sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

O desenvolvimento da atividade da pesca

Biografia: Carlos Santos

Odesenvolvimento da atividade da pesca



ARILSON DOS SANTOS GOMES*



Opolítico Carlos Santos (1904-1989) referenciou e protegeu o desenvolvimento da pesca industrial e artesanal no Rio Grande do Sul durante duas legislaturas como deputado estadual entre 1959 e 1968, fomentando o consumo do peixe e o avanço dos estudos oceanográficos e tecnológicos da região que mais produzia o pescado no Estado e no Brasil. Teve, em seu intuito político, que fortalecer economicamente a zona Sul e o Rio Grande do Sul, em franca estagnação no final dos anos 1950.

Defendeu, entre outras situações, que o pescador tivesse uma vida melhor, sem exploração e, ao mesmo tempo, cobrava do Estado e da União investimentos na indústria da pesca de maneira a desenvolver esse ramo importante da economia agropecuária gaúcha em uma região que enfrentava sérias dificuldades financeiras, além da concorrência internacional. Carlos Santos manteve a ação, cobrou o respeito da fundação das leis e reivindicou a sua institucionalização para o desenvolvimento da economia social da pesca.
A pesca no século XVIII era um meio de alimentação pouco apreciado pelos moradores do litoral do Rio Grande de São Pedro, conforme relatos dos navegantes portugueses. O fato de os habitantes terem deixado de explorar esse recurso indica uma desvalorização da carne do peixe em comparação com a carne de gado. Portanto, a pesca artesanal vem a se desenvolver tardiamente
no extremo Sul do Brasil.

A política de regulamentação da atividade pesqueira, no Brasil, preocupou-se, durante muito tempo, com a criação de órgãos para regulamentar a extração do pescado (destacando a criação da Superintendência para o Desenvolvimento da Pesca, Sudepe, a partir da década de 1960, quando a atividade pesqueira tomou maior impulso), mas pouco se preocupou em diagnosticar e ampliar o estoque de pescado nacional e, muito menos ainda, em melhorar as condições de vida dos pescadores artesanais. Atualmente, o Brasil vem dimensionando o seu potencial marítimo, procurando o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental. Preocupações essas há muito tempo reivindicadas pelos próprios pescadores junto aos poderes públicos.
O Plano Safra da Pesca e Aquicultura, lançado neste ano pela presidente Dilma Rousseff e pelo ministro Marcelo Crivella, titular do Ministério da Pesca, é mais uma tentativa de valorizar o setor, apontado nos finais da década de 1950, pelo deputado gaúcho Carlos Santos, como um valoroso meio de enfrentamento à fome e à crise. Melhorar a produção do pescado e da vida dos pescadores
em consonância com a saúde dos mananciais e oceanos é o grande desafio contemporâneo deste ramo, que, embora importante, economicamente e culturalmente ainda necessita de um maior reconhecimento de todos nós.


*Historiador
Publicado no jornal Correio do Povo (27/12/2012)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A vida de Jesus Cristo


 Maria Clara Bingemer, teóloga e professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC do Rio de Janeiro foi a convidada do Canal Livre de 23 de dezembro.




domingo, 23 de dezembro de 2012

Sobre Jesus Histórico

Publicado em 25/04/2011
O personagem mais fascinante da história da humanidade. Quem foi e como viveu Jesus de Nazaré. O que a história e a arqueologia podem nos dizer sobre seu tempo. O Jesus Histórico é o tema do Canal Livre, que recebe o filósofo Mário Sergio Cortella.

sábado, 17 de novembro de 2012

Encarte do professor - Revista de História da BN

SÉRIE DE ENCARTES:
 
História dos vencidos e testemunhos (acesso aqui o encarte)
Inventário de cicatrizes, de Pablo Rodríguez Jiménez
Baianos em greve, de Richard Graham
 
Primeiro reinado: os caminhos da formação da Nação (acesso aqui o encarte)
Uma leve bagagem cultural, de Ana Carolina Galante Delmas
Paixão pelo poder, de Cecília Helena de Salles Oliveira
O domínio das roupas, de Camila Borge
 
A ação inquisitorial na América Portuguesa (séculos XVI-XVIII) (acesse aqui o encarte)
O que a Inquisição veio fazer no Brasil?, de Ronaldo Vainfas
Houve queima de bruxas aqui?, de Daniela Buono Calainho
A intolerância foi incorporada à população?, de Marco Antônio Nunes da Silva
Os índios também foram perseguidos?, de Maria Leônia Chaves de Resende
 
História e migrações (acesse aqui o encarte)
Imigração tridifícil, de Luiza Horn Iotti
Gaúchos de sangue italiano, de Bernardo Camara
A essência do gesto, de Rubens Ricupero
 
História e arqueologia (acesse aqui o encarte)
Frutos do mar, de Gilson Rambelli e Luciana de Castro Nunes Novaes
O nome da tribo, de Danilo Vicensotto Bernardo
Brasil arqueológico, de Ronaldo Pelli
Mato Grosso da África, de Luís Cláudio Pereira Symanki
 
A chegada da corte portuguesa na América (acesse aqui o encarte)
Roupa na história, de Camila Borges da Silva
Palácio do Catete: o despertar do imaginário, por Renata Reinhoefer França
O outro lado de 1808, de Guilherme Martins Costa e Marina Lemle
1808, antes e depois... - Clássicos, de Nívia Pombo
A Índia é aqui, por Luís Frederico Antunes
Drama cívico entre bolachas e cafezinho, por Lilia Moritz Schwarcz
 
Resistência e Repressão na República (acesse aqui o encarte)
A Sibéria brasileira, de Francisco Bento da Silva
Os males do progresso, de José Carlos Pinheiro Prioste
Quase real, de Ligia Vassallo
Águas revoltas, de Helio Leôncio Martins
Contra a chibata, canhões, de Álvaro Pereira do Nascimento
Na hygiene dando ordens, charge de J. Carlos
O pecado original da República, de José Murilo de Carvalho
 
Brasil Imperial - Temporalidades e marcos institucionais (acesse aqui o encarte)
Muamba de longa data, de Mariana Flores da Cunha
Comércio Corrente, de Siméria de Nazaré Caldas
Segredos de um Asno, de Lailson de Holanda Cavalcanti
Sudeste Leal, de Eduardo Schnoor
Mapa do Brasil Império em 1870
 
Rebeliões e inconfidências na América portuguesa (acesse aqui o encarte)
Fortunas preservadas, de André Figueiredo Rodrigues
A Inconfidência Mineira, de Renato Venâncio
Degregados e reerguidos, de André Figueiredo Rodrigues
É pejorativo chamar conspiração de inconfidência?, de Luciano Figueiredo

A América portuguesa: Rotas de comércio e sociedade colonial (acesse aqui o encarte)
Remédio ardido, de Christian Fausto Moraes dos Santos e Fabiano Bracht
Elite de cor, de Kalina Vanderlei Silva
Ribanceira abaixo, de Rômulo Luiz Xavier do Nascimento
Mão negra, espada branca, de Luiz Geraldo Silva
Índio sabe a receita, de Leila Mourão
Abaixo o bacalhau, de Murilo Sebe Bon Meihy
 
A crise do Império (1870/1880) e a República: alternativas e disputas (acesse aqui o encarte)
Mar bravo, de José Hilário Ferreira Sobrinho
Ecos do 13 de maio, de Renato Venâncio
República da garoa, de Cássia Chrispiniano Adduci
Dossiê repúblicas, vários autores
 
Colônia e República: rupturas e permanências (acesse aqui o encarte)
  Bendito Doce, de Fabiano Dalla Bone
Delícias da Oca, de Leila Mourão
O mestre-cuca sem nome, de Leila Mezan
  Degola no Sul, de Rafael Sêga
  Prisões em Série, de Marcos Bretas
 
História e Micro-história (acesse aqui o encarte)
Os Monges e a Guerra do Contestado, de Tarcísio Motta de Carvalho
O Pecado Original da República, de José Murilo de Carvalho
Visionário de Minas, de Adriana Romeiro
Lobos em Pele de Ovelha, de Bruno Feitler
  O Santo Ofício vai à Escola, de Ângelo Adriano Faria de Assis
 
História e Tradição (acesse aqui o encarte)
A arte dos caminhos, de Jurema Mascarenhas Paes
De 'ingênuo' a rebelde, de Álvaro Pereira do Nascimento
Tropa em marcha, mesa farta, de Alexandre Mendes Cunha
O marinheiro bordador, de José Murilo de Carvalho
Salve o Almirante Negro!, de Filipe Monteiro e Mariana Benjamin
Vice-almirante dá sua versão sobre a Revolta da Chibata, de Armando de Senna Bittencourt
 
História e Política (acesse aqui o encarte)
A Alemanha é aqui?, de René E. Gertz
Mudança de comando, de Marly de Almeida Gomes Vianna
Integralismo renovado, seção "Em dia"
Os anos rebeldes do tenentismo, Marieta de Moraes Ferreira
 
História e Representações (acesse aqui o encarte)
A nação em penas, de Lilia Moritz Schwarcz
Comer, beber, governar, de Masilia Aparecida da Silva Gomes
Eram os franceses missionários?, de Lilia Moritz Schwarcz
Quem conta um conto..., vários


História e Leitura (acesse aqui o encarte)
Nem nobre, nem mecânico, de Márcia Moisés
Angola é aqui, de Mônica Lima e Souza
Divina transgressão, de William de Souza
A mistura que deu certo, de Adriana Rennó
 
História e Imagem (acesse aqui o encarte)
Máquina viajante, de Maria Inez Turazzi
Da prata ao pixel, de Lorenzo Aldé
Um continente no currículo, de Marina de Mello e Souza
Corpo fechado, de Leonardo Bertolossi
Bem na foto, de Mariana Muaze
Liberdade encenada, de Sandra Koutsoukos
O diabo do feitiço, de Mario Teixeira de Sá
 
Futebol e sociedade (acesse aqui o encarte)
A diplomacia dos gramados, de João Daniel Lima e Maurício Santoro
Corações em ação, de Leonardo Affonso de Miranda
Quando a pátria calçou chuteiras, de Fábio Franzini
Silêncio no Maracanã, de Eduardo Galeano e Armando Nogueira

 Fotografia e História (acesse aqui o encarte)
O valor da aparência, de Sandra Sofia Machado Koutsoukos
Álbum de família, de Mariana Muaze
 
