas regiões ocidentais (Criméia e Georgial) como nas orientais (ocupação de Vladivostok e da Sibéria Oriental). Seus objetivos eram: derrubar o governo bolchevique (que era pela paz com a Alemanha) e instaurar um regime neoczarista (a favor da continuação da Rússia na guerra); mas talvez seu objetivo maior fosse evitar a "contaminação" da Europa Ocidental pelos ideais bolcheviques - daí a expressão utilizada por Clemenceau, Presidente da França - de "cordon sanitaire".

Para poder enfrentar a maré contra-revolucionária, o novo governo instituiu o Exército Vermelho, comandado por Leon Trotski que revelou-se um brilhante estrategista, disciplinador rígido e líder das tropas. Na passagem dos anos vinte para vinte e um, todas as formações contra-revolucionárias haviam sido derrotadas e seus principais expoentes (Koltchak, Wagran, Denikin e Yudenich) exilaram-se no exterior. As forças expedicionárias aliadas foram obrigadas a retira-se, tanto pela derrota dos Brancos, pressão da opinião pública internacional.

No terreno econômico, devido a situação de emergência e pelo próprio ímpeto revolucionário, instituiu-se o "comunismo de guerra". O dinheiro e as leis do mercado foram abolidas., sendo substituídos por uma economia dirigida baseada no confisco de cereais produzidos pelos camponeses. Naturalmente estas medidas criaram um desestímulo a plantio, levando-os a produzirem exclusivamente para o sustento de suas famílias. O resultado foi catastrófico. Os centro urbanos ficaram sem alimentos, provocando um êxodo urbano - (Petrogrado e Moscou viram sua população reduzir-se pela metade). A fome de 1921 transformou-se numa das maiores tragédias da Rússia moderna - milhões pereceram.

Politicamente, os bolcheviques iniciaram a luta final contra outras facções da Esquerda (melcheviques, anarquistas e social-revolucionários), terminando por se transformarem no único partido legalizado do país. Durante o X Congresso do partido, em 1921, adotaram uma resolução ainda mais drástica - a proibição da existência de facções dentro do partido. Quer dizer, os bolcheviques estendiam a ditadura sobre si próprios. Enquanto a liderança esteve nas mãos de Lenin, não foram tomadas medidas repressivas contra os membros recalcitantes ou divergentes. Mar serviu de poderoso instrumento coercitivo quando Stalin empalmou a direção partidária.

Revolução Russa - A NEP e a reconstrução nacional



Depois de terem sufocado a rebelião dos marinheiro do Kronstadt, que clamavam pela derrubada dos bolcheviques e pela instauração da democracia proletária e da administração direta, os bolcheviques interpretaram corretamente a situação. Era impossível dar seguimento ao comunismo de guerra. Tornou-se necessário recuar em suas ambições de implantação imediata do comunismo. Voltar atrás não era uma medida fácil de ser tomada, e provavelmente, somente Lenin tinha condições morais e políticas para ordenar a retirada e não perder apoio dentro do partido.

Em 1921, foi criada a NEP (a Nova Política Econômica) que restabelecia as práticas capitalistas vigentes antes da Revolução. Os camponeses passariam a vender uma pequena parte da produção para o Estado a preço fixo, o restante podia ser lançado no mercado. Também permitiu-se o florescimeno de empreendimentos capitalistas na pequena indústria e no comércio. O estímulo pelo ganho pessoal foi reintroduzido e o igualitarismo teve que ceder passo à hierarquia e aos privilégios materiais.

O país passou a ter uma constituição produtiva anacrônica, medidas socialistas (estatização das empresas, minas, transportes e bancos), conviviam com medidas capitalistas (o médio produtor rural, o capitalismo urbano) e com a economia tradicional (economia de substência empregada pelos camponeses pobres). Permitindo no entanto a sobrevivência do regime dando-lhe folga necessária para a reordenação de forças. O próprio Lenin teve dificuldade m definir o estado de coisas, que ironicamente classificava: como "uma mistura de czarismo com práticas capitalistas besuntadas por um verniz soviético".