Tiradentes e o Altar da Pátria (acesse aqui o encarte)
A outra face do alferes, de Paulo da Costa e Silva
Herói em pedaços, de Maraliz de Castro Vieira Christo
Inconfidência em círculos, de Anita Correia Lima de Almeida
Desonrados e banidos, de Adelto Gonçalves
O movimento de 1789 foi a primeira inconfidência em Minas?, de Leandro Pena Catão
A Inconfidência foi estimulada somente por idéias iluministas?, de Luiz Carlos Villalta
Tiradentes foi diretamente influenciado pelo Iluminismo?, de Caio Boschi
Os inconfidentes conheciam a situação da capitania que pretendiam sublevar?, de Junia Ferreira
Joaquim José da Silva Xavier era um simples alferes sem posses?, de  André Figueiredo
Os inconfidentes podem ser divididos em grupos bem definidos, de João Pinto Furtado
Quem defendeu Tiradentes?, de Hariberto de Miranda Jordão Filho
Qual o papel do contratador João Rodrigues de Macedo na conjuração?, de Angelo Alves Carrara
As Cartas chilenas têm um conteúdo político revolucionário?, de Joaci Pereira Furtado
As ossadas que estão no Panteão são mesmo dos inconfidentes?, de Carmem Silvia Lemos


Os descaminhos do ouro (acesse aqui o encarte)
A peso de ouro, de Angelo Alves Carrara
Primeira parada: Portugal, de Leonor Freire Costa, Maria Manuela Rocha e Rita Martins de Sousa
Eu quero é ouro!, de Paulo Cavalcante
Os falsificadores, de Paulo Cavalcante


 

sábado, 13 de outubro de 2012

sábado, 6 de outubro de 2012

DOSSIÊ: O TEMPO E O VENTO 50 ANOS - INTRODUÇÃO

Apresentamos o dossiê sobre a trilogia  “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo publicado pelo jornal Zero Hora de Porto Alegre no seu caderno Cultura dia 20 de setembro de 2012.

A postagem desse dossiê, portanto, aqui neste blog tem como objetivo contribuir na pesquisa cada vez mais qualificada sobre a história do Rio Grande do Sul.

Att.

Editor do blog

Tyrone


Uma geração vai, outra geração vem


Em edição especial, Cultura homenageia os 50 anos da publicação do terceiro volume de “O Arquipélago”, último da trilogia imortal “O Tempo e o Vento”, de Erico Verissimo

A permanência de um clássico


Por que “O Tempo e o Vento” passou na prova dos anos e se tornou uma das maiores obras da literatura no Rio Grande do Sul

Não deixa de ser curioso o quanto uma obra sobre a inexorabilidade do tempo consegue resistir tão bem a ele. Neste 2012, completa-se o cinquentenário da publicação do último volume de O Arquipélago, encerrando a monumental empreitada assumida por Erico Verissimo de traduzir ficcionalmente a formação de seu Estado e de seu país. E por mais que o tempo tenha passado para ele e seus personagens, a obra nunca pareceu tão viva e seus ventos nunca sopraram tão longe.

Por qualquer ângulo de análise, O Tempo e o Vento é uma empreitada sem similares na literatura brasileira: uma saga planejada e escrita ao longo de quase três décadas, abordando por meio de sua ficção dois séculos de história, uma história não apenas do Rio Grande do Sul, sua gente e suas revoluções, como fizeram muitos dos romancistas que o seguiram, mas uma história do Rio Grande do Sul inserido no Brasil – é majoritariamente disso que trata o panorama traçado por O Arquipélago, o mais extenso da série e o que mais tempo e energia custou a Erico para escrever.

O Continente, o capítulo inaugural da trilogia e até hoje o mais popular, foi publicado em 1949. Em 1951, veio O Retrato, a continuação que mudava intencionalmente o “andamento” da composição – a metáfora não é descabida: melômano entusiasmado, Erico escreveu em um prefácio inédito que a ideia da saga já havia se delineado em sua mente como uma “longa sinfonia dividida nos clássicos movimentos e possivelmente com grandes massas corais”. Apenas nove anos depois, em 1961, saiu o primeiro tomo de O Arquipélago. No intervalo de quase uma década entre um e outro, o próprio Erico admitia haver abraçado uma série de projetos, livros e encargos que nada mais eram que pretextos para fugir temporariamente da responsabilidade e das expectativas criadas em torno da conclusão da saga.

Entre 1951 e 1961, de fato, Erico redigiu e publicou em velocidade relâmpago uma novela considerada por ele mesmo “exótica” no conjunto de sua obra, Noite. Também lançou México, um de seus mais populares livros de viagem, fruto de uma visita ao México que se seguiu à mais radical de todas as “manobras evasivas” do autor: mudar-se para os Estados Unidos aceitando um convite para dirigir o Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos (OEA).

“Nessa aceitação vejo hoje um sinal de minha hesitação quanto à última parte de O Tempo e o Vento. No fundo, essa ida para os Estados Unidos foi uma espécie de fuga dos fantasmas, problemas e dificuldades que me esperavam atocaiados nesse novo livro”, confessou Erico em uma entrevista à Revista do Globo em 1961, depois da publicação, afinal, do primeiro tomo de O Arquipélago.

Premido, entre outras coisas, pelo próprio “apreciável sentimento de culpa” infundido pela trilogia inconclusa e pela dificuldade de escrever aquele que deveria ser seu romance mais franco, em sua própria opinião, Erico foi derrubado pelo estresse e teve seu primeiro infarto, em março de 1961, o que poderia ter atrasado ainda mais a conclusão da obra – o tratamento na época incluía uma intervenção cirúrgica mais agressiva que as de hoje e exigia uma recuperação bem mais demorada. Erico ficou dois meses em cama. Em Solo de Clarineta, o autor relata o quanto sua recuperação esteve ligada ao processo de revisar as mais de mil páginas que já tinha escritas de O Arquipélago (cuja história ainda não havia sido concluída). Erico emendou e remontou várias partes da obra – o começo da narrativa, que flagra Rodrigo Terra Cambará acossado pela morte ao sofrer um edema pulmonar agudo, foi reescrito usando “da experiência adquirida durante a minha própria doença”, contou o escritor.

Apesar do infarto, O Arquipélago tinha seu primeiro tomo publicado em julho de 1961, com páginas redigidas literalmente no leito de convalescente do escritor. Embora os dois últimos volumes da trilogia não tenham jamais atingido a popularidade do capítulo inicial da saga, O Continente, o ciclo se encerrava como uma realização de proporções ao mesmo tempo tão heroicas e tão humanas como muitos dos feitos vividos pelos heróis mais remotos de Erico. Sem se esquivar do desafio de falar de seu tempo com um olhar plural, o escritor traçou com O Continente um panorama histórico que pautou boa parte da ficção gaúcha depois dele; fez de O Retrato um perfil admirável de um homem complexo, cheio de ideias nobres mas sem o temperamento necessário para renunciar aos apetites predatórios da elite de que faz parte; e mapeou com O Arquipélago o horizonte político e cultural do Brasil de seu tempo com um olhar geral que poucos autores nacionais tiveram.

O conteúdo deste caderno especial apenas tangencia o alcance dessa empreitada. Nesta página e na seguinte, confira uma relação de algumas das principais obras inspiradas por O Tempo e o Vento no cinema, na teledramaturgia, na música e no teatro em todo o Brasil.

POR CARLOS ANDRÉ MOREIRA

Televisão - “O Tempo e o Vento”, telenovela da TV Excelsior, 1967


Seis anos depois da publicação do último tomo de O Arquipélago, O Tempo e o Vento ganhou sua primeira adaptação para a então incipiente televisão brasileira. A novela homônima, produzida pela TV Excelsior e apresentada no horário das 21h30min, teve 210 capítulos, de julho de 1967 a março do ano seguinte. A emissora buscou a inspiração na obra de Erico Verissimo depois de outra adaptação, do livro As Minas de Prata, de José de Alencar, atingir grande sucesso na faixa das 19h30min.

Adaptada por Teixeira Filho e dirigida por Dionísio de Azevedo, O Tempo e o Vento foi dividida em três partes – A Fonte e Ana Terra, com 30 capítulos cada, e Capitão Rodrigo, com 150 capítulos. O elenco trazia Carlos Zara no papel de Rodrigo Cambará e Geórgia Gomide como Ana Terra. Maria Estela interpretou Bibiana, e Altair Lima fez o papel de Licurgo. Consta que muitas vezes os atores passavam 24 horas dentro do estúdio, e não foram raras as cenas de confraternização entre os câmeras, diretores e atores depois de um momento mais emocionante.

Certa vez, Zara afirmou que nenhum outro personagem vivido por ele o comoveu – e comoveu o público – tanto quanto o Capitão Rodrigo Cambará:

– Erico era um ótimo escritor e sua obra é uma maravilha. Até hoje, o público que não esquece do Capitão acha que nasci no Rio Grande do Sul devido ao sotaque do personagem – declarou o ator, natural de Campinas, que morreu em 2009.

“O Tempo e o Vento”, minissérie da TV Globo, 1985


Em 1985, Doc Comparato assumiu o desafio de adaptar O Continente para uma minissérie da TV Globo. Três anos antes, o autor havia dividido com Aguinaldo Silva o roteiro da primeira minissérie da Globo, Lampião e Maria Bonita, mas O Tempo e o Vento foi o primeiro trabalho que ele assinou sozinho. Exercitou seu poder de síntese, já que não dispunha dos folgados 210 capítulos de que dispôs Teixeira Filho em sua telenovela, mas de apenas 25.

Sob a direção do gaúcho Paulo José, O Tempo e o Vento foi dividida em quatro partes. Ana Terra tinha Glória Pires interpretando a matriarca dos Terra e Lima Duarte como Rafael Pinto Bandeira. Em Um Certo Capitão Rodrigo, Tarcísio Meira e Louise Cardoso interpretaram a dupla Rodrigo Cambará e Bibiana. Em A Teiniaguá, Lilian Lemmertz foi Bibiana, Daniel Dantas foi Bolívar, Carla Camuratti interpretou Luzia e José Lewgoy viveu Bento Amaral. E, por fim, O Sobrado, uma nova Bibiana, Lélia Abramo, que contracena com Armando Bógus como Licurgo.

Com produção grandiosa – foi construída uma cidade cenográfica de 40 mil metros quadrados em Pedra de Guaratiba –, a minissérie recebeu o prêmio Coral Negro de Melhor Vídeo no Festival de Cinema e Vídeo de Havana, em 1986. A produção está disponível em DVD da Som Livre.