Os resultados práticos não demoraram a surtir efeito. Lentamente a produção agrícola foi sendo restabelecida; o sistema viário voltou a funcionar com maior regularidade e as pequena indústrias começaram a lançar seus produtos no mercado.
História da Rússia Soviética
da Revolução de 1917 ao Stalinismo

Socialismo num só país

A tragédia do bolchevismo dos anos vinte se deu na medida em que, devido ao peso das circunstâncias, tiveram que transformar-se num partido que representava a si mesmo. Suas bases sociais - o proletariado urbano, além de ser escasso numericamente, foi literalmente dizimado pela guerra civil e pela desorganização da economia ocorrida neste período. Depois de longos anos de guerra e de guerra civil, a extrema tensão em que foram submetidas as massas tornou-as apáticas. Este comportamento favoreceu a implantação da ditadura partidária mas os custos políticos foram terríveis - não só para o socialismo russo, como para a causa do socialismo internacional.

O isolamento em que o país se encontrava aprofundou-se ainda mais. A tão esperada revolução que deveria ocorrer num país desenvolvido, não ocorreu. Depois do fracasso dos spartaquistas em 1919 e dos comunistas em 1923, a Alemanha deixou de figurar como uma possível aliada. Estes fatores terminaram por fazer com que os bolcheviques fossem obrigados a alterar sua estratégia interna. A União Soviética de agora em diante deveria contar com seus próprios recursos. Evidentemente que aceitar esta nova situação era uma heresia. O socialismo era um movimento internacional, que não podia ser limitado por fronteiras, os fatos no entanto, eram uma poderosa evidência para qualquer teoria internacionalista. A União Soviética teria que lançar-se na "construção do Socialismo" enfrentando todos os fatores adversos; a falta de quadros técnicos e culturais, o imenso analfabetismo do campesinato, a baixa produtividade e a pouca qualificação de seu operariado.

Lenin morreu em janeiro de 1924 sendo sucedido por um triunvirato com plenos poderes sobre o Estado e a Organização Partidária. Dos tríunviros, (Kamenev, Zinoiev e Stalin) foi Stalin que de fato passou a usufruir de maior poder e autoridade - seu cargo era a Secretaria-Geral - responsável pela administração do Partido e pela admissão ou exclusão de seus militantes. Numa época em que a reconstrução do país ganhava cada vez mais importância, os administradores foram ocupando o lugar dos teóricos e dos agitadores - Stalin terminou sendo o veículo da nova situação. Graças a seus poucos recursos teóricos, não tinha nenhum grande compromisso em manter fidelidades ideológicas ao contrário servia-se delas para executar o seu projeto político-econômico.

Isto não evitou a polêmica entre o grupo dirigente. Ao aceitarem o "Socialismo num só país", esboçado inicialmente por Bukharin e posteriormente por Stalin - jogaram automaticamente Trostski na oposição. Ele era a expressão do ímpeto revolucionário da época heróica, que lentamente estava sendo arquivada pela nova elite dirigente. Sua formação cosmopolita e internacionalista, o indispunha com o "Socialismo num só país", que se identificavam com os ditames do aparelho administrativo-burocrático e com o nacionalismo. Em 1927, terminou sendo expulso do Partido e desterrado em Alma Alta (na Ásia) e, posteriormente, foi obrigado a exilar-se no exterior. A tese do "Socialismo num só país" pode ser esquematizada da seguinte maneira:

Industrialização total, baseada na produção nacionalizada, dando prioridade aos meios de produção (indústria pesada).
Coletivização progressiva da agricultura, visando à transformação última da propriedade coletiva em propriedade estatal).