“O Tempo e o Vento”, trilha sonora da minissérie homônima, por Tom Jobim, 1985


A trilha da minissérie O Tempo e o Vento foi composta por Tom Jobim especialmente para a série. A música O Tempo e o Vento (Passarim), cuja versão instrumental foi o tema de abertura da série, acabou conhecida pela parte entre parênteses do título.

Tom acompanhou parte das gravações. O disco teve Dori Caymmi e Jacques Morelenbaum como arranjadores, e Danilo Caymmi e Paulo, filho de Tom, tocam com o maestro na faixa-título. Das canções compostas por Jobim, uma foi gravada por Kleiton & Kledir (Um Certo Capitão Rodrigo) e duas por Zé Renato (Rodrigo Meu Capitão e Senhora Dona Bibiana).Renato Borghetti interpreta Minuano, de Sadi Cardoso, e o Conjunto Farroupilha, Querência / Boi Barroso.

“Memórias de Escritor” especial da RBS TV, 2005


O Capitão Rodrigo voltou a ser revivido em 2005. Para a comemoração do centenário de Erico Verissimo, a RBS TV apresentou o documentário especial Memórias de um Escritor, dentro da série Cinco Vezes Erico.

O especial, com direção de Rafael Figueiredo e roteiro de Cristina Gomes, tem no elenco Evelyn Ligocki (Ana Terra), Heitor Schmidt (Floriano) e Tarcísio Filho, que interpreta o mesmo personagem vivido por seu pai, Tarcísio Meira, 20 anos antes.

Em vez de encarnar a ficção, o Capitão Rodrigo de Tarcisinho, assim como os demais personagens, atua como narrador da história de seu criador.

– Este recurso de usar os personagens para contar a biografia de um escritor é maravilhoso – disse o ator durante as gravações.

Também emprestaram a voz e a imagem às palavras do escritor gaúcho Leonardo Machado (Eugênio, de Olhai os Lírios do Campo), Júlio Andrade (Malazarte, de Fantoches) e Rosângela Batistella (Dona Quitéria, de Incidente em Antares).

Além do documentário, quatro episódios de dramaturgia – Olhai os Lírios do Campo, Caminhos Cruzados, Noite e O Resto É Silêncio – fizeram parte da comemoração.

Cinema - “O Sobrado”, longa de Walter George Durst e Cassiano Gabus Mendes, 1956


A primeira adaptação audiovisual de O Tempo e o Vento se propôs a um desafio narrativo: o roteirista Walter George Durst, que divide os créditos de direção com Cassiano Gabus Mendes, extraiu da trilogia apenas a sequência O Sobrado. A adaptação livre resultou em um filme homônimo, de 1956. Os atores – Fernando Baleroni como Licurgo, Bárbara Fazio como Ismália, Adriano Stuart como Rodrigo Terra Cambará – pertenciam ao elenco da TV Tupi.

“Um Certo Capitão Rodrigo” longa de Anselmo Duarte, 1971


Filmado em General Câmara, Triunfo, Santa Maria e Santo Amaro, Um Certo Capitão Rodrigo, de Anselmo Duarte, teve assessoria técnica de Paixão Côrtes. Tinha no elenco Francisco di Franco (Rodrigo Cambará) e Elza de Castro (Ana Terra).

“Ana Terra”, longa de Durval Garcia, 1972


Rodado em Cruz Alta e dirigido por Durval Garcia, Ana Terra é resultado da mesma idealização de Tônia Carrero e Alberto Ruschel que deu origem a Um Certo Capitão Rodrigo, um ano antes. O papel título é vivido pela atriz Rossana Ghessa.

O diretor Jayme Monjardim finaliza uma nova adaptação de O Tempo e o Vento, com estreia prevista para 2013. A produção foi filmada no Rio Grande do Sul. No elenco, estão Fernanda Montenegro, Cléo Pires e Thiago Lacerda.

Teatro - “O Sobrado”, montagem do Grupo Cerco, 2008


A montagem teatral de O Sobrado, pelo grupo Cerco, com direção de Inês Marocco, recebeu prêmios Braskem de Melhor Espetáculo pelos júris oficial e popular no Porto Alegre Em Cena.
Curiosidades sobre a trilogia
A primeira edição
Quando chegou às livrarias, em 1949, O Continente, primeira parte de O Tempo e o Vento, tinha um só volume.
Divisão interna
Atualmente, O Continente tem dois tomos. O capítulo O Sobrado, que abre o romance, se desdobra ao longo dos dois volumes. Do primeiro, fazem parte, além de O Sobrado, A Fonte, Ana Terra e Um Certo Capitão Rodrigo. Do segundo, A Teiniaguá, A Guerra e Ismália Caré.
Público e crítica
O Continente é a parte de O Tempo e o Vento mais popular, aclamada pela crítica e adaptada para TV, cinema e teatro (veja algumas das adaptações nesta página). A ação dessa parte do romance cobre 150 anos de história do Rio Grande do Sul, de 1745 a 1895.
Personagens
Em O Continente estão os personagens mais célebres de toda a trilogia: a parteira Ana Terra, o capitão Rodrigo Cambará e sua mulher, Bibiana, neta de Ana Terra. Os três figuram entre os seis mais votados em eleição dos 20 Personagens da Literatura Gaúcha do Século 20. A escolha foi promovida em 1999 por Zero Hora.
Capas
Desenhista e pintor nas horas vagas, Erico Verissimo escolhia pessoalmente os ilustradores de suas obras. O Continente, de 1949, teve capa desenhada por Edgar Koetz. A capa de O Retrato (1951) era assinada pelo catalão José Sicart. A primeira edição de O Arquipélago (1961) teve capa desenhada pelo próprio Erico.
O Retrato
O Retrato chegou às prateleiras em 1951, em volume único. A ação da segunda parte de O Tempo e o Vento começa com a deposição de Getúlio Vargas, em 1945, e por meio de flashbacks recua até 1909. O personagem que serve de fio condutor é o doutor Rodrigo Terra Cambará, neto do Capitão e de Bibiana.
O Arquipélago
Os dois primeiros tomos de O Arquipélago foram publicados em 1961, e o último, em 1962. Erico considerou o último tomo da série o mais difícil de escrever, como afirmou numa entrevista:
– É o mais difícil de escrever, o mais perigoso e por tudo isso o mais fascinante dos três tomos da trilogia.
O autor e a crítica
Erico imaginava que O Arquipélago seria alvo de forte crítica:
– Livros das dimensões deste oferecem um flanco muito largo às flechadas da crítica. O Arquipélago mexe em tantas abelheiras e foi escrito com tal franqueza que não posso ter a ilusão de que ele não vá ferir suscetibilidades.
Filha
A atriz Georgia Gomide, que interpretou Ana Terra em telenovela de 1967, tinha em sua sala uma carta recebida de Erico na qual o escritor elogiava sua interpretação e a chamava de “filha”.
– A carta foi muito mais importante para mim do que qualquer prêmio – disse a atriz.

ENTREVISTA: LUIS FERNANDO VERISSIMO, ESCRITOR


“Ele não conseguia escrever fora daqui”

O filho de Erico revela detalhes da rotina do autor de “O Tempo e o Vento” enquanto produzia sua obra máxima, de 1947 a 1962

Zero Hora – Que memórias o senhor tem desse período em que seu pai estava escrevendo O Arquipélago?

Luis Fernando Verissimo – Na verdade eu acompanhei a escritura de O Tempo e o Vento, desde o primeiro volume, O Continente. Não tenho certeza das datas, mas o pai começou a escrever o livro em 1947, e publicou em 1949. Esta parte da casa em que estamos ainda não existia, e ele trabalhava na mesa de jantar. Botava a máquina de escrever em cima da mesa e metralhava, como ele dizia.

ZH – Ele tinha alguma rotina de composição do livro?

Verissimo – Ele trabalhava o dia inteiro na Editora Globo. Escrevia à noite e nos fins de semana.

ZH – Comentava detalhes da obra?

Verissimo – Ele conversava muito com a minha mãe e com alguns amigos, como o Maurício Rosenblatt, por exemplo, que era o melhor amigo dele. Eles conversavam bastante sobre literatura e sobre o trabalho dele. Acho que com a minha mãe ele conversava bastante. Comigo, não. Naquela época eu tinha 11 para 12 anos.

ZH – Quando ele começou o primeiro volume, até que ponto o senhor sabia de que se tratava a obra?

Verissimo – Eu não tinha ideia, mas acompanhava. Muitas vezes eu sentava do lado dele à mesa e já lia quando a página saía da máquina de escrever. Ele escrevia muito rapidamente, deixando bastante espaço entre as linhas. Depois ele mesmo corrigia, acrescentava coisas. Ele mesmo passava a limpo. E eu acompanhava esse processo. E depois, O Arquipélago foi a parte mais difícil de escrever porque envolveu muita coisa da história dele, da biografia dele, da relação dele com o pai...

ZH – A dificuldade estava ligada ao fato de o livro tratar de coisas e pessoas que ele tinha vivido e conhecido?

Verissimo – Sim. Foi uma coisa tão difícil de escrever que ele teve um infarto durante o processo. Tem aquela cena da reconciliação do Floriano com o pai, que de certa forma é uma reconciliação do meu pai com o pai dele. Por isso, O Arquipélago demorou para ser escrito. O Continente saiu em 1949, o segundo volume, O Retrato, não me lembro bem, acho que saiu em 1952. E O Arquipélago ele demorou muito tempo para escrever, só saiu muito tempo depois do primeiro volume. Nesse meio tempo teve viagens, ele foi morar nos Estados Unidos.

ZH – Em uma entrevista para a Revista do Globo em 1963, após a publicação de O Arquipélago, Erico comenta que a aceitação da viagem talvez fosse uma tentativa de fuga da empreitada de escrever o terceiro tomo.

Verissimo – Sim, porque ele não conseguia escrever fora daqui. Ele morou quatro anos nos Estados Unidos e não escreveu nada por lá nesse período.

ZH – Por algum bloqueio interno?

Verissimo – Não sei. Eu acho que ele não conseguia escrever fora do ambiente dele, da “toca” dele, como ele chamava. Então isso também atrasou a feitura d’O Arquipélago.

ZH – Essa constatação de que foi difícil escrever O Arquipélago veio de uma observação sua, que já era adulto na época, ou ele externava isso?

Verissimo – Não, a dificuldade ele não externava. Depois de haver terminado o livro, depois do romance lançado, foi que ele comentou o quanto havia sido difícil. Ele levou não sei quantos anos escrevendo O Arquipélago. Quer dizer, escrevendo não, porque ele parava muito, havia períodos grandes em que não escrevia nada.