Mecanização geral do trabalho, extensão do treinamento "politécnico", tendente a "equalização" entre trabalhos urbanos e rurais.
Aumento gradual do padrão de vida desde que mantido os itens 1 e 3.
Formação de uma moral universal do trabalho, e de uma eficiência competitiva: eliminação de todos os elementos transcendentais, psicológicos e ideológicos (Realismo Soviético).
Preservação e fortalecimento das maquinarias estatal, partidária, militar e gerencial.
Após haverem sido atingidas as metas previstas, transição para um sistema de distribuição do produto social de acordo com as necessidades individuais.

Revolução Russa - A segunda revolução Stalinismo e os grandes expurgos



Nos anos trinta a União Soviética iria se lançar numa das mais formidáveis e traumatizantes aventuras dos tempos contemporâneos. A transição vertiginosa de um país agrário num país industrializado. Pela primeira vez na História esta transição não se daria pelas forças cegas da lei do mercado e sim pelo impulso estatal amparada na planificação econômica geral. Stalin enterrou definitivamente a NEP e deu início ao lançamento das bases industriais que permitiram porteriormente a URSS sair vitoriosa no conflito com a Alemanha Nazista (1941-45). No entanto sua política teve terríveis conseqüências no plano físico, moral e intelectual da nação. Acicatado pela necessidade de fazer frente a "ameaça capitalista" que cercava o país, os soviéticos lançaram-se à tarefa num ritmo sem prescedentes.

O primeiro passo dado foi a coletivização forçada a que os camponeses foram submetidos. A URDD do final dos anos vinte possuía aproximadamente de 25 milhões de pequenas propriedades, onde viviam mais de cem milhões de camponeses com suas famílias. A contradição da propriedade privada da terra e propriedade socializada foi resolvida num golpe. Criaram-se milhares de fazendas coletiva (Kolkozes) e granjas estatais (solfkozes) que deveriam iniciar uma nova etapa da história da exploração agrícola do solo. Esperava-se deste modo, fazer com que a produtividade agrícola aumentasse com a mecanização das lavouras, cumulando-se assim a renda necessária para a sustentação dos grandes projetos de eletrificação e industrialização. A resistência dos camponeses foi muito além das expectativas. Mataram seu gado, inutilizaram suas ferramentas e, em muitas regiões, rebelaram-se abertamente contra o regime . Stalin foi implacável. Mobilizaram-se inclusive forças do Exército para cumprir o projeto de coletivização e milhões de kulaks foram deportados para os campos siberianos condenados os trabalhos forçados. O impiedoso chicote de Stalin abateu-se sobre o campo e destruiu o que restava de resistência.

Na área urbana os projetos industriais cresciam como cogumelos, o padrão de vida era baixo e as dificuldades de habitação, transporte e alimentação duríssimas. Milhares de camponeses foram jogados dentro das fábricas, onde sua inabilidade, indisciplina e ignorância provocavam um espantoso índice de acidentes de trabalho. Mas o clima do país, pelo menos nos primeiros anos da década dos trinta, era de entusiasmo. A juventude lançou-se ardorosamente na construção industrial pois esperava-se em breve chegar finalmente a sociedade igualitária. Milhares de administradores, economistas, engenheiros eram formados e engajavam-se na monumental tarefa. No entanto, a população ainda iria passar pôr um teste ainda mais duro - a Era do Terror - quando Stalin decidiu-se pela eliminação de todos àqueles que lhe fizeram e faziam oposição, dentro do partido.

O assassinato de Kirov, um dedicado homem de confiança de Stalin, na "capital da Revolução" (Leningrado), serviu de pretexto para que o ditador inicia-se os terríveis expurgos que espantaram o país e o mundo. Numa série de processos (entre 1936 e 1938) toda a "Velha Guarda" do partido bolchevique foi esmagada. Este terrível período ficou na memória como a Yezovchnina - o terror de Yezov chefe da Polícia Secreta (NKVD) - que também foi executado quando Bária assumiu o comando do aparelho repressivo, em 1938 .

Até hoje os historiadores procuram as causas desse terrível massacre e encontram dificuldades em encontrar sua "racionalidade"- tentaremos expor abaixo algumas de suas possíveis causas e funções:

Com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, sua política belicista e anti-comunista tornava mais próxima a idéia de uma invasão da URSS - alentada por outras nações capitalistas. No Oriente, o expansionismo japonês (conquista de Machúria e guerra contra a China) ameaçava o forte siberiano. Criou-se assim um clima favorável para o alarme da "Pátria socialista em perigo e arregimentação de todas as forças em torno da ditadura stalinista.
Esta pressão externa condicionou Stalin a visualizar em seus inimigos políticos (dentro do Partido) como, objetivamente, inimigos da revolução e aliados da reação fascista . dado o despreparo do país para enfrentar um ataque conjunto alemão-japoneses, era inevitável que a oposição terminasse por questionar sua autoridade sobre o país. Ele passo a agir de forma "preventiva" antes que a oposição ganhasse vulto, explorando a insatisfação contra o Regime. As abjetas confissões a que os velhos revolucionários foram submetidos, tinham por objetivo degradá-los perante a opinião pública - ao mesmo tempo que consagravam Stalin como o único e exclusivo seguidor do Leninismo e da pureza revolucionária.
A industrialização acelerada, feita sem nenhum amparo em referências anteriores - fez com que os inevitáveis acidentes e dificuldades, fossem apontados como sabotagem contra-revolucionária. Desta forma eximia-se a facção dirigente das inevitáveis calamidades que uma industrialização galopante traz em seu bojo. O terror passou a exercer uma função pedagógica. As falhas e a incompetência eram punidas com a prisão ou fuzilamento, fazendo com que as eficiências de formação fossem superadas pela dedicação integral ao trabalho.
Os processos e fuzilamentos atuavam também como uma espécie de "compensação" psicológica para a massa da população. Apesar dos sofrimentos a que estavam submetidos, pelas condições do trabalho, pela escassez de víveres e de habitação, "consolovam-se" ao ver os privilegiados do regime stalinista pagar com a vida sua indisposição com a facção dirigente.

Mas não foram apenas os quadros políticos e técnicos os atingidos pelas grandes purgas. Nem o Exército nem a polícia secreta ficaram imunes: 65% dos oficiais graduados foram executados ou presos mais de três mil tchequistas foram fuzilados. De certa forma isto foi interpretado como demonstração de fraqueza do Estado Soviético, pois ao eliminarem os quadros da nova intelligentsia militar (pincipalmente o grande estrategista, o Marechal Tukaschevski) favoreceram os preparativos blicistas de Hitler.

Os resultados internos, no entanto, consagraram o domínio absoluto de Stalin. Uma nova equipe dirigente foi colocada a sua disposição. Duos, eficientes e cruéis, propiciaram uma centralização efetiva do poder. Deve-se observar que o stalinista típico, tinha formação cultural bem inferior a dos membros da Velha Guarda partidária. Poucos conheciam o exterior, - ficando suas raízes em solo russo. Ao contrário da elite intelectual dos primeiros tempos, fornida pela alta especulação teórica, os homens de Stalin dominavam o jargão convencional do marxismo. Sua própria extração social era distinta. Excetuando talvez Molotov e Malenkov, seus próximos emergiram da baixa classe média e do operariado - como Kalinin e Kruschev.

Foi durante seu período de pleno poder que a Ciência, as Artes e a Literatura tornaram-se adstritas à política. Nenhum ramo do conhecimento atuava à margem dos interesses partidários imediatos, tornando-se instrumento da propaganda oficialista, sob a batuta do Ministro da Cultura Zhadanov. Artistas e historiadores viviam sob a vigilância permanente e seus textos, muitas vezes, eram censurados pelo próprio Stalin (de acordo com a tradição czarista, pois Nicolau I fazia o mesmo com as rimas do grande poeta Puschkin). Mesmo assim, os alcances da instrução massiva atingiram as multidões . Os grandes clássicos da literatura tornaram-se acessíveis aos operários e camponeses. Balzac Tolstoi, Stndhal, Tchecov, Shakespeare, Homero tiveram tiragens contadas aos milhões.