ZH – Noite, por exemplo, é uma obra que ele escreveu e concluiu enquanto ainda lutava com as dificuldades de O Arquipélago.

Verissimo – É, Noite foi escrito em um verão, em Torres, em 1952. Em seguida, nós fomos para os Estados Unidos, passamos quatro anos lá, e foram outros quatro anos parados para o romance.

ZH – Erico dizia que O Arquipélago era um romance que ele queria escrever sem inibições ou seria melhor não fazê-lo. Ele temia não conseguir concluir o projeto?

Verissimo – Ele se angustiava bastante pelo fato de não conseguir escrever. A trilogia estava prometida, mas ainda incompleta, e ele era cobrado por isso. Os dois primeiros volumes já haviam saído, e o terceiro não aparecia.

ZH – A cobrança partia de quem?

Verissimo – De amigos. Na verdade, não era uma cobrança ostensiva, digamos assim, de amigos ou da própria editora ficar cobrando o livro dele. Porque ele tinha uma relação bastante informal, bastante amigável com a Editora Globo. Mas acho que ele mesmo se cobrava para terminar a trilogia, não podia deixá-la inacabada. Mas foi difícil, o infarto é uma prova disso.

ZH – O Arquipélago é, a seu ver, uma síntese dos dois primeiros livros? Erico comentou que os leitores esperavam de O Retrato algo parecido ao que haviam lido em O Continente.

Verissimo – Pois é, e O Retrato é completamente diferente, ele se atém a um período só, a um personagem só, o Rodrigo Terra Cambará, bisneto do Capitão Rodrigo. E muita gente se decepcionou, muitos ainda não gostam d’O Retrato por ele destoar tanto dos outros. Mas eu gosto muito do romance.

ZH – O Arquipélago também foi redigido na sala de jantar?

Verissimo – Não. Aí já tinha o escritório. Como eu falei, a casa era menor antes. Embaixo da parte nova da casa ele construiu a, como ele chamava, “Toca da Liberdade”. Ele trabalhava o dia inteiro lá embaixo. Depois, de noite, ele trazia aqui para cima o que havia escrito, botava uma tábua aqui nesta mesma poltrona e corrigia o que havia produzido. E fazia desenhos também nas tábuas. Ele deu várias dessas tábuas para amigos, enchia de desenhos, enchia de cores e presenteava. E O Arquipélago já foi escrito com esse método.

ZH – Além de Rosenblatt, quem eram os grandes interlocutores dele?

Verissimo – Tinha muita gente, muitos amigos. O doutor [Eduardo] Faraco, que foi um homem muito importante na vida dele. Quando ele teve um infarto foi o doutor Faraco que aguentou as pontas, tanto que ele teve mais 15 anos de sobrevida. O Flávio Loureiro Chaves era um amigo dessa época, também. O [Carlos] Reverbel, certamente, além da Olga [Reverbel, mulher de Carlos]. O doutor [Luiz Carlos de Almeida] Meneghini vinha muito aqui.

ZH – Ele usou a matriz do passado como modelo para alguns personagens. O senhor lembra quais foram essas inspirações?

Verissimo – Eu não vou me lembrar exatamente, mas o pai, em casa, gostava muito de representar alguns parentes, o pai da mãe dele, o avô dele, era um homem que ele gostava muito de imitar, de contar histórias... Tinha o pai dele, Sebastião, e o irmão do pai dele, Nestor Verissimo, esse se metia em qualquer revolução que aparecia. Diziam que a mulher desse tio era tão feia que ele aproveitava a revolução para sair de casa. Esse tio foi um pouco o modelo para o Capitão Rodrigo. Se bem que é mais o modelo do Toríbio, o irmão do Rodrigo, ambos filhos do Licurgo. Eu acho que esses irmãos Rodrigo e Toríbio representam muita coisa da família dele. Muitas coisas do Rodrigo seriam representações do pai dele, o Sebastião, e o Toríbio seria o tio dele, Nestor.

ZH – O argentino Jorge Luis Borges era um homem urbano fascinado pela mitologia arcaica do pampa. Erico também era assim?

Verissimo – Eu acho que ele tinha um certo fascínio pela família, pelas figuras da família. Certamente deve ter havido um Fandango na infância dele, não sei se na família mesmo. A mãe dele, dona Abegahy, é uma figura muito forte, por isso as mulheres de O Tempo e o Vento se sobressaem. É um pouco a relação do meu pai com a mãe dele, a quem ele admirava muito e foi uma figura forte na vida dele.

ZH – A guerra é um fenômeno onipresente na saga, mas o foco raramente é a experiência da batalha.

Verissimo – Geralmente o que ele descreve é a espera. Está acontecendo a batalha lá e alguém está à espera, como a Bibiana esperando o Capitão Rodrigo voltar para casa. São sempre mulheres fortes: Bibiana, Maria Valéria, a própria Ana Terra. E tem uma figura interessante em O Tempo e o Vento, que é a Luzia, mulher do Bolívar, que é meio maluca. Ela é uma personagem completamente deslocada naquele ambiente todo: uma mulher relativamente culta, difícil, mal compreendida pelo restante da família.

ZH – Erico nunca teve ligação com o tradicionalismo e com sua ideologia. Ele chegou a manifestar alguma opinião sobre como O Continente, principalmente, foi apropriado pelo tradicionalismo como saga fundadora do “gaúcho” na literatura?

Verissimo – Eu acho que ele não resistiu a essa apropriação, ao menos ostensivamente. Ele não tinha nada desse culto ao passado, aos costumes gaúchos e tal, não era de tomar chimarrão, deve ter andado a cavalo na infância, mas era algo que fazia parte do passado dele. E sempre foi muito ligado à cultura de fora, americana ou inglesa.

ZH – E a relação dele com Simões Lopes Neto?

Verissimo – Eu confesso que não sei se ele tinha alguma relação de leitor com a obra do Simões Lopes Neto. Ele deve ter lido a obra, mas não sei que relação mantinha com ela. Ele conviveu com escritores como Augusto Meyer, de quem ele gostava muito. Mas a cabeça dele não estava aqui, e sim no que se fazia fora daqui, nos Estados Unidos e na Europa.

ZH – Isso o aproximava um pouco de Monteiro Lobato.

Verissimo – Eu sei que eles se corresponderam, depois se encontraram. Não sei se se viram muitas vezes. O engraçado é que eles eram até meio fisicamente parecidos, com aquelas sobrancelhas.

ZH – Já Jorge Amado era um autor com quem ele manteve amizade.

Verissimo – Ele teve uma relação conturbada com o Jorge Amado. O Jorge Amado passou um tempo na nossa casa, acho que estava fugindo da polícia, foi para Porto Alegre, se hospedou conosco. A Clarissa, pequena, gostava de brincar nos cabelos do Jorge Amado, de fingir que era cabeleireira. O Jorge Amado me chamava de João, porque ele dizia que eu não tinha cara de Luis Fernando. Eu era bem pequeno. E eles sempre foram amigos, se gostavam muito, mas o Jorge tentava atrair o pai para o Partido Comunista. Ele achava que o pai deveria ser comunista, como, aliás, a maioria dos escritores era naquela época. O pai contava que uma vez, no Rio de Janeiro, ele estava com uma crise de pedra no rim, mergulhado numa banheira quente, e o Jorge Amado ficou o tempo todo do lado da banheira, tentando catequizar ele. O pai dizia: “Eu sou socialista, mas sou contra totalitarismos”. E naquela época grandes escritores, como o Jorge e mesmo o Graciliano Ramos, seguiam a linha do partido, e o pai não queria isso. Mas eles continuaram amigos até o fim da vida. E tem aquela famosa manifestação de ambos contra a censura. Como havia censura prévia aos jornais, houve uma ameaça de começarem a censurar livros também. E o pai e o Jorge Amado assinaram uma declaração em conjunto contra aquilo, dizendo que se houvesse censura prévia de livros, não publicariam mais no Brasil. E isso foi depois de 1964, já na ditadura militar. E não se falou mais no assunto da censura prévia aos livros, em parte por conta dessa manifestação de ambos.

ZH – Em que medida se pode reconhecer o Erico em Floriano?

Verissimo – Acho que obviamente é, é o narrador, é o autor. Claro que camuflado, não é exatamente uma autobiografia. Tanto que ele termina O Arquipélago com a primeira frase d’O Continente. O Floriano começa a escrever O Tempo e o Vento. Em que esse O Tempo e o Vento escrito pelo Floriano seria diferente d’O Tempo e o Vento escrito pelo Erico Verissimo é uma especulação que a gente pode fazer.

ZH – No livro, Floriano tem uma opinião dura sobre sua obra até aquele momento. Essa era, de algum modo, uma opinião que Erico estava veiculando sobre seus próprios livros?

Verissimo – Eu acho o seguinte: o Floriano é um intelectual, com ideias até certo ponto de esquerda, mas que nunca se comprometeu com nenhum tipo de revolta ou subversão. Ele via as coisas, desaprovava, mas não reagia. Acho que o pai seria um pouco isso, também, e que ele faz ali um pouco de autocrítica, de um homem que nunca escondeu suas ideias mas que nunca foi exatamente um ativista. Eu acho que Floriano reflete um pouco isso.

ZH – Como leitor, que passagem, que trecho, que personagens o senhor destacaria?

Verissimo – Bom, como todo mundo, eu prefiro O Continente. Acho que é o grande livro do pai, da obra inteira dele. E eu gosto muito desse personagem que eu citei, a Luzia, justamente por ser um personagem completamente deslocado.

POR CARLOS ANDRÉ MOREIRA E CLÁUDIA LAITANO
Vida e obra
1905
Erico Verissimo nasce em 17 de dezembro, em Cruz Alta, filho de Sebastião Verissimo e Abegahy Lopes Verissimo.
1920
É matriculado no extinto Colégio Cruzeiro do Sul (hoje IPA) em regime de internato. Dois anos depois, terminados os estudos, os pais de Erico se separam, acontecimento que marcará profundamente a vida do escritor.
1927
Conhece a futura mulher, Mafalda Halfen Volpe, com quem noivará em 1929 e se casará em 1931. O casal terá dois filhos: Clarissa (1935) e Luis Fernando (1936).
1931
Já casado com Mafalda, transfere-se para Porto Alegre, onde trabalha como secretário de redação da Revista do Globo.
1933
Publica o primeiro romance, Clarissa, com notável sucesso de público, que terá duas continuações: Música ao Longe e Um Lugar ao Sol (ambos de 1936). Antes desses últimos, em 1935, publica Caminhos Cruzados.
1949
Publica o primeiro volume de O Tempo e o Vento, intitulado O Continente.
1962
Conclui a publicação de O Tempo e o Vento com o último tomo de O Arquipélago, última parte da trilogia.
1971
Publica Incidente em Antares, seu último romance.
1975
Morre de infarto em 28 de novembro de 1975.

Livro começou a ser imaginado em 1939


A primeira frase da saga, “Era uma noite fria de lua nova”, foi alterada em edições posteriores para “Era uma noite fria de lua cheia”. Sem luar, não seriam possíveis os tiroteios de “O Sobrado”

Com O Continente, Erico Verissimo não apenas forjou uma das obras definitivas sobre o passado do Rio Grande do Sul, mas forjou também um novo caminho como escritor. Cada livro da trilogia parece ter precisado de um Erico diferente, com linhas de comunicação diversas com o “computador” cerebral que o autor descrevia como responsável por armazenar cenas, personagens, situações, cores, sons, cenários para recuperá-los mais tarde enquanto o autor elaborava suas ficções. No primeiro volume da saga O Tempo e o Vento, Erico foi buscar dentro de seu “processador” os aplicativos necessários para dar ares épicos ao romance histórico.

Autor de romances urbanos profundamente humanistas, Erico já havia se lançado ao relato de ação de fôlego aventuresco com Saga, parte do qual narra a luta de Vasco Bruno como voluntário nas Brigadas Internacionais durante a Guerra Civil Espanhola, contra a tirania de Francisco Franco. Para O Continente, Erico deixaria de lado a contraposição entre a mentalidade de cidade pequena de seus personagens e o gigantismo exacerbado de uma Porto Alegre descrita como uma metrópole que ela ainda não era. Ele empreenderia um mergulho no passado do Estado para sair de lá com um objeto raro na literatura nacional: um romance monumental que é também contínuo sucesso de público.

“Livro de uma vida inteira – ocupou pelo menos 27 anos de suas preocupações –, O Tempo e o Vento é a única obra de ficção nacional a se propor, e conseguir, uma reflexão totalizante sobre a formação do país, o conceito de nação, a autoconsciência de um povo, suas responsabilidades, seus deveres etc. E, o que dá a dimensão do artista: tudo isso a partir de um olhar que se quer focalizado no ‘regional’” – escreveria sobre a saga o autor Luiz Ruffato, autor de Eles Eram Muitos Cavalos e um dos prefaciadores da edição mais recente da obra, pela Companhia das Letras.

A professora da UFRGS Maria da Glória Bordini, organizadora do Acervo Literário Erico Verissimo, relata em A Criação Literária em Erico Verissimo que o nascimento de O Continente remonta a 1939. Na época, quando Verissimo planejava a escritura de Saga, o painel histórico tinha ainda outro nome e concepção. “Numa conferência, ele revela que se encontra em Canela, ‘com firme intenção de começar a escrever um massudo romance cíclico que teria o nome de Caravana. Seria um trabalho repousado, lento e denso a abranger duzentos anos da vida do Rio Grande. Começaria numa missão jesuítica em 1740 e terminaria em 1940’”, escreve Bordini, citando o original da conferência de Erico.

Erico ainda demoraria a levar o projeto adiante, por não acreditar que a interiorização e o retorno ao passado remoto fossem o melhor caminho para sua ficção em um período em que a II Guerra ainda suspendia a respiração do mundo. Na concepção original, O Tempo e o Vento seria, de fato, “massudo”: o planejamento de Erico para obra previa contar toda a história em um único “romanção” de 800 a mil páginas. As anotações para o plano geral da obra desenvolviam personagens mais tarde modificados drasticamente ou até mesmo descolados da saga e aproveitados em outros livros, como foi o caso do escritor Tônio Santiago.

A princípio, as duas famílias centrais da narrativa planejada por Erico seriam os Terra e os Santiago, Tônio aparecendo como um protótipo do que na obra definitiva seria Floriano Cambará, o escritor deslocado na família caudilhesca. Tônio acabaria ganhando corpo como personagem de O Resto é Silêncio, e, embora muito do que se viu em O Continente já estivesse esboçado nos capítulos imaginados na estrutura planejada da obra, o projeto ampliou-se a tal ponto que seu resultado final foram os dois tomos cada para O Continente e O Retrato e os três volumes de O Arquipélago, perfazendo aproximadamente 2,2 mil páginas. O projeto original, contudo, já tinha um capítulo intitulado A Fonte – no romance publicado, o que enfoca as missões guaraníticas no século 18. As menções mais antigas ao projeto também já mencionam A Teiniaguá – assim mesmo, no masculino, bem como uma personagem “Luzia” – que mutariam até se referirem à cruel e desequilibrada mulher de Bolívar Cambará.

Para ambientar o livro no passado distante, Erico realizou leituras, pesquisas e consultas que, infelizmente, ele próprio admitiria mais tarde, não registrou com minúcias. Para criar Santa Fé e seus personagens carismáticos – O Continente é a parte mais popular e com os personagens mais conhecidos do conjunto –, Erico não teve apenas que pesquisar o passado, mas apreendê-lo. Prova disso são as correções que fez na primeira edição de O Continente. A famosa frase que abre o livro – e que mais de uma década depois encerraria O Arquipélago – empregava textualmente “Era uma noite fria de lua nova”. Como o desenrolar da narrativa mostrava o Sobrado acossado por inimigos entocados na torre de igreja, em condições de abater qualquer partidário de Licurgo que se arriscasse a deixar o abrigo do Sobrado, Erico em edições posteriores alterou a obra, situando a cena inicial em uma mais luminosa “noite de lua cheia”. O próprio título do ciclo foi decidido nas últimas revisões de O Continente: até o último momento, Erico hesitou entre O Tempo e o Vento e a forma inversa O Vento e o Tempo.

POR CARLOS ANDRÉ MOREIRA

Reduções Jesuíticas


A Fonte, narrativa centrada na infância de Pedro Missioneiro, é ambientada em uma das reduções dos jesuítas no Estado. As missões jesuíticas eram povoações de indígenas convertidos aos catolicismo administradas por religiosos da Companhia de Jesus. Os povoamentos eram um modo de os jesuítas estabelecerem núcleos eficientes de evangelização em comunidades supervisionadas pela ordem desde a origem. Nas missões, os índios aprendiam o Evangelho e viviam à semelhança das ordens monásticas. No Estado, as missões deram origem a “sete povos”: São Francisco de Borja, São Luiz Gonzaga, São Nicolau, São Lourenço Mártir, São Miguel Arcanjo (E), São João Batista e Santo Ângelo Custódio.

São João da Cruz


Padre Alonzo, o tutor de Pedro Missioneiro, é mostrado em mais de uma cena lendo e refletindo sobre os poemas de San Juan de La Cruz (1542 – 1591) (D), religioso e poeta do Século de Ouro espanhol. Nascido Juan de Yepes Álvarez, foi amigo e interlocutor de Teresa de Jesus, com quem fundou a Ordem das Carmelitas Descalças. Juan de la Cruz é um poeta cujos principais temas são o encontro com a divindade por meio da purificação da alma e a alegria espirtual do encontro com Deus no outro mundo.

Zurbarán

  


Erico sempre teve uma imaginação pictórica. Em mais de um trecho de O Tempo e o Vento, ele compara as feições de seus personagens a rostos de retratos e pinturas. Padre Alonzo, o padrinho de Pedro Missioneiro em A Fonte, é descrito a certo momento como um homem com “o rosto dramático de um monge pintado por Zurbarán”. A referência é a um dos grandes pintores maneiristas espanhóis, Francisco de Zurbarán (1598 – 1664), famoso pela dramaticidade com que imprimia, com o uso de densas sombras, em suas pinturas sacras, com destaque para vários retratos de diferentes momentos da vida de São Francisco de Assis.

Guerra dos Farrapos


O Capitão Rodrigo Cambará morre logo no começo do mais longo conflito armado do Rio Grande. Rodrigo apresenta-se às forças de Bento Gonçalves, a quem admira e com quem já servira. A Revolução Farroupilha, também chamada de Guerra dos Farrapos, opôs soldados leais ao governo imperial brasileiro de Dom Pedro II (os caramurus) e os partidários de um movimento revolucionário republicano, os farrapos, chefiados por Bento.

Pinto Bandeira


O rancho isolado em que Ana Terra vive é visitado, na primeira metade da década de 1870, pelas forças de Rafael Pinto Bandeira (1740 – 1795) (E), um dos primeiros caudilhos gaúchos com existência documentada. Natural de Rio Grande, envolveu-se em lutas contra os espanhóis desde a adolescência, quando incorporou-se ao Regimento de Dragões de Rio Pardo. Participou de praticamente todas as guerras entre lusos e castelhanos na fase inicial de delimitação das fronteiras do Brasil.

Imperador Maximiliano


Em A Teiniaguá, Luzia, a viúva de Bolívar, menciona sua admiração pelo Imperador Maximiliano, do México. Fernando Maximiliano José de Habsburgo-Lorena (1832 – 1867) foi um nobre austríaco (e primo de Dom Pedro II) que renunciou a seus títulos para, em nome de Napoleão III, sobrinho de Napoleão Bonaparte, assumir o título de Imperador do México depois que os exércitos franceses invadiram o país americano e destituíram o presidente Benito Juárez. A aventura francesa no México durou três anos e terminou, tragicamente, com a morte por fuzilamento do pretenso imperador.