Os Planos Qüinqüenais, iniciados em 1928 proporcionaram ao país a possibilidade, não só de atingir cifras impressionantes de crescimento econômico, como serviram para derrotar a mais eficiente máquina militar posta em movimento na Europa, a Wermacht de Hitler. Milhões de rudes camponeses passaram a dominar a tecnologia e enviar seus filhos para os cursos de graduação superior.

Talvez como nenhum político de outros tempos, Stalin soube graduar a dicotomia do poder esboçada por Maquiavel, seu sucesso deve-se a habilidade com que equilibrava Temor e Amor para manter-se na crista do Estado. Por outro lado sua autocracia não deve ser vista apenas como decorrente da sua vontade pessoal e sim como resultado de um processo que se iniciou muito antes dele tornar-se o Número Um do partido.

Quando venceram os Brancos na Guerra Civil, os bolcheviques não só não estenderam a conciliação aos outros partidos de Esquerda, como decretaram sua supressão. Ao tornarem-se partido único, foi inevitável que as tensões sociais eclodissem no Politburo - o surgimento de facções foi sua decorrência lógica. Posteriormente uma das facções - a stalinista - se impos sobre as demais (trotskistas, zinovievistas, bukarinistas), culminado por fazer com que os próprios stalinistas terminassem por inclinar perante seu chefe. O execrado "culto à personalidade" e o despotismo semi-bizantino de Stalin, foi obra pois de um mecanismo político que adquiriu autonomia própria, independentemente da vontade daquele que lhe deram o impulso inicial.
História da Rússia Soviética
da Revolução de 1917 ao Stalinismo

Canal de filmes LavTV

Canal de filmes LavTV
filmes 24 horas

Charge

Charge

charge

charge

Charge: Latuff e o massacre no Pinheirinho*

Charge: Latuff e o massacre no Pinheirinho*

A história secreta da Rede Globo

Resuno do documentário: Beyond Citizen Kane (no Brasil, Muito Além do Cidadão Kane) é um documentário televisivo britânico de Simon Hartog produzido em 1993 para o Canal 4 do Reino Unido. A obra detalha a posição dominante da Rede Globo na sociedade brasileira, debatendo a influência do grupo, poder e suas relações políticas. O ex-presidente e fundador da Globo Roberto Marinho foi o principal alvo das críticas do documentário, sendo comparado a Charles Foster Kane, personagem criada em 1941 por Orson Welles para Cidadão Kane, um drama de ficção baseado na trajetória de William Randolph Hearst, magnata da comunicação nos Estados Unidos. Segundo o documentário, a Globo emprega a mesma manipulação grosseira de notícias para influenciar a opinião pública como o fez Kane. O documentário acompanha o envolvimento e o apoio da Globo à ditadura militar, sua parceria ilegal com o grupo americano Time Warner (naquela época, Time-Life), a política de manipulação de Marinho (que incluíam o auxílio dado à tentativa de fraude nas eleições fluminenses de 1982 para impedir a vitória de Leonel Brizola, a cobertura tendenciosa sobre o movimento das Diretas-Já, em 1984, quando a emissora noticiou um importante comício do movimento como um evento do aniversário de São Paulo e a edição, para o Jornal Nacional, do debate do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 1989, de modo a favorecer o candidato Fernando Collor de Mello frente a Luis Inácio Lula da Silva), além de uma controvérsia negociação envolvendo acções da NEC Corporation e contratos governamentais. O documentário apresenta entrevistas com destacadas personalidades brasileiras, como o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, os políticos Leonel Brizola e Antônio Carlos Magalhães, o publicitário Washington Olivetto, os jornalistas Walter Clark, Armando Nogueira, Gabriel Priolli e o atual presidente Luis Inácio Lula da Silva. O filme seria exibido pela primeira vez no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro do Rio de Janeiro, em março de 1994. Um dia antes da estréia, a polícia militar recebeu uma ordem judicial para apreender cartazes e a cópia do filme, ameaçando em caso de desobediência multar a administração do MAM-RJ e também intimidando o secretário de cultura, que acabou sendo despedido três dias depois. Durante os anos noventa, o filme foi mostrado ilegalmente em universidades e eventos sem anúncio público de partidos políticos. Em 1995, a Globo tentou caçar as cópias disponíveis nos arquivos da Universidade de São Paulo através da Justiça Brasileira, mas o pedido lhe foi negado. O filme teve acesso restrito a essas pessoas e só se tornou amplamente vistos a partir da década de 2000, graças à popularização da internet. A Rede Globo tentou comprar os direitos para o programa no Brasil, provavelmente para impedir sua exibição. No entanto, antes de morrer, Hartog tinha acordado com várias organizações brasileiras que os direitos de televisão não deveriam ser dados à Globo, a fim de que o programa pudesse ser amplamente conhecido tanto por organizações políticas e quanto culturais. A Globo perdeu o interesse em comprar o programa quando os advogados da emissora descobriram isso, mas o filme permanece proibido de ser transmitido no Brasil. Entretanto, muitas cópias em VHS e DVD vem circulando no país desde então. O documentário está disponível na Internet, por meio de redes P2P e de sítios de partilha de vídeos como o YouTube e o Google Video (onde se assistiu quase 600 mil vezes). Contrariando a crença popular, o filme está disponível no Brasil, embora em sua maioria em bibliotecas e coleções particulares.

A história e os aspectos do racismo pelo mundo

Sinopse da Série: Como parte da comemoração do bicentenário da Lei de Abolição ao Tráfico de Escravos (1807), a BBC 4, dentro da chamada "Abolition Season", exibiu uma série composta por três episódios, independentes entre si, abordando a história e os aspectos do racismo pelo mundo. São eles: "A Cor do Dinheiro", "Impactos Fatais" e "Um Legado Selvagem". Episódio 1 A Cor do Dinheiro: O programa examina as atitudes de alguns dos grandes filósofos em relação às diferenças humanas, incluindo a abordagem das implicações dos dogmas do Velho Testamento acerca dos atributos das diferentes raças, especificamente "A Maldição de Cam". Analisa a fracassada experiência democrática da Serra Leoa, a Revolução do Haiti, a primeira revolução escrava bem sucedida da história, demonstrando como ele passou da colônia mais rica das Américas ao país mais pobre do hemisfério norte. Este episódio trata, ainda que de forma superficial, da chamada "democracia racial" brasileira. Por fim, conclui-se que a força motriz por trás da exploração e escravização dos chamados "povos inferiores" foi a economia, e que a luta para apagar e cicatrizar os feitos e legados deixados pelo sistema escravocrata ainda continua. Episódio 2 Impactos Fatais: É a mais superficial das diferenças humanas, tem apenas a profundidade da pele. No entanto, como construção ideológica, a ideia de raça impulsionou guerras, influenciou a política e definiu a economia mundial por mais de cinco séculos. O programa aborda as teorias raciais desenvolvidas na era vitoriana, a eugenia, o darwinismo social e o racismo científico, desenvolvendo a narrativa a partir da descoberta dos restos mortais encontrados no deserto da Namíbia pertencentes às primeiras vítimas do que ficaria conhecido como campo de concentração, 30 anos antes de o nazismo chegar ao poder na Alemanha. Tais teorias levaram ao desenvolvimento da Eugenia e das políticas raciais nazistas. O documentário sustenta que os genocídios coloniais, o campo de morte da ilha de Shark, a destruição dos aborígenes tasmanianos e os 30 milhões de indianos vítimas da fome, foram apagados da história da Europa, e que a perda desta memória encoraja a crença de que a violência nazista foi uma aberração na história daquele continente. Mas que, assim como os ossos ressurgidos no deserto da Namíbia, esta história se recusa a ficar enterrada para sempre. Episódio 3 Um Legado Selvagem: O programa aborda o cruel legado deixado pelo racismo ao longo dos séculos. Iniciando pelos EUA, berço da Ku Klux Klan, onde o pesquisador James Allen, possuidor de vasta coleção de material fotográfico e jornalístico sobre linchamentos, defende que há um movimento arquitetado para apagar a mácula racial da memória do país. A seguir, remonta à colonização belga do Congo, por Leopoldo II, onde os negros que não atingiam a quota diária de borracha tinham a mão direita decepada. O documentário trata ainda da problemática racial na África do Sul (Apartheid) e Grã-Bretanha, abordando a luta do Movimento pelos Direitos Civis nos EUA e a desconstituição do mito da existência de raças.