A questão Zacarias


Em um serão promovido por Luzia no Sobrado, os convidados discutem, para fastio da anfitriã, a “questão Zacarias”. Uma referência à queda, em 1868, do gabinete de ministros chefiado por Zacarias de Góes e Vasconcelos (E), na sequência de desentendimentos entre este e o comandante militar do Brasil da Guerra do Paraguai, Luís Alves de Lima e Silva, o Marquês (mais tarde Duque) de Caxias. Com a queda de Zacarias, criou-se uma divergência entre os dois partidos da vida política brasileira, liberais e conservadores.
A última entrevista a Zero
Na véspera da morte de Erico Verissimo, em 28 de novembro de 1975, Zero Hora entregou ao escritor o questionário daquela que seria sua última entrevista. As perguntas haviam sido feitas por amigos e escritores como Fernando Sabino, Moacyr Scliar, Josué Guimarães, Hermilo Borba Filho e o filho, Luis Fernando Verissimo. Entre os temas tratados, estava O Tempo e o Vento:
Personagem favorito
“Corri o risco de ter em mim muito do Noel, mas reagi. Vi muito de meu pai no Capitão Rodrigo, e veio de mim a revolta de Vasco contra o totalitarismo e a injustiça social. Mas de todas as minhas personagens a que mais se parece comigo é Floriano, de O Arquipélago, e o Erico Verissimo de Solo de Clarineta.”
Reescrita
“Gostaria, por exemplo, de reescrever a trilogia O Tempo e o Vento. Agora é tarde. Falta-me tempo e fôlego. E há ainda muita coisa a dizer. Se me deixarem, é claro.”
Epopeia
“Ao escrever a trilogia não foi minha intenção fazer uma epopeia, pois do contrário eu teria dado outro tratamento à Guerra dos Farrapos, que tratei indiretamente através de uma conversinha de uma Terra Fagundes, lembra-se?”
Romance histórico
“Outro aspecto da trilogia que gosto de frisar é o de que não se trata de romance histórico. De histórico só há o pano de fundo e uma que outra personagem que passa, às vezes a galope, como Rafael Pinto Bandeira, ou então de automóvel, como Pinheiro Machado. As personagens principais dessa visão da sociedade gaúcha são fictícias.”
O sucesso da trilogia
“Já não sinto muito. O que senti – surpresa, susto, sensação de que tinha de parar de escrever, de que não poderia produzir nada, já não digo de melhor, mas de comparável, mesmo de longe – tudo isso já passou. Pelo menos é o que penso. Tomemos o caso de Somerset Maughan, cujo Servidão Humana é considerado a sua melhor obra. Apareceu em 1915 e Maughan continuou a escrever até 1965. Aperfeiçoou a técnica, o estilo, mas jamais tornou a produzir um livro à altura daquele romance, em que havia muito de sua própria vida. O que me preocupa agora não é o que fiz, mas sim o mundo conturbado, complexo, conflituoso em que vivemos. Terminadas as memórias, para onde devo me voltar? Isto realmente me preocupa.
Farmácia e escrita
“Jamais preparei uma fórmula ou aviei uma receita nos tempos de boticário. Eu fazia a escrita da casa (sempre atrasada), vendia medicamentos prontos ao balcão e namorava a vizinha da casa fronteira. A experiência com gente, sim, me haveria de valer muito: aquela freguesia de fazendeiros, prostitutas etc.”
Contemporaneidade
“A crise me parece que é dos homens neste tipo de mundo em que estamos entrando, completamente despreparados. Dessa crise pode sair uma arte muito boa ou arte nenhuma. Não acredito na ideia de que em tempos difíceis a qualidade das artes e da literatura piorem. O que não tem sentido algum é a censura.”

A árvore ressecada


Em “O Retrato”, segunda parte da trilogia, Erico mostra os impasses vividos pelos descendentes dos fundadores do clã Terra Cambará

Há uma simetria intencional entre o primeiro e o terceiro volumes da trilogia O Tempo e o Vento: uma história estabelecida no presente com retornos ao passado – da família no caso de O Continente, de um homem, Rodrigo Terra Cambará, em O Arquipélago. Essa estrutura não se repete em O Retrato, o mais díspar dos volumes. Ao enfocar um período mais curto e um único personagem central, serve como “ponte” metafórica entre o sólido “continente” e o disperso “arquipélago”.

O foco da ação é a figura de Rodrigo Terra Cambará, inspirado, embora devidamente “despistado”, como o autor definia, em Sebastião Verissimo, pai de Erico, homem expansivo e de paixões sensuais. Rodrigo, o do livro, é um homem com a beleza física e a ambição que Sebastião não tinha. É filho de Licurgo, neto de Bolívar, bisneto do Capitão de mesmo nome. Ana Terra, para ele, é uma vaga noção de antepassado – e as origens obscuras da família, surgida de raptos, estupros e trocas de identidade no século 18, se perderam. Um idealista de visão ambiciosa, Rodrigo volta à cidade natal para tentar encaminhar Santa Fé nos trilhos do século 20 que recém se inicia, representando uma renovação dos métodos caudilhescos empregados pelo adversário da família Cambará no período, o intendente Titi Trindade.

Para delinear Rodrigo, Erico o confronta com os acontecimentos políticos de seu tempo, por um lado, e com a pobreza material e social do Estado, por outro. Engajado na campanha em favor do candidato civil Ruy Barbosa, Rodrigo desaprova com fúria a truculência de seus adversários, mas, sem perceber, é bastante indulgente em justificar os abusos que seu ímpeto de macho patriarca impõe a empregadas da estância ou mesmo a uma jovem pobre de quem foi padrinho de casamento.

O Retrato do título refere-se a uma imagem do jovem e voluntarioso Rodrigo retratado pelo artista espanhol residente em Santa Fé Pepe García. Ao tomar como inspiração o motivo e o nome de O Retrato de Dorian Gray, romance de Oscar Wilde, Erico altera drasticamente o enquadramento do ciclo O Tempo e o Vento: saem os grandes planos, entra o zoom cinematográfico sobre a vida e a psique de Rodrigo, um homem que, cego a si próprio, não vê o quanto o tempo o torna diferente da juventude idealista capturada no retrato.

Cometa de Halley


Um dos pontos centrais da narrativa de O Retrato é a passagem do Cometa de Halley (abaixo), em 1910, à qual Rodrigo Terra Cambará assiste com amigos. O Halley leva o nome do astrônomo Edmond Halley (1656 – 1742), e foi o primeiro corpo celeste identificado como periódico – ele passa próximo da Terra em intervalos de 75 anos. Sua última passagem foi em 1986, e sua próxima visita está prevista para 2061.

Perfumes


Rodrigo Terra Cambará recorda a certo ponto as “moças janeleiras” que namorou em Porto Alegre, e que se perfumavam com Corylopsis do Japão e Floramye (acima). As fragrâncias produzidas pela firma L.T. Piver, uma das mais tradicionais casas francesas de perfumes, eram vendidas na Capital.

Pinheiro Machado


Para apaziguar as duas facções do Partido Republicano, o senador José Gomes Pinheiro Machado (acima) faz uma visita a Santa Fé, que inclui a deferência de uma passagem pelo sobrado dos Cambará. Pinheiro Machado (1851 – 1915) foi uma das figuras mais influentes dos primeiros anos da República. Senador e líder do Partido Republicano, lutou contra os revolucionários maragatos em 1983 , foi um mestre na sombra nos governos de Nilo Peçanha (em 1909) e Hermes da Fonseca (de 1910 a 1914). Foi assassinado em 1915 com uma punhalada pelas costas no saguão de um hotel no Rio.

Enrico Caruso


Homem de gostos cosmopolitas, Rodrigo inventaria na bagagem recebida da capital discos com árias de ópera, com especial atenção para as interpretadas por Enrico Caruso (1873 – 1924, ao lado), aclamado por muitos como o maior intérprete de música operística de todos os tempos. Nascido em Nápoles, começou a carreira na juventude e foi um pioneiro na gravação em discos de cera.

Campanha civilista


Os Cambará, especialmente Rodrigo, desentendem-se com o caudilho de Santa Fé. A família apoia a candidatura de Rui Barbosa (E) à Presidência da República em 1910. Barbosa concorreu, com Albuquerque Lins como vice, contra Hermes da Fonseca (1855 – 1923), candidato do presidente Nilo Peçanha.

Chantecler


Especialmente no primeiro volume de O Retrato, Erico relata o fascínio do personagem Rodrigo por Chantecler, peça de Edmond Rostand (1868 – 1918). Rostand levou sete anos para escrever a obra, que estreou em fevereiro de 1910 no Théâtre de la Porte Saint-Martin, com todo o elenco fantasiado de animais de fazenda.

Dispersos e perdidos


A solidão dos personagens de “O Arquipélago” encerra com nota pessimista a saga inaugurada três séculos antes na gênese do Rio Grande

Se O Continente seria Caravana, um dos títulos que Erico pensou inicialmente para O Arquipélago seria Encruzilhada – a viagem original da “caravana” deparando com um ramificar de caminhos possíveis – imagem que o autor manteve adaptando-a para o esfacelamento da família em uma série de “ilhas”. Uma pulverização que reflete também a do Brasil.

– O Arquipélago é a grande narrativa da corrupção do Brasil durante a Era Vargas – comenta Flávio Loureiro Chaves.

O livro que mais demorou a ser escrito é, apesar de aparente repetição da estrutura de O Continente, o mais ousado em termos literários de toda a saga. Erico constrói uma obra que alterna vários registros – a narrativa de ampla exploração psicológica que havia usado anteriormente, as anotações esparsas de um escritor gestando um livro, um diário íntimo escrito por uma mulher – e que realiza nos anos 1960 uma reflexão disfarçada sobre a própria arte do romance e sua elaboração.

Usando como porta-voz de algumas de suas concepções estéticas Floriano, o filho escritor e deslocado de Rodrigo Terra Cambará, Erico faz das discussões que o personagem trava com seu amigo Roque Bandeira uma reflexão sobre sua própria intenção de escrever O Tempo e o Vento. As objeções técnicas que Bandeira, o “Tio Bicho”, faz ao projeto são as mesmas que Erico teve de enfrentar: o fato de que à medida que a história fosse se aproximando da contemporaneidade do escritor, suscetibilidades seriam feridas; uma restrita margem para inventar os fatos sobre os quais não se tinha certeza, algo facilitado pelo caráter ancestral de O Continente.

Além da formação de Floriano como escritor e da construção do livro como obra romanesca, Erico também mergulha com tremenda profundidade nas motivações de outros personagens além de Rodrigo – seu vago mundanismo é mostrado par e par com o comunismo de Arão Stein, o conservadorismo de Licurgo e de Jango, o anarquismo afetado de Roque Bandeira, a perplexidade de Floriano. A figura de Rodrigo ainda é maior do que a vida, mas Erico foi eficaz em espremer nos três volumes uma fatia considerável da vida brasileira do período – com uma habilidade e um fôlego únicos.

Foxtrote


Em um serão em sua casa em 1922, Rodrigo apresenta aos convidados um disco com a canção Smiles, do novo ritmo foxtrote. A canção foi composta por J. Will Callahan and Lee S. Robert em 1917 para um musical da Broadway, The Passing Show of 1918. No mesmo ano, foi gravada pela Orquestra Joseph Smith no ano seguinte, e sua popularidade ajudou a divulgar o ritmo. O foxtrote surgiu no início da década de 1910 como uma dança de salão para músicas de “big bands”, conjuntos instrumentais com grande número de integrantes.

Semana de Arte Moderna


No romance, também são discutidas as ações da Semana de Arte Moderna de 13 a 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. O objetivo era mostrar ao público brasileiro a produção contemporânea de pintura, música e literatura, interessada em experimentações de linguagem artística e em quebrar a repetição dos moldes tradicionais. Participaram da Semana, entre outros grandes nomes da arte nacional, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Guilherme de Almeida, Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti.

18 do Forte


A certa altura, Rodrigo mostra a um grupo de amigos uma cópia da foto dos “18 do Forte” (abaixo), revolta ocorrida em 5 de julho de 1922 e apontada como o episódio inaugural do tenentismo. Fora planejada a tomada das unidades militares da então Capital Federal, o Rio, para impedir a posse de Artur Bernardes, programada para novembro. No dia combinado, apenas o Forte de Copacabana e a Escola Militar aderiram. Depois de intenso bombardeio ao forte, dos 301 revoltosos originais sobraram 28 homens. Os resistentes avançaram a pé pela Avenida Atlântica até o Leme, mas depois de iniciado um tiroteio com as forças legalistas, apenas 18 persistiram (17 militares e um civil). Destes, apenas os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos sobreviveram.

Revolução de 1923


Os Cambará formam uma coluna para combater na Revolução de 1923 ao lado de seus antigos adversários maragatos. O conflito durou 11 meses e opôs os apoiadores de Borges de Medeiros (1863 – 1961, à esquerda), presidente do Rio Grande do Sul, aos aliados de Joaquim Francisco de Assis Brasil (1857 – 1938). Os líderes das facções haviam se enfrentado em 1922 em uma eleição que terminou com a vitória fraudulenta de Borges, detonando o conflito.

Getúlio Vargas


Uma das figuras mais presentes na história nacional do século 20, Getúlio Vargas (D) é um catalisador de muitos eventos na terceira parte da saga. A trajetória de Rodrigo Terra Cambará cruzará com a de Getúlio muitas vezes, mas o político e ditador gaúcho só aparece pessoalmente como personagem quando Rodrigo Terra Cambará discursa na Assembleia de Representantes para renunciar ao mandato de deputado estadual pelo partido de Borges de Medeiros.
Em texto derradeiro, a esperança
Pouco mais de um mês antes de morrer, Erico Verissimo escreveu texto destinado a publicação em um álbum de artistas gaúchos. Nele, refletiu sobre um dos temas que o preocupavam à época: a afirmação da vida e da liberdade, interligadas de forma inseparável. A seguir, alguns trechos:
VIVA A VIDA!
Sofremos tempos terríveis. Nos meus momentos de pessimismo, tenho a impressão de que os homens estão aos poucos morrendo afogados em seus próprios detritos, no mais estúpido dos suicídios. De todas as poluições que hoje nos afligem – a do ar, a da terra e a da água – nenhuma é mais letal do que a poluição dos espíritos, esse tipo de sujeira que leva as criaturas humanas a se odiarem e se agredirem umas às outras.
No entanto, nunca como em nossos dias conseguiu o homo sapiens levar mais longe os feitos de sua inteligência, de seu engenho e de sua capacidade inventiva. Os geneticistas aproximam-se cada vez mais da descoberta do segredo da vida. Explora-se o espaço sideral. Pés humanos já pisaram o solo da Lua. Os cérebros eletrônicos fazem prodígios. A Física e a Bioquímica avançam com passadas de gigante.
Era de esperar-se que, com todo esse progresso científico e técnico, a esta altura de sua História os homens já tivessem aprendido a viver em paz uns com os outros, sem ódios nem conflitos de natureza econômica, racial, política ou religiosa, num mundo em que houvesse espaço físico e psicológico, alimentos, instrução, habitações, vestuário, assistência médica e hospitalar e paz para todos. Desgraçadamente pouco ou nada disso tem acontecido. A violência e a agressividade são a nota tônica de nossa época. A inflação dos preços dos bens de consumo aumenta de maneira assustadora, ao mesmo passo que, na bolsa de valores éticos, nunca uma vida humana desceu a preço mais vil. O genocídio parece ter-se transformado no esporte favorito dos povos chamados fortes. Duas guerras monstruosamente destruidoras mancham vergonhosamente nosso século. Milhões de seres humanos através do mundo buscam no uso de drogas alucinógenas ou entorpecentes uma porta de fuga duma vida que temem, detestam ou com a qual não se conformam. Para onde vai então a Humanidade?
Este intróito um tanto apocalíptico tem por fim fazer as vezes dum envelope de chumbo dentro do qual envio aos que me lerem um bilhete de esperança. Estou certo de que, mais dia menos dia, os homens hão de encontrar as veredas da paz e do amor. Para esse encontro está destinado às artes em geral um papel de enorme importância. (...)”
O livro ao qual se destinava o texto “Viva a Vida!” se chamava “Artistas Gaúchos” e continha obras de Ado Malagoli, Alice Brueggemann, Alice Soares, Carlos Scliar, Carlos Tenius, Danúbio Gonçalves, Xico Stockinger, Romanita Martins, Vasco Prado e Zorávia Bettiol.

A obra segundo o criador


No primeiro tomo de suas memórias, “Solo de Clarineta”, Erico Verissimo registrou reflexões sobre seu livro mais conhecido. A seguir, dois trechos:

“Estou hoje convencido de que foi uma pena eu não ter mantido um diário durante os muitos anos em que estive ocupado e preocupado com escrever os romances que iriam formar a trilogia que leva o título geral de O Tempo e o Vento. Esse jornal não só teria registrado os pensamentos, sentimentos, dificuldades, dúvidas, ânimos e desânimos do escritor empenhado em fazer o que ele esperava viesse a ser sua obra máxima, como poderia também ter mostrado como os acontecimentos políticos e sociais desses agitados quinze anos da vida nacional e internacional se refletiram na mente, na vida e na obra do romancista.

Quando me teria ocorrido pela primeira vez a ideia de escrever uma saga do Rio Grande do Sul? Em 1935, quando meu Estado comemorou o primeiro centenário da Guerra dos Farrapos? Não sei ao certo. Não creio que ideias como essa nos caiam na cabeça com a força súbita de um raio. É mais provável que comecem de ordinário com uma nebulosa de origem ignorada, que se mistura com as outras que povoam nossos misteriosos espaço e tempo interiores e aos poucos vão tomando a forma dum mundo.

Procurando analisar com imparcialidade os meus romances anteriores, eu percebia o quão pouco, na sua essência e na sua existência, eles tinham a ver com o Rio Grande do Sul. Tendiam para um cosmopolitismo sofisticado, que me levava a descrever a provincianíssima Porto Alegre de 1934 como uma metrópole tentacular e turbulenta que recendia a gasolina queimada e asfalto. Em Olhai os Lírios do Campo fiz uma das personagens, um arquiteto, construir um arranha-céu de trinta andares – coisa que na realidade a capital do Rio Grande do Sul só veio a ter vinte e cinco anos mais tarde.

Apesar de ser descendente de campeiros, sempre detestei a vida rural, nunca passei mais de cinco dias numa estância, não sabia e não sei ainda andar a cavalo – para escândalo e vergonha de meu avô Aníbal – desconhecia e ainda desconheço o jargão gauchesco. Embora admire os trabalhos isolados de escritores como Simões Lopes Neto, Darcy Azambuja, Cyro Martins e Vargas Neto, nunca morri de amores pelo regionalismo e, para ser sincero, tinha e ainda tenho para com esse gênero literário as minhas reservas, pois acho-o limitado e, em certos casos, com um certo odor e um imobilismo anacrônico de museu.

Antes de começar o ‘ambicioso’ projeto, eu precisava vencer muitas resistências interiores, a maioria delas originadas nos meus tempos de escola primária e ginásio. Para o menino e para o adolescente – ambos de certo modo sempre presentes no inconsciente do adulto –, o poético, o pitoresco e o novelesco eram atributos que raramente ou nunca se encontravam em pessoas, paisagens e coisas do âmbito nacional e muito menos do regional e ainda menos do municipal. Nossos livros escolares – feios, mal impressos em papel amarelado e áspero – nunca nos fizeram amar ou admirar o Rio Grande e sua gente. Redigidos em estilo pobre e incolor de relatório municipal, eles nos apresentavam a História do nosso Estado como uma sucessão aborrecível de nomes de heróis e batalhas entre tropas brasileiras e castelhanas. (Ganhávamos todas.) Nossos pró-homens pouco mais eram que nomes inexpressivos, debaixo de clichês apagados, em geral de retícula grossa: sisudos generais, quase sempre de longas costeletas, metidos em uniformes cheios de alamares e condecorações; estadistas de cara severa especados em colarinhos altos e engomados. Parece incrível, mas só depois de adulto é que vim a descobrir que Rafael Pinto Bandeira – que em nossos livros escolares aparecia, num retrato linear a bico-de-pena, como um sujeito gordo, de ar suíno, bigodes de mandarim, tendo na cabeça um ridículo chapéu bicorne com um penacho – era na realidade um mirífico aventureiro, cujas façanhas guerreiras e amorosas nada ficavam a dever em brilho, audácia e colorido às dos mais famosos espadachins da ficção universal. Concluí então que a verdade sobre o passado do Rio Grande devia ser mais viva e bela que a sua mitologia. E quanto mais examinava a nossa História, mais convencido ficava da necessidade de desmitificá-la.

-

Desde que chegara a Washington eu fazia tentativas periódicas para começar a escrever O Arquipélago. Relia notas e roteiros, desenhava faces, colocava no cilindro da portátil Royal uma folha de papel e quedava-me a olhar para a sua desolada brancura de estepe siberiana no inverno, os dedos imobilizados sobre o teclado... E não conseguia sequer escrever uma palavra. Era como se as personagens do terceiro volume da trilogia, não só os Terra-Cambará, como também o resto da vasta comparsaria, estivessem fechados e congelados dentro duma câmara frigorífica em algum lugar de meu ser. Frequentemente, por não estar escrevendo nada, eu era tomado por uma sensação de vácuo interior e ao mesmo tempo de culpa. O que acentuava o sentimento culposo era o fato de ter deixado no Brasil minha mãe, que tanto dependia de mim sentimentalmente. Essa má consciência era a matriz de sonhos em que a impressão de ter sido cúmplice no assassínio duma mulher idosa de longe em longe assombrava meu sono. Num desses sonhos a Velha era dona duma pensão onde eu vivera durante longos anos, e ela me apresentava uma conta, ainda não paga, cujo total correspondia exatamente ao que eu pedira a minha mãe para empregar na comprada farmácia...