Os Maias e as Profecias do Juízo Final Parte 01 de 05

Resumo:Nossos dias estão contados, preparem-se para o juízo final. Conheçam o templo sagrado de uma civilização perdida e conheçam a verdade sobre a profecia maia. Os maias realmente enxergavam o passado e o presente com precisão extraordinária? A data exata do nosso fim estaria oculta em seus antigos textos? O tempo está se esgotando, a contagem regressiva começa agora. \

BATALHAS LENDÁRIAS: JOSUÉ, A MATANÇA ÉPICA

Resumo do documentário: Na sua primeira batalha para conquistar a Terra Prometida, as forças especiais de Josué infiltraram-se de forma secreta e destruíram Jericó desde dentro apesar de as suas muralhas serem consideradas impenetráveis. Os espias de Josué contaram com a ajuda de Rajab. Enquanto os exércitos de Josué rodeavam a cidade amuralhada, os Israelitas introduziram-se sigilosamente na casa de Rajab. Uma vez que conseguiram introduzir quarenta soldados, Josué e o resto do exército, que esperavam fora da cidade, tocaram os trompetes e atacaram. Os quarenta soldados apanharam a cidade completamente de surpresa e conquistaram-na. Apenas Rajab salvou-se do banho de sangue que percorreu Jericó inteiro.

África - uma história rejeitada

Documentário: A História Oculta do Terceiro Reich

Descrição: A fascinação de Hitler com a ascensão e queda da "raça ariana", a sua obsessão com a ordem e a disciplina, e seus messiânicos planos de controle total do mundo... desde as origens ocultas do Nazismo até a morte de seu mentor Adolf Hitler, a ascensão da doutrina do "Nacional Socialismo" foi construída tendo como base um mundo de sinistros acontecimentos e crenças, construído através da propaganda política e manipuladora. Agora, utilizando filmagens recentemente descobertas, este documentário explora este incrível fenômeno acontecido na Alemanha, durante as décadas de 30 e 40, e que deu origem à Segunda Guerra Mundial. Pela 1.a vez os assustadores rituais e crenças do nazismo, como a origem da cruz suástica e a construção do Holocausto, são explorados e desvendados para o público em 3 documentários sobre os segredos do terceiro Reich e que também descortinam o PAPEL FUNDAMENTAL DO MISTICISMO na doutrina extremamente racista de Adolf Hitler, notadamente os escritos de Madame BLAVATSKY (Teosofia), Guido von Lista (Ariosofia) e Jorg Lanz (Teozoologia).

A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

No vídeo abaixo podemos entender melhor as idéias de Bourdieu sobre a escola. O vídeo foi produzido pela Univesp TV para o Curso de Pedagogia da Universidade Virtual do Estado de São Paulo. O artigo abaixo destaca as contribuições e aponta alguns limites da Sociologia da Educação de Pierre Bourdieu. Na primeira parte, são analisadas as reflexões do autor sobre a relação entre herança familiar (sobretudo, cultural) e desempenho escolar. Na segunda parte, são discutidas suas teses sobre o papel da escola na reprodução e legitimação das desigualdades sociais. Para ler o artigo clique aqui