Comuniquei um dia ao novo Secretário-Geral, o Dr. José Mora, a minha decisão de deixar a UPA impreterivelmente em setembro daquele ano de 1956. Estávamos em maio. O Dr. Mora, com quem eu me entendia perfeitamente bem, tentou dissuadir-me da ideia. O Dr. William Manger, a quem notifiquei também da minha resolução, olhou-me com ar perplexo quando lhe expliquei que, entre os muitos outros motivos que eu tinha para voltar ao Brasil, estava a necessidade de terminar minha trilogia. O Secretário-Geral-Adjunto tirou da boca o cachimbo, franziu a testa e perguntou: ‘Mas é tão importante assim escrever mais um romance?’. Até hoje não sei se ele disse isso por brincadeira ou a sério.”

POR ERICO VERISSIMO

Canal de filmes LavTV

Canal de filmes LavTV
filmes 24 horas

Charge

Charge

charge

charge

Charge: Latuff e o massacre no Pinheirinho*

Charge: Latuff e o massacre no Pinheirinho*

A história secreta da Rede Globo

Resuno do documentário: Beyond Citizen Kane (no Brasil, Muito Além do Cidadão Kane) é um documentário televisivo britânico de Simon Hartog produzido em 1993 para o Canal 4 do Reino Unido. A obra detalha a posição dominante da Rede Globo na sociedade brasileira, debatendo a influência do grupo, poder e suas relações políticas. O ex-presidente e fundador da Globo Roberto Marinho foi o principal alvo das críticas do documentário, sendo comparado a Charles Foster Kane, personagem criada em 1941 por Orson Welles para Cidadão Kane, um drama de ficção baseado na trajetória de William Randolph Hearst, magnata da comunicação nos Estados Unidos. Segundo o documentário, a Globo emprega a mesma manipulação grosseira de notícias para influenciar a opinião pública como o fez Kane. O documentário acompanha o envolvimento e o apoio da Globo à ditadura militar, sua parceria ilegal com o grupo americano Time Warner (naquela época, Time-Life), a política de manipulação de Marinho (que incluíam o auxílio dado à tentativa de fraude nas eleições fluminenses de 1982 para impedir a vitória de Leonel Brizola, a cobertura tendenciosa sobre o movimento das Diretas-Já, em 1984, quando a emissora noticiou um importante comício do movimento como um evento do aniversário de São Paulo e a edição, para o Jornal Nacional, do debate do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 1989, de modo a favorecer o candidato Fernando Collor de Mello frente a Luis Inácio Lula da Silva), além de uma controvérsia negociação envolvendo acções da NEC Corporation e contratos governamentais. O documentário apresenta entrevistas com destacadas personalidades brasileiras, como o cantor e compositor Chico Buarque de Hollanda, os políticos Leonel Brizola e Antônio Carlos Magalhães, o publicitário Washington Olivetto, os jornalistas Walter Clark, Armando Nogueira, Gabriel Priolli e o atual presidente Luis Inácio Lula da Silva. O filme seria exibido pela primeira vez no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro do Rio de Janeiro, em março de 1994. Um dia antes da estréia, a polícia militar recebeu uma ordem judicial para apreender cartazes e a cópia do filme, ameaçando em caso de desobediência multar a administração do MAM-RJ e também intimidando o secretário de cultura, que acabou sendo despedido três dias depois. Durante os anos noventa, o filme foi mostrado ilegalmente em universidades e eventos sem anúncio público de partidos políticos. Em 1995, a Globo tentou caçar as cópias disponíveis nos arquivos da Universidade de São Paulo através da Justiça Brasileira, mas o pedido lhe foi negado. O filme teve acesso restrito a essas pessoas e só se tornou amplamente vistos a partir da década de 2000, graças à popularização da internet. A Rede Globo tentou comprar os direitos para o programa no Brasil, provavelmente para impedir sua exibição. No entanto, antes de morrer, Hartog tinha acordado com várias organizações brasileiras que os direitos de televisão não deveriam ser dados à Globo, a fim de que o programa pudesse ser amplamente conhecido tanto por organizações políticas e quanto culturais. A Globo perdeu o interesse em comprar o programa quando os advogados da emissora descobriram isso, mas o filme permanece proibido de ser transmitido no Brasil. Entretanto, muitas cópias em VHS e DVD vem circulando no país desde então. O documentário está disponível na Internet, por meio de redes P2P e de sítios de partilha de vídeos como o YouTube e o Google Video (onde se assistiu quase 600 mil vezes). Contrariando a crença popular, o filme está disponível no Brasil, embora em sua maioria em bibliotecas e coleções particulares.

A história e os aspectos do racismo pelo mundo

Sinopse da Série: Como parte da comemoração do bicentenário da Lei de Abolição ao Tráfico de Escravos (1807), a BBC 4, dentro da chamada "Abolition Season", exibiu uma série composta por três episódios, independentes entre si, abordando a história e os aspectos do racismo pelo mundo. São eles: "A Cor do Dinheiro", "Impactos Fatais" e "Um Legado Selvagem". Episódio 1 A Cor do Dinheiro: O programa examina as atitudes de alguns dos grandes filósofos em relação às diferenças humanas, incluindo a abordagem das implicações dos dogmas do Velho Testamento acerca dos atributos das diferentes raças, especificamente "A Maldição de Cam". Analisa a fracassada experiência democrática da Serra Leoa, a Revolução do Haiti, a primeira revolução escrava bem sucedida da história, demonstrando como ele passou da colônia mais rica das Américas ao país mais pobre do hemisfério norte. Este episódio trata, ainda que de forma superficial, da chamada "democracia racial" brasileira. Por fim, conclui-se que a força motriz por trás da exploração e escravização dos chamados "povos inferiores" foi a economia, e que a luta para apagar e cicatrizar os feitos e legados deixados pelo sistema escravocrata ainda continua. Episódio 2 Impactos Fatais: É a mais superficial das diferenças humanas, tem apenas a profundidade da pele. No entanto, como construção ideológica, a ideia de raça impulsionou guerras, influenciou a política e definiu a economia mundial por mais de cinco séculos. O programa aborda as teorias raciais desenvolvidas na era vitoriana, a eugenia, o darwinismo social e o racismo científico, desenvolvendo a narrativa a partir da descoberta dos restos mortais encontrados no deserto da Namíbia pertencentes às primeiras vítimas do que ficaria conhecido como campo de concentração, 30 anos antes de o nazismo chegar ao poder na Alemanha. Tais teorias levaram ao desenvolvimento da Eugenia e das políticas raciais nazistas. O documentário sustenta que os genocídios coloniais, o campo de morte da ilha de Shark, a destruição dos aborígenes tasmanianos e os 30 milhões de indianos vítimas da fome, foram apagados da história da Europa, e que a perda desta memória encoraja a crença de que a violência nazista foi uma aberração na história daquele continente. Mas que, assim como os ossos ressurgidos no deserto da Namíbia, esta história se recusa a ficar enterrada para sempre. Episódio 3 Um Legado Selvagem: O programa aborda o cruel legado deixado pelo racismo ao longo dos séculos. Iniciando pelos EUA, berço da Ku Klux Klan, onde o pesquisador James Allen, possuidor de vasta coleção de material fotográfico e jornalístico sobre linchamentos, defende que há um movimento arquitetado para apagar a mácula racial da memória do país. A seguir, remonta à colonização belga do Congo, por Leopoldo II, onde os negros que não atingiam a quota diária de borracha tinham a mão direita decepada. O documentário trata ainda da problemática racial na África do Sul (Apartheid) e Grã-Bretanha, abordando a luta do Movimento pelos Direitos Civis nos EUA e a desconstituição do mito da existência de raças.

Os Maias e as Profecias do Juízo Final Parte 01 de 05

Resumo:Nossos dias estão contados, preparem-se para o juízo final. Conheçam o templo sagrado de uma civilização perdida e conheçam a verdade sobre a profecia maia. Os maias realmente enxergavam o passado e o presente com precisão extraordinária? A data exata do nosso fim estaria oculta em seus antigos textos? O tempo está se esgotando, a contagem regressiva começa agora. \

BATALHAS LENDÁRIAS: JOSUÉ, A MATANÇA ÉPICA

Resumo do documentário: Na sua primeira batalha para conquistar a Terra Prometida, as forças especiais de Josué infiltraram-se de forma secreta e destruíram Jericó desde dentro apesar de as suas muralhas serem consideradas impenetráveis. Os espias de Josué contaram com a ajuda de Rajab. Enquanto os exércitos de Josué rodeavam a cidade amuralhada, os Israelitas introduziram-se sigilosamente na casa de Rajab. Uma vez que conseguiram introduzir quarenta soldados, Josué e o resto do exército, que esperavam fora da cidade, tocaram os trompetes e atacaram. Os quarenta soldados apanharam a cidade completamente de surpresa e conquistaram-na. Apenas Rajab salvou-se do banho de sangue que percorreu Jericó inteiro.

África - uma história rejeitada

Documentário: A História Oculta do Terceiro Reich

Descrição: A fascinação de Hitler com a ascensão e queda da "raça ariana", a sua obsessão com a ordem e a disciplina, e seus messiânicos planos de controle total do mundo... desde as origens ocultas do Nazismo até a morte de seu mentor Adolf Hitler, a ascensão da doutrina do "Nacional Socialismo" foi construída tendo como base um mundo de sinistros acontecimentos e crenças, construído através da propaganda política e manipuladora. Agora, utilizando filmagens recentemente descobertas, este documentário explora este incrível fenômeno acontecido na Alemanha, durante as décadas de 30 e 40, e que deu origem à Segunda Guerra Mundial. Pela 1.a vez os assustadores rituais e crenças do nazismo, como a origem da cruz suástica e a construção do Holocausto, são explorados e desvendados para o público em 3 documentários sobre os segredos do terceiro Reich e que também descortinam o PAPEL FUNDAMENTAL DO MISTICISMO na doutrina extremamente racista de Adolf Hitler, notadamente os escritos de Madame BLAVATSKY (Teosofia), Guido von Lista (Ariosofia) e Jorg Lanz (Teozoologia).

A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO DE PIERRE BOURDIEU

No vídeo abaixo podemos entender melhor as idéias de Bourdieu sobre a escola. O vídeo foi produzido pela Univesp TV para o Curso de Pedagogia da Universidade Virtual do Estado de São Paulo. O artigo abaixo destaca as contribuições e aponta alguns limites da Sociologia da Educação de Pierre Bourdieu. Na primeira parte, são analisadas as reflexões do autor sobre a relação entre herança familiar (sobretudo, cultural) e desempenho escolar. Na segunda parte, são discutidas suas teses sobre o papel da escola na reprodução e legitimação das desigualdades sociais. Para ler o artigo clique aqui